Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 30.06.11

                      Meus queridos netos:

 

 

            Mal tinha feito três anos, o Menino Jesus pediu a S. José:

 

            - Papá, sabes qual é o meu maior desejo?

            - Não, não sei, mas vais-me dizer qual é, não vais?

            - Olha, Papá , aquilo de que eu mais gostava era de ter uma ovelha pequenina. Tu fazias-lhe uma caminha de madeira, baixinha, e eu punha-a no meu quarto, onde não incomodasse ninguém.

 

            S. José prometeu, com alguma hesitação:

 

            - Vou ver se consigo satisfazer o teu pedido…

 

            Era um bocado difícil porque, nos campos em volta de Nazaré, havia, sim, alguns rebanhos de cabras, mais frugais, a que qualquer rebento de erva ou até um pedacinho de papiro, que alguém deitava fora, chegava para lhes ir matando a fome.

 

            Às vezes passavam por ali algumas caravanas de beduínos, com os seus camelos onde transportavam todos os haveres e geralmente seguidos por grandes rebanhos de cabras, um tanto escanzeladas por se terem esgotado totalmente os resquícios de alimento que as iam aguentando de pé no anterior acampamento.

 

            Por mais duma vez S. José procurou encontrar a ovelhinha de que andava à procura, mas em vão. Até que, finalmente, obteve uma resposta mais ou menos satisfatória:

 

            - De facto, nós tínhamos uma ovelhinha encantadora mas muito imprevidente. Um dia em que tivemos de descer um íngreme despenhadeiro, a atrevida ovelhinha, sem atender aos nossos avisos, escorregou numa pedra e foi cair num buraco, donde, muito a custo, a conseguimos tirar. Isto foi na véspera de partirmos para esta viagem e todos ficámos desolados, principalmente as crianças, ao vermos que ela tinha fracturado as duas pernas e não podia acompanhar-nos. Talvez lhe devêssemos ter posto fim à vida para lhe pouparmos o sofrimento em que se encontrava. Mas ninguém foi capaz de tal crueldade. E lá a deixámos, muito aconchegada na palha da manjedoura, e nós sempre com este peso na consciência.

 

            S. José, procurou manter um ar aparentemente desinteressado mas, como quem não quer a coisa, adiantou:

 

            - Nenhum de vós será capaz de me levar até à pobre ovelhinha? Garanto que não ficará sem recompensa.

 

            O chefe dos beduínos pensou para consigo:

 

            - Querem ver que este nazareno não vai ter os nossos escrúpulos e vai fazer um festim para a família com a nossa desventurada ovelhinha?

 

            Mas assentiram. Entretanto o Menino Jesus, que andava por ali a brincar com outros meninos, teimou em acompanhar o Pai, tal era a sua ansiedade de ter, enfim, a ovelhinha dos seus sonhos.

 

                   Quando chegaram ao acampamento abandonado, logo avistaram a manjedoura e, nela, à beira da morte, a ovelhinha desobediente. Foi o Menino Jesus que, apesar da sua pouca idade, lhe pegou com todo o cuidado, a atravessou nos seus ombros frágeis e se pôs logo a caminho de casa, na esperança de que a sua Mãe, tão sabedora de curas, mezinhas e tão compassiva, o ajudasse a salvar o pobre animal.

 

            Mas qual não foi o espanto de todos quando, colocada no chão com o maior desvelo, a ovelhinha se pôs em pé e desatou aos pulos e às marradinhas, na brincadeira com o seu novo amigo, o Menino Jesus. S.José e Nossa Senhora trocaram um olhar cheio de amor e de mistério e só à noite, quando o Menino se foi deitar abraçado à ovelhinha é que Nossa Senhora desabafou, baixinho, para que ninguém a ouvisse:

            - Olha, José, cá para mim esta é a primeira das inúmeras ovelhas dum grande rebanho que de que Ele há-de vir a ser o Bom pastor e pelas quais dará a sua própria vida.

 

            S. José assentiu e ambos guardaram estas palavras nos seus corações.

 

                                   Lisboa, 11 de Junho de 2011

 

                                            Clementina Relvas

 

publicado por clay às 10:44 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 22.06.11

          

 

          Meus queridos netos:

 

 

                Não vos garanto que esta não seja mais uma daquelas inúmeras lendas que se foram acumulando em torno de Santo António de Lisboa, um dos mais sábios doutores da Igreja, mas também um dos mais queridos santos do nosso povo, que todos os anos lhe dedica as festas populares, enchendo de luz e cor a Avenida da Liberdade e de animação todos os bairros populares lisboetas.

