Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 27.03.12

            

 Ainda há pouco tinha aprendido a ler quando, um dia, no meio das terríveis notícias da II Grande Guerra que o meu Avô escutava avidamente, me apareceu, no Jornal de Notícias, um breve conto que me causou a maior das estranhezas; um grupo de crianças, mais ou menos da minha idade, empenhava-se num jogo muito estranho: a caça aos ovos da Páscoa. Os adultos escondiam-nos aqui e ali, detrás dos lilases e das coroas de noiva dum belo jardim, e o vencedor era o que descobrisse o maior número do, para mim, extravagante troféu. Eu só conhecia os “ovos de oiro” da lenda contada e recontada pela minha Mãe e em cuja existência muito me custava a acreditar. E apertava-se-me o coração ao imaginar que o ignorante lavrador, para enriquecer rapidamente, matava a famosa galinha que, além de dois ovos banais, apenas o consolara com uma saborosa canja.

 

            Ora, tudo isto, exceto os ovos de oiro, claro, fazia parte do meu dia a dia, enriquecendo, quer fossem cozidos, estrelados ou mexidos refeições habituais na nossa mesa. Ah! E falta falar da grande tijela de barro onde, durante a Quaresma, se iam acumulando os ovos que haviam de entrar na confeção do folar da Páscoa, ou mais correntemente falando, a bola da Páscoa que não era doce, mas feita em três camadas de massa fofinha, separadas por um recheio de presunto, chouriço, frango guisado, e, depois de lêveda, pincelada com gemas de ovo batidas, que pareciam

provir dos tais ovos de oiro da lenda.

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Terça-feira, 06.03.12

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                      Para o Tomás, com muitos beijinhos da Tia

 

                                  

            Não era só uma vez. Era sempre. Aquele menino gostava muito de animais mas, como vivia na cidade, num pequeno apartamento, a mãe nunca lhe oferecera um cão a sério, mesmo daqueles pequeninos, que algumas senhoras, talvez avós sem netos, traziam ao colo, enfeitados com lacinhos e colares. Nem aquela gata fofa e branquinha que, na visita da Escola à Quinta Pedagógica, se viera aninhar a seus pés, enquanto as monitoras explicavam como é que se fazia o pão, a manteiga e o doce de morango. Que, aliás, foram um rico lanche para todos e também para a gatinha, que nunca mais o largara até à carrinha do regresso. Aí, ela teve de ficar de fora, vendo o carro cheio de meninos e o seu menino afastarem-se, talvez para sempre, quem sabe?

 

            Mas aquele menino, que se chamava Tomás, tinha as suas compensações: uma casa na aldeia, com um pequeno jardim e que ficava quase, quase ao lado da casa dos seus Avós. Ora aí é que os animais não faltavam: um enorme cão de belo pêlo castanho, muito dócil, que se habituara a deitar-se no chão para o menino se sentar no seu dorso, enquanto se deliciava com o sempre delicioso lanche da Avó ou uma simples maçã. Não era bem como o Jardim Zoológico, mas, além do cão, tinha uma gatinha às malhas pretas e brancas e uma ninhada de gatinhos que estavam sempre a mamar. Tinha tantas galinhas que ainda não as sabia contar (até porque estavam sempre a mudar de sítio) e um galo de grande crista vermelha e penas negras muito luzidias, com ares de senhor que tudo manda. Também tinha muitos coelhos, de olhos avermelhados e pêlo sedoso, de que o Tomás, muito observador, tinha copiado o constante mover dos focinhitos. E tinha… tinha um porquinho pequeno que era muito bem alimentado. Andava sempre um pouco sujo e, se calhar era por isso que a mãe do Tomás, quando ele voltava do Parque ou até da Escola, lhe dizia:

 


            -Vai-te lavar Tomás, olha que estás mesmo porquinho.

 

            O menino não gostava nada desta conversa mas, como era obediente, ia logo à casa de banho, onde se lavava o melhor que podia e sabia.

 

            E era assim. Até que um dia, ao chegar à Escola, se aliou à alegria dos coleguinhas, porque iam fazer um teatro. Alguns meninos fariam de pessoas diferentes daquilo que eram e outras de animais.

 

            A professora começou a distribuir os papéis e todos os meninos e meninas sentiam o coraçãozinho a bater mais apressado, tentando adivinhar qual seria a sua personagem. O do Tomás ia desfalecendo quando ouviu estas palavras:

 

            - O Gonçalo vai fazer de Lobo Mau. Mas tem de ser bonzinho para o Capuchinho Vermelho e para a Vóvó dela.

 

            Tal como o Gonçalo, também o João, a Sara, o Pedro receberam com agrado o papel que lhes cabia representar. Mas, quando chegou a vez do Tomás, este sentiu tanta vergonha que só lhe apetecia desistir de entrar na peça:

 

            - O Tomás vai ser o porquinho.

 

             E logo ele que, na Escola, andava sempre limpinho e teria preferido ser o Lobo Mau, a pregar partidas aos porquinhos! Bem, às vezes, quando era a hora das pinturas, lá pintalgava um pouco as mãos ou até a bata. Mas daí…

 

            Valente como era, decidiu não dar parte de fraco. Teve de aprender a grunhir, a ter a cara pintada de tinta que parecia lama e a aguardar, pacientemente deitado na sua suposta pocilga, que algum menino viesse ao seu encontro para brincarem juntos. Sim, porque também há meninos que gostam de porquinhos…

Tanto se aprimorou no seu papel que, ao terminar a peça, só ouvia dizer a toda a gente:

 

            . Mas que porquinho encantador!

 

            E no meio desses elogios, até distinguiu a voz da sua amiga Carolina dizer a quem a podia ouvir, no meio da algazarra:

 

            - Para mim, o mais fofinho e engraçado foi o porquinho do Tomás.

 

                                                        Clementina Relvas

 

 

 

 

             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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