Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 08.08.11

                A sua entrada neste mundo, num casal com um filho rapaz, foi saudada com muita alegria e um grande rio de esperanças. Era a menina para quem tinham sido preparados os vestidinhos de folhos e rendas, as bonecas e os sonhos, que iria alegrar aquela casa com os seus risos e brincadeiras partilhadas com o irmão.

 

            Mas em breve pesadas nuvens se começaram a adensar no horizonte, quando um exame médico revelou que a menina tinha uma miopia congénita que tenderia a acentuar-se com o correr dos anos.

            Claro que, a princípio não se alterou o curso das coisas: fez a instrução primária e o curso secundário na Escola alemã, já que o seu Pai, nascido na Áustria, tinha vivido uma grande parte da sua juventude na Suíça e casado, mais tarde, com uma senhora portuguesa.

            Instalados num bairro pacato e agradável da então periferia de Lisboa, levavam a vida cómoda e desafogada da burguesia da época: tinham um grupo de amigos com quem conviviam, uma empregada a tempo inteiro e refugiavam-se dos rigores do Verão na Praia das Maçãs, onde se reuniam a vizinhos e familiares.

            Até que, toda esta harmonia foi quebrada pela doença da Mãe: obrigava a tratamentos constantes e a prever o pior. Tendo-se encarregado da administração diária de injecções, a pequena, no meio das suas angústias e preocupações, esteve hesitante entre fazer um curso de Serviço Social ou de Enfermagem, tendo-se decidido por este último que, em seu entender, a tornaria mais apta a ocupar-se da Mãe doente.

            Era um trabalho difícil para a sua sensibilidade, que não a aliviava do ambiente pesado da doença familiar e, a dada altura, com o agravamento dos problemas da visão, impossível de realizar em algumas das suas vertentes. Muitas vezes, com a impossibilidade de aplicar uma algália ou de fazer um tratamento mais minucioso, dava por si a chorar, geralmente por dentro, pois não queria dar sinal de fraqueza ou desistir dum trabalho para que se sentira chamada.

            O resultado foi uma profunda depressão, agravada pelo falecimento da Mãe, a consequente tristeza do irmão e a amargura do Pai, já de si reservado e austero. A conselho imperioso do médico, acabou por deixar a enfermagem e, como dominava quatro línguas (o alemão, o inglês, o francês e o português), decidiu ingressar no Instituto das Novas Profissões, onde acabou por tirar o curso de guia-intérprete. Era ainda uma maneira, se bem que agora muito mais aprazível, de ajudar os outros, de conhecer pessoas diferentes e também um pouco melhor o seu País que, nas viagens com a Família a vários países da Europa, nomeadamente à Rússia, tinha ficado um pouco relegado para mais tarde.

            Não tendo casado e, portanto sem filhos, compartilhou uma parte da sua vida com uma afilhada, que só se separaria dela para se casar com um engenheiro. O casamento não durou, mas deu fruto: uma menina encantadora, com pronunciado gosto pelo ballet e que viria a ser a netinha que o destino lhe negara.                                                                                                                                

            Conheci-a já quase cega, ainda a exercer a sua actividade de guia turística, que lhe ocupou os últimos quinze anos da sua vida activa, mas que tinha restringido a deslocações, com grupos de turistas sobretudo alemães ou ingleses, até localidades relativamente próximas de Lisboa: Nazaré, Fátima, Tomar. E digo de certo modo próximas porque as vias de comunicação existentes na altura, as tornavam demoradas e incómodas.

            Nas férias, ia muitas vezes passar um tempo à Suíça, onde tinha sobrinhos e mais familiares. E que deliciosos eram os chocolates com que então nos deliciava. Este «nos» refere-se a um grupo bíblico composto por várias pessoas amigas e que fazia as suas reuniões, alternadamente, na casa de cada uma delas.

            Mas não era apenas um grupo bíblico. Era, além disso, uma pequena comunidade fraterna, o Grupo Bíblico de Santa Clara, onde nos ouvíamos e animávamos umas às outras. E havia grandes dores a consolar: mães que viam partir para o Senhor filhos adultos, deixando famílias inconsoláveis, doenças, infortúnios. E também muitas alegrias com que era amenizado o caminho de cada uma de nós.

            Depois o Grupo começou a ficar mais pequeno, quando as irmãs começaram a partir para junto de Deus. E, quando a cegueira da nossa amiga se tornou total, o nosso convívio centrou-se na sua casa, onde sempre nos espera um sorriso, uma palavra de encorajamento e… uma tacinha de rebuçados.

            Cada uma de nós intervém, à sua maneira, na partilha da Palavra: ou transformando as leituras em orações, ou escrevendo pequenos comentários adequados. Mas são as meditações da nossa irmã que apenas vê e, nitidamente, com os olhos do coração que mais nos confortam e animam. Brotam duma alma que, vivendo no mundo mas prescindindo dele, interiorizou as suas emoções e dedicou todos os seus pensamentos a Deus, a Luz da escuridão em que passou a viver.

            Tacteando até ao telefone, é sempre uma das companheiras mais presentes daquelas que estão a passar por momentos difíceis.

            A sua resignação luminosa, a sua presença inspiradora, a sua dedicação ao próximo dá-nos a certeza de termos nela o farol radioso da Graça, que brilha para nós e nos indica o Caminho em que seremos acompanhadas por Deus até à vida que não tem fim.

 

                                   Lisboa, 7 de Maio de 2011

                                        Clementina Relvas

 

 

publicado por clay às 10:50 | link do post | comentar | favorito
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