            É verdade que não tenho nenhum meio de prova, mas acho muito natural que Fernando de Bulhões, o nome que lhe deram ao nascer, em Lisboa, em 1195, tivesse acompanhado muitas vezes o seu pai em passeios à beira Tejo, rio que então entrava cidade dentro. Nesses passeios, não deixou certamente a criança, tão boa observadora, de se deleitar a ver os cardumes de peixes, grandes e pequenos, desde os barbos e os linguados até aos divertidos golfinhos que, num rio ainda não poluído, corriam atrás de barcos e canoas e miravam, curiosos, as caravelas vindas de terras cada vez mais distantes.

           Mas a infância passa num sopro e, em breve, o nosso menino já era ordenado cónego regular de Santo Agostinho, Ordem que mais tarde trocou pela de S. Francisco, adoptando o nome de António e dedicou-se à pregação da doutrina de Cristo, insistindo na necessidade de seguir os Seus Mandamentos. Fascinado pelo exemplo de fé dos Santos Mártires de Marrocos, decidiu dedicar-se à evangelização daquela parte do Norte de África. Na viagem de barco para aquele país, não lhe devem ter passado despercebidas outras espécies de peixes: os polvos, as rémoras e calculo que também os peixes voadores, sempre aos saltinhos à volta dos navios.

            Uma doença grave de que foi acometido veio por fim aos seus projetos e teve de regressar à Europa: em França, trava uma luta antecipada pelo que nós agora chamamos os direitos humanos, dando especial relevo à defesa dos mais fracos e desprotegidos.

            Tempos depois partiu para Itália e, da cidade de Pádua, onde veio a falecer em 1231, estendeu a sua ação missionária, seguindo as regras da Ordem de S. Francisco por um vasto território mais ou menos convulso, onde conquistou inúmeros seguidores.

            E um dos lugares onde gosto de o imaginar é junto a um dos numerosos canais de Veneza, à espera de grandes multidões, ansiosas por ouvirem a palavra dum orador tão exímio que depressa se tornou respeitosamente conhecido como a “língua de ouro”. Só que, naquele dia, talvez porque era grande a perturbação com o receio da peste que se estava a aproximar da cidade, poucas pessoas tiveram a coragem de deixar o abrigo das casas e o nosso santo viu-se, contra o costume, a pregar a uma assistência reduzida e desatenta.

          Foi então que, como no século XVII nos é referido pelo célebre escritor e pregador, o Padre António Vieira, Santo António pronunciou a célebre frase: “Já que os homens me não querem ouvir, escutai-me vós, peixinhos do mar”

            E diz-se que, de repente, num verdadeiro milagre, se aglomerou, junto à margem um imenso cardume de peixes, grandes e pequenos, escutando atentamente, com as cabeças fora da água, as sábias palavras do taumaturgo, sem sequer se aperceberem de que respiravam sem oxigénio.

 

                                       Lisboa, 14 de Junho de 2011

 

                                           Clementina Relvas

           

publicado por clay às 11:54 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 15.06.11

 

                        Meus queridos netos:

 

             Era um dia como todos os dias. As pessoas tinham-se dispersado, nas grandes cidades como nas pequenas aldeias, cumprindo as suas rotinas ou procurando escapar-lhes.

 

            A pequenita Haruki, cuja graciosidade justificava o significado deste nome, “árvore da primavera”, mal tinha acabado de comer o delicioso sushi que sua mãe, Arata, “a doce”, tanto se esmerara a preparar-lhe, precipitara-se, feliz, ao encontro do seu vizinho e amigo Yukito. Este, com os engraçados trejeitos do seu rosto, não podia deixar de lembrar o “coelho da neve”, que estava subentendido no seu nome. Eram como unha com carne e vibravam com as mesmas brincadeiras.

 

           Sendai era uma cidade importante, não só pelo seu milhão de habitantes, como pelas já antigas centrais nucleares, que forneciam energia eléctrica para a quase totalidade do país.

