Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 27.07.11

 

 Não são nossos só os do nosso sangue.

 Também os que nos deram seu saber,

 partilharam connosco - e tanto foi! -

 a pedra preciosa, o foco do seu ser.

 

 Cedo a atraiu Portugal, a cultura

 e a obra dos nossos escritores.

 Começou por Camilo e, a seguir,

 Eça,  Pessoa, sempre entre os maiores.

 

 Mestra, doutora e, sobretudo aberta

 ao que aumentasse o seu conhecimento,

 foi a Retórica e a Interpretação

 que mais fundo tocaram seu talento.

 

 Aberta ao “puro desejo de diálogo”,

 lavrou uma crítica magistral,

 no que chamou o seu ”longo bilhete”

 ao brilhante crítico de Cunhal.

 

 Eu conheci-a alegre em alguns cursos,

 cheia de entusiasmo e de vigor.

 No Hospital, ficámos lado a lado,

 suplantando ela, em muito, a minha dor.

 

 Esteve rodeada pelos seus,

 já sem poder falar, mas mesmo assim,

 passando noites a dizer; “Papai,

 Mamãe, Amor” vinde agora até mim. 

 

          Lisboa, 26 de Julho de 2011

 

               Clementina Relvas

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Sexta-feira, 22.07.11

                      Meus queridos netos:

 

 

Mal tinha feito três anos, o Menino Jesus pediu a S. José:

 

            - Papá, sabes qual é o meu maior desejo?

            - Não, não sei, mas vais-me dizer qual é, não vais?

            - Olha, Papá , aquilo de que eu mais gostava era de ter uma ovelha pequenina. Tu fazias-lhe uma caminha de madeira, baixinha, e eu punha-a no meu quarto, onde não incomodasse ninguém.

 

            S. José prometeu, com alguma hesitação:

 

            - Vou ver se consigo satisfazer o teu pedido…

 

            Era um bocado difícil porque, nos campos em volta de Nazaré, havia, sim, alguns rebanhos de cabras, mais frugais, a que qualquer rebento de erva ou até um pedacinho de papiro, que alguém deitava fora, chegava para lhes ir matando a fome.

 

            Às vezes passavam por ali algumas caravanas de beduínos, com os seus camelos onde transportavam todos os haveres e geralmente seguidos por grandes rebanhos de cabras, um tanto escanzeladas por se terem esgotado totalmente os resquícios de alimento que as iam aguentando de pé no anterior acampamento.

 

            Por mais duma vez S. José procurou encontrar a ovelhinha de que andava à procura, mas em vão. Até que, finalmente, obteve uma resposta mais ou menos satisfatória:

 

            - De facto, nós tínhamos uma ovelhinha encantadora mas muito imprevidente. Um dia em que tivemos de descer um íngreme despenhadeiro, a atrevida ovelhinha, sem atender aos nossos avisos, escorregou numa pedra e foi cair num buraco, donde, muito a custo, a conseguimos tirar.

 

            Isto foi na véspera de partirmos para esta viagem e todos ficámos desolados, principalmente as crianças, ao vermos que ela tinha fracturado as duas pernas e não podia acompanhar-nos. Talvez lhe devêssemos ter posto fim à vida para lhe pouparmos o sofrimento em que se encontrava. Mas ninguém foi capaz de tal crueldade. E lá a deixámos, muito aconchegada na palha da manjedoura, e nós sempre com este peso na consciência.

 

            S. José, procurou manter um ar aparentemente desinteressado mas, como quem não quer a coisa, adiantou:

 

            - Nenhum de vós será capaz de me levar até à pobre ovelhinha? Garanto que não ficará sem recompensa.

 

            O chefe dos beduínos pensou para consigo:

 

            - Querem ver que este nazareno não vai ter os nossos escrúpulos e vai fazer um festim para a família com a nossa desventurada ovelhinha?

