Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 27.05.11

 

                A minha avó chama-se Clementina Ferreira de Sousa Relvas, mas eu chamo-a simplesmente vóvó, por razões óbvias. É claro que também a podia chamar só avó ou Clementina, mas acho que o nome vóvó é mais adequado para ela.

 

               A minha avó é uma pessoa muito activa que não consegue parar quieta. Todas as manhãs se levanta muito cedo (por volta das seis da manhã) e, depois de passar muito tempo a rezar, começa a mexer-se logo. Realmente há muito que fazer numa casa como aquela onde a minha vóvó mora. Tem de se preparar o almoço e o jantar, tratar da roupa e satisfazer os muitos pedidos da sua netinha Cristina (eu).

 

             Quando era mais pequena era a minha vóvó que ficava comigo, porque a minha mami trabalhava muito e nem sempre tinha tempo para mim. Fazíamos muitas passeatas e divertíamo-nos muito. Sendo a vóvó uma pessoa muito activa, alinhava sempre nas minhas brincadeiras maluquinhas. Gostava muito de ir a um parque (o parque dos índios, em Monsanto) e então lá ia a minha vóvó comigo a puxar o meu carrinho (quando ainda era um bebé). Tenho de confessar que não era dos bebés mais magrinhos, pois o meu pai (Joaquim Relvas) dava-me valentes biberões de fruta com muitas vitaminas e cálcio e eu, sendo uma menina gulosa como sou (ainda hoje), comia o produto todo e chorava por mais.

 

            Nestes passeios a minha avó sempre foi muito divertida e nunca parava de me fazer sorrir. Claro que nós não só íamos passear a este tal parque, também íamos a outros sítios: por exemplo, ao Jardim do Beau Séjour, que ficava mesmo ao lado da casa que a minha vóvó então habitava, e aí comíamos os grandes lanches que levávamos numa cestinha de verga, enfeitada com uma toalha bordada. Nunca nos esquecíamos de dividir o pão com os cisnes, patinhos e pombos que animavam o lago e também com os peixinhos vermelhos que se saracoteavam na pequena gruta, revestida de avencas. Eu gostava muito da natureza. Então, uma vez, convenci a minha vóvó a ir comigo numa “expedição aventureira”. Nós levávamos um piquenique e mais algumas coisas, como por exemplo um bloco notas, uma esferográfica, uma lupa, um livro sobre a natureza e os seus animais etc. O nosso destino era fazer uma caminhada sobre a serra de Monsanto, a pé, e contemplar a paisagem e os animais. A nossa caminhada foi um sucesso! As horas decorridas pareceram-nos só escassos minutos. Pois, porque no mundo que eu tinha com a minha avó o tempo passava sempre demasiado depressa.

 

             Agora que já estou mais crescida (14 anos) já não faço mais coisas desse género com a minha vóvó. Mas, para compensar, vamos as duas juntas a museus, ao cinema, ao teatro etc., enfim a sítios que, quando eu era pequenina, não me interessavam assim tanto (para falar verdade, achava muito mais divertido estar com a minha vóvó num mundo imaginário, nas nossas tão criativas brincadeiras, do que ir a sítios desses). Mas agora, mais amadurecida, já gosto de fazer companhia á minha avó nessas actividades. Com a idade mudam os gostos.

 

           Sendo os meus pais divorciados, e vivendo eu, neste momento, no Algarve, longe da minha vóvó (que mora em Lisboa), não posso passar tanto tempo com ela de como costumava passar até aos meus nove anos. Agora venho visitar a minha avó a Lisboa quando tenho férias. E ela às vezes também me vem fazer uma visita-surpresa em conjunto com o meu vovô (Emílio Miranda Relvas). Quando a minha vóvó me vem visitar, então é a minha vez de lhe mostrar as coisas boas do Algarve (que são muitas). Assim ela também tem oportunidade de escapar ao seu dia-a-dia e estar com a sua neta.

