Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 15.03.11

Meus queridos netos:

 

Li, há dias, num jornal, que os rebuçados da Régua iam ser certificados. Parece uma notícia insignificante mas, para mim, foi uma estrada que me levou a recuar muitos anos, ao tempo em que vinha de férias, no verão, para passar dois meses a descansar na minha pequena aldeia, junto da família e amigos.

 

Ao contrário dos primeiros anos, o comboio já me não levava até ao Pinhão, onde nunca me cansava de admirar os belíssimos azulejos, a azul e branco, decorados com cenas do mundo rural da região, sobretudo as referentes às vindimas. Daí a viagem prosseguia, então, a cavalo, geralmente acompanhada pelo meu Pai ou por um primo mais velho do que eu e sempre disposto a fazer-me companhia. E era uma valente estirada!

 

Agora, num comboio mais rápido e mais cómodo, apeava-me na Régua e apanhava uma camioneta que me levava até à Quinta do Convento, a poucos quilómetros para lá de Távora. Aí esperava-me idêntica cavalgada, desta vez já mais curta, mas que nos obrigava a descer até ao rio e a subir um caminho tão sinuoso que era chamado “As Voltas”. É que, só uns anos mais tarde, a estrada passou a contemplar também a minha freguesia e outras pequenas terras vizinhas.

 

Mas voltemos, agora só via recordação, até à Régua e aos seus inesquecíveis rebuçados.

 

Nem era preciso ir ao Largo. Encontravam-se ali mesmo, à mão de semear, acompanhados pelas bilhas de água fresca, pois os vendedores ou as vendedeiras, alguns muito conhecidos, aproximavam-se da saída da estação, com as suas cestas de vime forradas de alvas toalhas bordadas e com as suas batas verdes que mais tarde foram substituídas (pela ASAE?) por batas e lenços brancos. Apregoavam:

 

“Olha os rebuçados da Régua!

Levem lá um saquinho!”

 

Eram elas próprias que os faziam em casa (por isso lhes chamavam rebuçadeiras) e cada uma delas guardava ciosamente o seu segredo, embora houvesse uma base comum: água, com casca de limão e açúcar, fervidos até caramelizar em ponto de lágrima; passam para a pedra da mesa, untada de margarina, faz-se um estreito rolo e, ainda a escaldar, cortam-se em pequenos pedaços cilíndricos que se embrulham em papel de seda, na forma de laçarote.

 

É assim que me lembro deles e ainda hoje me parece sentir aquele delicioso sabor, tão singelo mas tão singular.

             

 

 

Estação ferroviária do Pinhão - Douro

 


 

Peso da Régua e o rio Douro

 

publicado por clay às 10:39 | link do post | comentar | favorito
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