 

            Mas assentiram. Entretanto o Menino Jesus, que andava por ali a brincar com outros meninos, teimou em acompanhar o Pai, tal era a sua ansiedade de ter, enfim, a ovelhinha dos seus sonhos.

 

                   Quando chegaram ao acampamento abandonado, logo avistaram a manjedoura e, nela, à beira da morte, a ovelhinha desobediente.

 

            Foi o Menino Jesus que, apesar da sua pouca idade, lhe pegou com todo o cuidado, a atravessou nos seus ombros frágeis e se pôs logo a caminho de casa, na esperança de que a sua Mãe, tão sabedora de curas, mezinhas e tão compassiva, o ajudasse a salvar o pobre animal.

 

            Mas qual não foi o espanto de todos quando, colocada no chão com o maior desvelo, a ovelhinha se pôs em pé e desatou aos pulos e às marradinhas, na brincadeira com o seu novo amigo, o Menino Jesus.

 

            S.José e Nossa Senhora trocaram um olhar cheio de amor e de mistério e só à noite, quando o Menino se foi deitar abraçado à ovelhinha é que Nossa Senhora desabafou, baixinho, para que ninguém a ouvisse:

 

            - Olha, José, cá para mim esta é a primeira das inúmeras ovelhas dum grande rebanho que de que Ele há-de vir a ser o Bom pastor e pelas quais dará a sua própria vida.

 

            S. José assentiu e ambos guardaram estas palavras nos seus corações.

 

                                   Lisboa, 11 de Junho de 2011

 

                                            Clementina Relvas

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Quarta-feira, 13.07.11

 

                Meus queridos netos:

 

 

            Já que comecei a falar-vos dos animais da Família de Nazaré, não posso omitir-vos um dos mais importantes.

 

            Desde muito criança, Maria tinha uma predilecção especial pelas pombinhas que, todas as manhãs se juntavam em bando à porta da sua casa, a debicar as abundantes tâmaras maduras espalhadas pelo chão. Quando não era época de tâmaras, a menina deitava-lhes sementes às mãos cheias, especialmente de cevada e de sésamo, que abundavam no celeiro familiar.~

 

            Maria gostava de todas. Mas havia uma branquinha, com algumas penas cinzentas nas asas e que se distinguia, pelo tamanho, de todas as suas companheiras. Procurava sempre maneira de vir empoleirar-se nos ombros da menina, a quem dava bicadinhas suaves e em breve se estabeleceu entre as duas uma relação invulgar. Algumas das pombinhas desapareciam dali e em breve eram substituídas por outras, mais novinhas que, em breve se integravam no bando. Era como se todas fossem uma única família.

 

            Mas a pomba maior, a branquinha, acompanhou fielmente o desenvolvimento da menina e talvez tenha sentido uma pontinha de ciúmes, quando se espalhou no bando a notícia de que Maria fora escolhida para noiva dum homem simpático mas bastante mais velho, um conceituado carpinteiro chamado José.

 

            A pombinha deixou de aparecer e um dia, estava a menina a pensar no que lhe teria acontecido, quando se deparou com um Anjo, radiante de luz, e lhe dirigiu estas estranhas palavras: "Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo ". A jovem donzela ficou muito perturbada mas logo o Anjo veio em seu auxílio, dizendo docemente:

 

- Não tenhas receio, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Vais ficar grávida, terás um Filho e dar-Lhe-ás o nome de Jesus".

 

            Maria perguntou:

 

- Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?

 

           E o Anjo respondeu:

 

- O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. Por isso o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. E nunca duvides de que a Deus nada é impossível.

Maria, confiada no Anjo, inclinou a cabeça e, a acentuar o seu assentimento, murmurou, mas com firmeza:

 

- Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.

 

O Anjo regressou para explicar a S. José, bastante perturbado, o que se estava a passar e este, que era um homem justo, passou a rodear a futura Mãe de todos os cuidados. Até que, como já sabeis, tiveram de se deslocar a Belém e como, entretanto, se cumpriram os nove meses da gravidez, foi aí que o Menino Jesus nasceu, da maneira como vos contei.