 

        Claro que eu poderia escrever muito mais sobre a minha vóvó, mas acho que vocês já podem imaginar mais ou menos como ela é. Resumindo e concluindo ela é uma pessoa amável, carinhosa, que se preocupa com os outros, gentil, teimosinha (mas só de vez em quando) e acima de tudo é a minha VÓVÓ!

 

Com muito carinho para a melhor vóvó do mundo!

 

Da sua netinha,

 

Cristina Kohlhoff Feijó Relvas

23 de Julho de 2009

 

 

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Sexta-feira, 20.05.11

 

            Meus queridos netos:     

 

               Apesar de, aparentemente, se tratar duma realidade banal, nas minhas recordações é aquela que se impõe com maior nitidez e me provoca emoções mais profundas.

 

             Até ao fim da Escola Primária, só ocasionalmente ali ia acompanhar a minha Mãe e deleitar-me com o cheiro dos manjericos e outras flores que debruavam os talhões. Mas, se caía um grande nevão, a horta transformava-se num sítio mágico: eu imaginava inúmeros seres, pequenos e ladinos, a recolherem-se no poço da mina escavado na rocha e invisíveis aos olhos do meu Pai que ali tinha de se deslocar, com mais frio do que esforço, para trazer as grandes tronchudas que logo se transformavam na deliciosa sopa com batata e feijão, de todos os dias. Uma vez por outra, alegravam a grande travessa de bacalhau com todos que quase fazia ser novamente Natal, data em que nunca faltava, então acompanhado pelo polvo e pelas filhós.

 

            Quando vim estudar para Lisboa e dada a dificuldade e carestia dos transportes, só regressava a casa nas férias grandes e, então sim, ir regar a horta era uma regalia que raramente dispensava.

 

            Não ficava longe da nossa casa e o caminho, embora a subir, proporcionava uma ampla panorâmica: avistava-se, para lá do rio Távora escondido pelas altas montanhas de Chavães, a vila de Tabuaço, cujas vidraças batidas pelo sol quase poente, despediam raios coloridos que nos turvavam o olhar e, lá muito ao longe, as cumeadas do Marão, não verdes como na realidade mas azuis, quase negras, pela distância.

 

            A pequena horta era formada por dois talhões ligeiramente desnivelados: no verão, um era todo verde, plantado de feijoeiros, cebolas, alhos e, quando o meu Pai nos queria fazer uma surpresa, de algumas cenouras que, só depois de arrancadas, exibiam o seu colorido; no outro, predominava o vermelho dos tomates e dos grandes pimentos suculentos.

 

            A horta tinha sido uma herança dividida por três irmãos e a mina ficava na nossa parte, pelo que tínhamos direito a três dias de rega, enquanto para os outros dois herdeiros, só ficavam os restantes quatro dias. Tudo devidamente espaçado, para poupar as pobres plantas. Além disso, todos podiam abastecer-se de água para as suas necessidades, direito que não era muito utilizado, dada a dificuldade do transporte.

 

                E eu? Qual era a minha função e o meu fascínio? Abrir o bueiro da mina e, com um pequeno sacho, encaminhar a água pelos regos, provendo, rigorosamente, a sua distribuição pelos dois talhões? Claro. Mas o fundamental e mais presente na minha memória, era o gorgolejar da água ao ser absorvida pela terra sequiosa e, pouco tempo depois, ver todas as plantas erguerem-se numa verdadeira ressurreição.

 

            Hoje vivo na cidade, rodeada de asfalto e ouço falar nas hortas municipais que, nos arredores, ajudam a mitigar a crise e as saudades daqueles que, como eu, tiveram, no campo, uma pequena horta.  