 

            O pai de Haruki chamava-se Ken, como o marido da boneca  Barbie, a preferida da menina e o seu nome significava “poderoso”. Realmente, para Haruki, não havia no mundo ninguém com tanta força e tão capaz de proteger a sua pequena família de todos os perigos, fosse qual fosse a sua magnitude. Obedecia-lhe cegamente, pois, apesar de ele não ser visivelmente tão doce como a mãe Arata, sabia sempre o que era melhor para todos.

 

            Gostava muito de Yukito, filho dum seu colega de empresa e ficava contente quando os via brincar juntos. Proibira-os, contudo, de se aproximarem das centrais nucleares e como, perto das suas casas, havia um grande parque arborizado, com muitos e modernos meios de diversão, era ali que passavam os tempos livres. Como moravam nos arredores, avistavam o mar lá muito ao longe e, quando os pais decidiam fazer praia, iam sempre para sítios distantes, mais a sul.

 

            Mas nem por isso o mar deixava de ser, para eles, um ponto de atração, embora resumido àquela imensa toalha líquida, inacessível, com as ondas ausentes, como se não existissem.

 

            Não assim nesse dia 11 de Março, pelas duas horas da tarde, quando viram tudo desmoronar-se à sua volta, enquanto os dois amiguinhos, abraçados, esperaram cinco intermináveis minutos que a terra se aquietasse. Nunca, nas suas curtas vidas, tinham visto nada assim e o seu espanto não teve limites quando viram o mar crescer pela terra dentro, em ondas enormes, que traziam consigo dezenas de carros, casas e até barcos de grande porte.

 

            Sempre abraçados mas cheios de pavor, fugiram em direção à casa de Haruki. Ainda não tinham chegado a meio do caminho quando, sem palavras, foram arrastados pelos respectivos pais para longe, para muito longe daquele inferno, onde nem sequer faltava o realismo das chamas duma imensa fogueira, resultado da explosão dum depósito de combustível.

 

            Já no Centro de Acolhimento, onde se aglomeravam conhecidos e desconhecidos é que ouviram falar dum terramoto de grau nove, do terrível tsunami que se lhe seguiu e engoliu a maior parte da sua cidade e duma grande catástrofe que estava prestes a acontecer nas centrais proibidas.

           

                        Lisboa, 23 de Março de 2011

 

                              Clementina Relvas

tags:
publicado por clay às 23:28 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 08.06.11

 

        Meus queridos netos:

 

       Da minha janela, num sétimo andar, em Lisboa, posso ver todo o vasto mundo: alguns prédios de muitos pisos que não escondem um bonito bairro residencial, com as moradias de telhados vermelhos a espreitar, curiosas, através de árvores copadas e verdes; e, do lado esquerdo, uma linha de caminho de ferro suburbano que me leva, e não só em imaginação, até às paisagens e monumentos inolvidáveis de Sintra ou, se quiser tomar o sentido contrário, pelo Fertagus, até ao mar e às praias luminosas da Costa da Caparica. Se me deixar levar nas asas do sonho, tenho à minha disposição toda a costa portuguesa com o seu mar azul e cheio de recortes caprichosos, Trás os Montes e as suas paisagens agrestes, os vinhedos do Douro e o seu rio azul, a Beira cheia de tradições e belezas ocultas, o Ribatejo dos touros e campinos, o Alentejo com o infinito espelhado nas suas extensas planícies e o Algarve, que me encanta sobretudo quando visto do mar.

 

       Por vezes, parto para países exóticos que já visitei, mas evito fazê-lo para não baralhar os meus pensamentos com tantas maravilhas naturais, tantas obras de arte recentes ou carregadas de História. Geralmente fico-me a olhar, pela minha janela, para a floresta de Monsanto, aqui ao lado, e penso na criatividade infinita de Deus, que a dotou de tantas árvores e arbustos, variados e magníficos. Então, ora me detenho a observá-los sem poder conter o espanto, ora fico extasiada com o alto poste de telecomunicações, fruto do trabalho do Homem, inspirado pela Suprema Sabedoria que vem em sua ajuda.

 

       Quero eu dizer que, seja o que for que me prenda o olhar, a atenção ou o pensamento, é sempre a presença de Deus, criador de todas as coisas, que me projeta mais além, para lá do circunstancial e efémero, das nuvens acasteladas ou do céu azul e luminoso, para um espaço que não sou capaz de preencher, um espaço infinito onde Deus é tudo em todos e onde jamais existirão barreiras ou limites.