 

            S. José foi um Pai extremoso, ensinou ao filho o seu ofício de carpinteiro e levava-o com a Mãe à sinagoga, onde os três escutavam atentamente as palavras dos antigos profetas e entoavam com a restante assembleia os inspirados cantos dos salmistas.

 

.................................................................................................................................

 

            Passados trinta e três anos, Jesus despediu-se dos pais, porque, segundo Ele dizia, tinha de cumprir a missão que o trouxera para junto dos homens: passar a vida fazendo o Bem e ensinar a vontade do Pai, que tinha como principal desejo que todos se amassem uns aos outros com um amor igual ao Seu.

 

            Não tardou muito a chegar a Nossa Senhora, sempre ansiosa de receber notícias do seu Filho, um relato que a encheu de assombro mas esclareceu, para sempre, o que nunca tinha compreendido muito bem: Jesus tinha ido ao rio Jordão, ao encontro de Seu primo S. João Batista e, depois de ter vencido a humilde resistência do chamado Precursor, tinha mergulhado na água, para ser batizado por ele, a fim de se purificar de todos os pecados da Humanidade, que tomara sobre Si.

 

            Mas a parte que mais impressionou Nossa Senhora foi ter-lhe sido dito, por várias testemunhas presenciais que, após o batismo e estando Jesus a rezar, os Céus se abriram miraculosamente, e uma pomba desceu sobre Ele, enquanto se ouvia dizer, alto e bom som: "Tu és o meu Filho muito amado. Em Ti pus todo o meu enlevo".

 

            Nossa Senhora compreendeu então o que sempre tinha aceitado pela fé e tudo guardou no seu coração, com a lembrança da misteriosa pombinha que, realmente não era como as demais.

 

Lisboa,13 de Junho de 2011

 

       Clementina Relvas

 

  

 

publicado por clay às 23:43 | link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 07.07.11

 

            Meus queridos netos:     

 

 

            S. José tinha comprado aquele burrinho, há pouco mais dum mês, a um vizinho que, com algumas dificuldades para sustentar cinco filhos, quase lhe tinha implorado esse favor.

 

            Era um burro cinzento prateado, de farta pelagem, que lhe desenhava, na testa, uma estrela estranhamente perfeita. Esta parecia um sinal de grandes coisas futuras e assim havia de ser.

 

            Passado pouco tempo, S, José teve de ir a Belém, para se recensear e, claro, levou Maria consigo, embora com algum receio, porque ela estava em vésperas de dar à luz. Mas não havia nada que os pudesse separar.

 

            S. José, tomando todas as precauções, instalou Nossa Senhora no dorso do burrinho, cujo coração quase estalava de alegria, pois tinha o pressentimento de transportar o mais valioso tesouro, embora não soubesse qual.

 

            Ao chegarem a Belém, e depois de terem procurado em vão, um lugar para pernoitar – as estalagens estavam superlotadas com os forasteiros que procuravam recensear-se – tiveram de se acomodar num recanto duma estrebaria já fora de serviço, mas onde ainda estava, junto a uma velha manjedoura, um boi solitário, providencial como veremos.

 

            Não tardou que, para espanto de S. José, Maria, sem dor e sem gemidos, recebesse em seus braços um bébé rechonchudo e sorridente, que não precisou de levar nenhuma palmada, pois era de livre vontade que se defrontava com este mundo.

 

            Como estava bastante frio e Nossa Senhora não quisera sobrecarregar o burrinho com um enxoval, ainda que modesto, o Menino, envolto nos poucos agasalhos disponíveis, teria sentido algum desconforto se o burrinho, como se tivesse previamente combinado com o boi, não se juntasse a este para, juntos, o aquecerem com o seu bafo.

 

            E ambos ficaram embasbacados ao olharem para o Céu e ao verem, lá em cima, uma multidão de anjos vindos de toda a terra para cantarem em coro: “Hossana, hossana, hossana nas alturas” e outras palavras maravilhosas que jamais tinham ouvido.

 

            O burrinho cinzento pensou, de si para si, que nunca mais teria uma felicidade tão perfeita, mas bem se enganava ele.

 

            Ainda houve dias felizes: vieram os Magos, que adoraram o Menino e lhe ofereceram valiosos presentes. Mas, mal os Magos partiram, S. José aproximou-se do burrinho, colocou-lhe no dorso a velha albarda e, como era seu costume nos momentos importantes, começou a falar com ele em voz baixa: “Mais uma viagem, burrinho e, desta vez, talvez tenhamos muito que penar. Mas eu tenho de fazer o que o Anjo me disse e partir imediatamente com Maria e o meu filho para as longes terras do Egito e assim escapar à ira sanguinária de Herodes. Desta vez vais ter de ir um pouco mais carregado mas faremos as paragens necessárias para tornarmos esta viagem tão amena quanto o Senhor dispuser”.

 

            O burrinho não cabia em si de contente: ia transportar de novo Nossa Senhora e o Menino, salvando-lhes a vida. Que mais poderia desejar um animal modesto como ele? Mas a realidade ia superar em muito os seus desejos.

 

            A família de Nazaré ocupou uma humilde cabana num recanto isolado, perto do Nilo. Dali, além de puderem entreter-se com a movimentação das falucas sobre as águas, tinham, mesmo à mão de semear, ervas verdes e tenrinhas, pastos abundantes, onde o Menino levava muitas vezes o burrinho que se regalava com aquela comida requintada para quem, como ele, tinha passado muitas privações nos desertos da Galileia. E até, muitas vezes, o Menino que, entretanto, se tornara o seu melhor amigo, lhe trazia pequenos feixes de erva, com um gosto tão especial que o burrinho não encontrava nada tão bom a que o pudesse comparar.

 

            Passado bastante tempo, S. José voltou a desabafar com o burrinho: “Olha, vamos regressar a Nazaré, pois, como morreu o rei Herodes, agora o nosso Menino já não corre nenhum perigo. Além disso, estou ansioso por ver em que estado se encontra a minha carpintaria, tanto tempo ao abandono. Sei que é uma longa viagem, que o Menino já pesa bastante mas, como quero levar algumas peças de carpintaria que fui fazendo aqui, já arranjei um camelo que nos será de grande ajuda.”

 

            O burrinho relinchou de alegria e lá se meteram a caminho, até chegarem a Nazaré, o que levou o seu tempo. Durante muitos anos, toda a gente se admirava: onde estivesse Jesus, aí se encontrava o burrinho. Até que, já muito velho e doente, morreu com Jesus a seu lado, comovido até às lágrimas pela perda do seu amigo.

 

…………………………………………………………………………………...

 

            E só muito mais tarde, quando Jesus já era, no coração de muitos, o rei dos judeus e de toda a humanidade, veio a procurar outro burrinho, um que nunca tinha sido montado. Os discípulos cobriram-no com os seus próprios mantos e Jesus fez dele o trono real, dum rei modesto como jamais houvera sobre a terra, mas que as multidões aclamavam: “Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!” e, como alguns fariseus queriam que Jesus mandasse calar a multidão, o Messias respondeu, com a autoridade de Filho de Deus: “Eu digo-vos: se eles se calarem, as pedras gritarão”.

 

 

            O jumentinho não compreendeu, claro, o que Jesus quisera dizer. Mas também não admira porque muitos dos que O seguiam, e até alguns dos seus discípulos, só muito mais tarde vieram a reconhecer em Jesus o verdadeiro Filho de David e Salvador de todos os que n’Ele acreditaram, mesmo sem terem compreendido.

 

                                               Lisboa, 12 de Junho de 2011

 

                                                       Clementina Relvas

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