 

                                                Lisboa, 4 de Maio de 2011

 

                                                   Clementina Relvas

                                                     Exemplo de uma horta urbana

https://blogs.sapo.pt/editjournal.bml?usejournal=torrente-de-emocoes&itemid=68116#tab0-773061

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publicado por clay às 00:35 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 07.05.11

                                                                   

             Aquela família de coelhos vivia junto a um extenso milheiral, para onde se mudara, há pouco tempo, quando nasceram os dois irmãos gémeos: o Pacato e o Ladino. O milho já estava crescido, com as espigas gordas quase no ponto de serem colhidas.Mal tinham chegado e construído a sua lura, logo o Pai se tinha apressado a recomendar:

 

           - Meninos, estamos instalados num sítio agradável, fresquinho, mas muito perigoso: esse milheiral que se estende à vossa frente, a perder de vista, é uma perigosa armadilha. Espero que nenhum de vós se aventure a embrenhar-se nesse autêntico Labirinto.

 

           O Pacato tomou logo a decisão de obedecer e ficou calado. Mas o Ladino não se conteve que não perguntasse, com os olhitos vermelhos a luzir de curiosidade:

 

           - Ó Papá, o que é um labirinto?

 

           - Olha, é um lugar muito complicado, com muita dificuldade de se lhe encontrar a saída.

 

           - Então, lá dentro, não há ser vivo que se atreva a procurar conhecê-lo?

 

          - Claro que há. Ratos, lagartixas e também alguns passarinhos, sobretudo quando as maçarocas começam a estar maduras.

 

          O Ladino pensou logo para consigo que aquele devia ser um lugar maravilhoso para uma excitante aventura de verão. Calou-se muito bem calado e, ainda não tinham passado dois dias, enfiou-se por um estreito rego ali mesmo à porta de casa e partiu. Não levou nenhum alforge com comida pois já estava a antecipar as saborosas ervinhas que cresciam por toda a parte. O seu primeiro encontro foi com um rato, que fugiu dele a toda a pressa, confundindo-o com um gato que já, por mais duma vez, o tinha perseguido, furioso.

Depois encontrou uma lagartixa, que o olhou entre divertida e interessada e lhe disse:

 

         - Tu sabes bem no que te meteste? Olha que este campo de milho parece que não tem fim e não vai ser fácil encontrares uma saída.

 

         - Não há-de ser tão mau assim. Ainda há pouco avistei um pardal que, deliciado, debicava uma maçaroca douradinha e não parecia nada preocupado.

 

         - Ah pois! Um pardal! Mas tu não reparaste - e não sabes – que os pardais e todas as outras aves sobrevoam o milheiral e, lá de cima, conseguem ter o mapa de todas as saídas de que, aliás, nunca se servem, porque do que eles gostam é de voar?

 

        O Ladino, que já se encontrava bem no meio daquele labirinto, começou a ficar apreensivo: como é que iria escapar daquele emaranhado de canas e folhas? Perguntou à lagartixa:

 

        - E tu? Como é que vais sair daqui?

 

        - Eu? Eu sou um caso à parte. Em primeiro lugar, sou pequenina, tenho um corpo muito flexível e esgueiro-me por qualquer pequeno espaço. Além disso, vim para aqui com a minha família quando acabaram da fazer a sementeira e, irrequieta como sou, conheço todos os recantos e também todas as saídas.

 

       - Bom. Então acabou-se o pavor que já me estava a atormentar. Tu, que me pareces tão simpática, vais-me acompanhar até à saída que dá para a minha lura, não vais?

 

       A lagartixa reflectiu um pouco e disse:

 

      - Tens sorte porque hoje ainda não fiz quase nenhum exercício e vou tentar ajudar-te. Mas vai demorar muito tempo, que eu sou lenta e remexida e já agora, aconselho-te a não voltares a meter-te em sítios que não conheces, por muito sedutoras que as aventuras te pareçam.

 

      Foi então que o Ladino se lembrou das recomendações do Pai, mas não disse nada à lagartixa.

 

                                                           Lisboa, 6 de Maio de 2011

                                                                Clementina Relvas

                                                                                                                                                                      

                                                  Ladino

publicado por clay às 23:53 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 01.05.11

 

A velha casa fazia parte da herança do meu Pai, ao ficar viúvo e sem filhos duma senhora mais velha com quem casara, ao regressar do Brasil. Com a casa, herdara também algumas propriedades rurais, que lhe permitiram o desafogo que não encontrara na aventura brasileira.

 

Depois, ao casar em segundas núpcias com a minha Mãe, uma rapariga de vinte anos, metade da idade dele, começaram a chegar os filhos. Eu fui a segunda, mas a primeira menina. Ora a minha Mãe tinha, de fato, ideias muito avançadas para a época, sobretudo tendo em conta que só pudera fazer a quarta classe e nunca saíra da pequena aldeia.

 

Quando tiveram de escolher um nome para mim, ela não teve qualquer hesitação:

 

- Vamos por-lhe, em homenagem à tua falecida mulher, o nome dela : Clementina.

 

Algumas pessoas da família não gostaram da escolha, mas a minha Mãe justificou-a:

 

- Se ela não teve filhos e somos nós a beneficiar de tudo o que a senhora deixou, parece-me justo que a nossa primeira filha lhe herde também o nome.

 

Foi um argumento poderoso, que preencheu todas as reticências. E assim eu fiquei a chamar-me Clementina, nome de que nunca gostei, mas que sempre me encheu de orgulho pela nobreza da atitude que esteve na sua origem.

 

Contudo, do que eu tencionava falar era da velha casa. Tinha uma sala com muita luz e três pequenos quartos sem janelas, um corredor que levava a uma ampla cozinha sem chaminé e de lareira no chão. Esta dava para uma varanda quadrada de madeira, com uma modesta balaustrada do mesmo material e, por fora, um espaço saliente, onde a minha Mãe tinha sempre muitos vasos com flores. Ficava ao lado da única rua da aldeia, sobre um pequeno largo coberto de enormes lajes de xisto. Por baixo da cozinha, com acesso por uma escada de madeira, tapada por pesado alçapão, havia uma pequena loja, com talhas de barro onde se guardava o azeite e uma amassadeira, junto da qual, ao mesmo tempo que ia deitando a água para fazer a massa, eu me quedava  assombrada pelo milagre do pão que, mais tarde, havia de sair do forno comunitário e alimentar-nos ao longo de toda a semana. Esse milagre começava, acreditava eu, com as palavras que a minha Mãe pronunciava, enquanto fazia uma cruz em cada pão tendido:

 

            "São Mamede te levede, São João te faça pão e a Virgem Santa Maria te deite a sua bênção" Em seguida espetava na massa um raminho de carqueja, que havia de o distinguir dos outros que compunham a mesma fornada.

 

            Voltemos, no entanto, à velha casa: no piso térreo, inferior, ficava uma loja para armazenar colheitas, a pocilga onde o porco ia engordando para a matança e a loja do nosso cavalo Carriço, que, bem mais tarde, havia de morrer de velho.

 

            Entretanto, porém, mais três filhos foram chegando e casa teve de ser ampliada: os meus Pais mandaram acrescentar-lhe uma grande sala e um quarto amplo e muitas janelas. Ao longo destas duas divisões e com vista para o quintal, corria uma varanda que tinha, num dos extremos – luxo pouco usual na aldeia – uma retrete que encaminhava os dejectos diretamente para um recanto, coberto de palha.

 

            Mas o que sempre mais me agradou, na parte nova da velha casa, era o alpendre de pedra virado ao Marão, que prolongava o quarto onde eu me instalei, anos a fio, quando ia passar as férias grandes. Como o sol não lhe batia de chapa, e passadas as horas de maior calor, era ali que eu me instalava, vendo, ao longe as vidraças das casas de Tabuaço nimbadas de mil cores pelo sol poente e, mais longe ainda, a montanha das minhas saudades. Foi ali que me encontrei com tantos livros do meu enlevo, matéria fundamental da minha cultura literária e onde também ensaiei os primeiros passos na poesia.

 

                                               Lisboa, 11 de Abril de 2001

 

                                               Clementina Relvas

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