 

      Por isso costumo pensar que a minha janela é uma oportunidade para comungar com Deus através da Suas obras, na imensa Igreja do Universo, onde todos somos acolhidos pela Sua bondade e misericórdia.

 

                                   Lisboa, 7 de Julho de 2011

                                       Clementina Relvas

 

Da minha janela...

 

 

 

publicado por clay às 11:59 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 01.06.11

                     Meus queridos netos:

 

         Tinha nascido à beira dum regato, uma amostrazinha de salgueiro que, em breve se tornara verdejante e ramalhudo. O terreno era fértil e a água era, claro, coisa que não faltava, mesmo naqueles estios sufocantes em que o regato se transformava num tímido fiozinho, difícil de distinguir no meio do feno que, rapidamente, crescia e tombava sobre ele.

 

       Gostava de relembrar a sua vida feliz, principalmente depois que bandos de pardais, alguns melros e toutinegras começaram a construir os ninhos nas suas ramadas agora seguras e acolhedoras. Primeiro, sentia um certo desconforto com toda aquela movimentação: colocar e moldar o material dos ninhos, com as discussões que por vezes se seguiam, frequentemente no meio de grande alarido:

 

      - Então tu não vês que aí é quase a pontinha do ramo e… se um dos nossos filhotes, mais curioso, se debruça um pouco e caem todos desta perigosa altura…

 

      - Todos? E se só tivermos um filho ou dois?

 

      - Vem a dar o mesmo, não achas? Embora eu sonhe com grandes ninhadas gorjeantes que, embora nos tragam muito trabalho enquanto dependerem de nós, serão a alegria das nossas vidas.

 

      E lá se iniciava a mudança, com muitas hesitações, até encontrarem um tronco já poderoso, onde começavam as “obras”. Ali ficavam o tempo necessário para que os “miúdos” se desenvolvessem e se aventurassem no voo e na busca de alimento.

 

     Os anos foram passando, as gerações também e, quando havia algum elemento mais conservador que por ali se fixava, o salgueiro passava a ser a “nossa casa” e era o melhor dos mundos.

 

     Até que um dia, um passante descuidado e ainda muito alheio à preservação do ambiente, deitou fora uma beata de cigarro mal apagada e um pequeno incêndio começou a lavrar nas imediações do já velho salgueiro.

Aparentemente, este não foi atingido mas a verdade é que definhava dia a dia e foi secando, sem remédio que lhe valesse.

 

  - São os anos… dizia de si para si. Tenho de dar graças a Deus por uma vida tão longa e tão feliz, mas agora, por aqui me quedarei até ser transformado em lama ou pó, sem qualquer utilidade.

 

   “Quem sabe?”. Era uma vozinha interior, muito sumida, mas que lhe dava algum alento e esperança, nem ele sabia bem de quê.

 

    Iria sabê-lo em breve. Algum tempo depois, passou por ali um velhinho, muito curvado pela idade avançada e por algumas artroses, que costumava, com muito esforço, acompanhar um neto, estudante de botânica, nas suas investigações sobre plantas, que ele, autodidata, sempre complementava com a sabedoria duma longa prática.

 

    De repente, o neto parou, olhou fixamente para o salgueiro e disse:

 

    - Repara Avô. Aquele ramo à esquerda, embora seco, podia oferecer-te um bom apoio nestas caminhadas, já que não queres usar, por a achares pretensiosa aquela bonita bengala que te trouxe da feira de Trancoso. Mas, como eu tenho uma certa queda para o artesanato, garanto que te fazia uma rústica mas bem cómoda daquele pau de salgueiro.

 

    - Não duvido e aceito - respondeu o Avô sem hesitar.

 

   E, pelo corpo moribundo da velha árvore, correu um frémito de alegria que o levou a suspeitar de que talvez - quem sabe? – a eternidade…

 

            Mas o seu raciocínio não conseguiu ir mais longe.

 

                                   Lisboa, 31 de Maio de 2011

 

                                           Clementina Relvas

 

 

publicado por clay às 09:54 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Junho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
23
24
25
26
27
28
29
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds