Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 27.04.12

                                

           Era uma velha poltrona, bem sólida, feita em madeira de pau preto por  um artista tão preocupado com a robustez das suas peças, como com a marca nelas deixadas pelo seu talento e bom gosto. De facto, os braços e as costas – forradas com um mimoso veludo - utilizado também para o assento, eram um exemplo da capacidade inventiva do artista: flores e folhas entrelaçavam-se graciosamente em grinaldas, donde espreitavam aves exóticas, de cabeças e caudas elegantes e cheias de expressividade. Embora não tivessem muito relevo, principalmente nos braços, para salvaguardar a comodidade dos que nelas se sentavam, eram o espanto de quantos, pela primeira vez, se deparavam com aquela rara peça de mobiliário.

 

          Ocupara um lugar nobre no salão e nela se sentaram convidados ilustres. Que saudades desses bons tempos idos! Mais tarde, quando as visitas começaram a rarear, tornou-se o lugar preferido do Avô para fazer a leitura matutina do seu jornal, antes de o passar à Avó, que não dispensava o folhetim. Com o advento da Televisão, foi causa de muitas disputas por tão cómodo assento mas a verdade é que, a maior parte do tempo, para ali ficava a assistir ao desbotar dos seus estofos rosa velho.

 

          Quando chegaram os netos, foi o bom e o bonito: é certo que já estava bastante desfigurada, mas não resistiu às injúrias deixadas pelos traços dos lápis de cor usados pelas crianças nos desenhos que faziam, colocando o caderno no assento e ajoelhando diante dela.

 

         Era ali que gostavam de desenhar e também de fazer jogos de vídeo. Uma espécie de magia, parte integrante das visitas aos Avós. Parecia-lhes um cadeirão saído dum conto de fadas. Mas, enquanto iam crescendo, era vê-la decair sem remissão, mergulhada na tristeza da velhice e do abandono

 

          A princípio, a Mãe ainda disse:

 

          - Não devíamos ter permitido tal coisa… Um móvel tão antigo, tão bonito, com um trabalho manual como já raramente se encontra nos dias de hoje…

 

         Mas o Pai, manifestou uma opinião bem diferente:

 

         - Deixa-os brincar à vontade. Isso é uma velharia que já não condiz nada com a nossa casa, de design minimalista. Se não fosse por me lembrar os meus Pais, já a tinha posto no lixo, mas há que tempos!

 

         E os anos foram passando. Os meninos estavam quase a terminar os seus Cursos e o mais velho

já só falava em casar. Não tardou que comprasse casa e começasse a mobilá-la. E um dia disse para o Pai:

 

        - Olha, Pai, eu gosto tanto daquela poltrona que era dos Avós! Se tu ma desses, pedia a um rapaz

meu amigo, designer e acérrimo defensor da Natureza – e viciado em reciclagem, tenho de admitir - que me fizesse dali uma peça gira e moderna.

 

         - Ah! Julguei que a querias pôr em lugar de honra na tua casa mobilada com móveis do Siza Vieira. Que horror!

 

         - Não exagere, Pai. O que é bom e bonito, não se desvaloriza assim e, como já deve ter notado, agora até é moda misturar estilos: clássico e moderno, clean e exótico, às vezes francamente kitch o que já não é do meu gosto. Mas o que eu tinha imaginado era transformar a velha poltrona numa peça decorativa, menos para utilizar e mais usufruir da perfeição daqueles ornatos.

 

         - O.K. Por mim, podes levar esse mono, que agora já não utilizo. Prefiro o meu confortável sofá para ver televisão e que, confesso, também me proporciona uma boas sonecas.

 

 

          E lá foi a velha poltrona submeter-se ao variado ferramental do designer.

 

 

          Este, ao vê-la, ficou fascinado e pôs logo a sua fértil imaginação a trabalhar : carrinho de chá, caminha para bebé, um medalhão para a parede, depois de substituído o coçado e sujo veludo por um acrílico alegre, moderno. Esta ideia era talvez a que mais lhe agradava, mas criou-lhe um problema: e os braços, tão delicadamente trabalhados?

 

          Decidiu-se pelo carrinho de chá, até porque o amigo lhe disse que não tencionava pôr nada nas paredes, enquanto não tivesse dinheiro para comprar dois ou três quadros, originais: uma Maluda, uma Paula Rego, um Pomar. Não todos duma vez, claro, se não lá ficariam as paredes desguarnecidas até que ele já fosse velho. Mas havia que dar tempo ao tempo.

 

           E pronto. Decidiu-se pelo carrinho de chá. Com a moldura das costas da poltrona. uma ampla área em forma de ferradura, fez o tampo do carrinho, depois de substituído o veludo por um grosso vidro, tão transparente que parecia cristal. Um dos braços foi aproveitado para fechar o espaço do tampo e com o outro fez, desse lado, um pegador, elevado, para empurrar o carrinho. Ainda lhe cresceram uns troços de madeira trabalhada que vieram mesmo a calhar para acrescentar os pés, demasiado curtos para seu gosto Aplicou-lhes uma rodinhas que encontrou no sótão e que deviam ter pertencido, sabe-se lá quando, a um brinquedo esquecido.

 

          Ao fim de alguns meses, numa das visitas dos Pais ao jovem casal já instalado, nem queriam acreditar no que os seus  olhos viam:

 

          - Onde é que foram desencantar este maravilhoso carrinho de chá? Faz-me lembrar qualquer coisa, mas não consigo identificar o quê  …  disse a Mãe.

 

          - Bem se vê que, como quase sempre, te esqueceste dos óculos. Então onde é que viste entalhes feitos na madeira com tão refinada arte?

 

          - Ah! A velha poltrona! Quem havia de dizer… Olha que eu, embora ainda me não tenha habituado a certas modernices que por aí vejo, fiquei maravilhada com este carrinho, tão original na forma e tão improvável pela arte e paciência que exigiu e que tanto escasseiam numa sociedade apressada como é a nossa.

 

         - Ó Mãe, e olhe que ele só foi feito com material que havia lá por casa. E o talento e criatividade do meu amigo, claro.

 

         - Pois. Lá diz o provérbio: «Do velho se faz novo.» - disseram os Pais, em coro.

 

         Mas a Mãe, que gostava sempre de ter a última palavra, acrescentou:

 

         - Só é pena que esse provérbio se não aplique também às pessoas…

 

         - Lá iremos, lá iremos – retorquiu o Pai. Parece que nunca ouviste falar de transplantes de órgãos, da identificação do genoma, do ADN e de outros que tais milagres da medicina, cada vez mais espetaculares e quase corriqueiros!

 

           Clementina Relvas

                                  

 


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publicado por clay às 00:36 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 21.04.12

     A falar verdade, a menina nem sequer gostava de hipopótamos. Nem muito nem pouco. Tinha visto um no Jardim Zoológico e achara-o «bué de feio»: cheio de pelancas a caírem-lhe umas sobre as outras como carapaças, um corpanzil enorme mas a terminar por uma cabeça relativamente pequena, de olhos quase fechados e orelhas que parecia terem pertencido a um leitãozinho, só que mais escuras, cor de terra, o que também não admirava, porque andava sempre a rebolar-se na lama. E, depois, aquela bocarra!

    

     Ficara, portanto, decidido: não gostava de hipopótamos. Até ao dia em que a Mami lhe apareceu em casa com um hipopótamo azul

que tinha um sinal particular: um coração vermelho no lugar do rabinho. Apesar de não achar esse lugar o mais adequado para ter o coração, achou graça e, na primeira oportunidade, correu logo a mostrá-lo à sua Vóvó. Além de que ficou muito contente e comovida, ao ouvir o que a Mãe lhe disse:

    

     - Ouve, filhota, o coração significa o amor que eu tenho por ti, não importa o sítio onde ele esteja ou onde estejas tu. É o meu coração, disso podes ter a certeza.

 

     A menina tinha muitos brinquedos, sobretudo animais de peluche, amorosos e fofinhos, mas logo colocou aquele à frente de todos, na prateleira, para o ver mal entrasse no quarto.

    

     Naquela noite, sem ninguém dar por isso, a bicharada reuniu-se toda e resolveu organizar uma recepção ao novo amigo. Mal imaginando o que estava para acontecer, fizeram danças de roda, pularam e pularam até ao amanhecer. Cansados pela folia nocturna, voltaram para os seus lugares na prateleira e, quando a menina acordou, fixou logo os seus lindos olhos, que também eram azuis, no seu querido hipopótamo.

 

     Tão querido que, daí a dias, quando decidiu com a Mami dar os seus peluches todos a meninos dum bairro pobre que nunca tinham tido brinquedos, a menina pediu:

 

     - Ó Mami! O hipopótamo não. Ainda há pouco mo deste e eu já estou habituada a ir para a cama, abraçadinha a ele. É tão fofinho, tão querido…Nunca julguei que alguém pudesse fazer um hipopótamo de veludo, tão suave e tão lindo, embora tenha algumas parecenças com o feioso do Jardim Zoológico.

 

     - Está bem, filha. Eu nunca faria isso e fico muito contente por gostares assim tanto do teu hipopótamo azul.

   

     - E do coraçãozinho vermelho que representa o teu amor por mim… Nunca me vou separar dele.

 

     A Mãe fez um sorriso enigmático – ela bem sabia que a menina havia de crescer e criar outros afectos – mas não disse nada.

 

     A partir desse dia, a menina nunca mais se esqueceu de levar o hipopótamo azul para onde quer que fosse e adormecia sempre abraçadinha a ele.

 

Importante

     Até quando? Sem deixar, de se lembrar do seu querido hipopótamo, a menina irá um dia pô-lo de lado. Pelo menos quando tiver o seu primeiro namorado, e, sem dúvida, quando tiver o seu primeiro filho, que lhe há-de ocupar os braços e o melhor lugar no seu coração. E daí, quem sabe? Talvez o guarde muito bem guardadinho para, quando chegar a altura certa, o oferecer a esse seu filho, como recordação duma Vóvó que, ao ver tal gesto, procurará esconder uma lágrima de emoção num sorriso de ternura.

publicado por clay às 16:03 | link do post | comentar | favorito
Sábado, 14.04.12

 

Esta pequena história tem dois objectivos: lamentar que, na Natureza, tanto animais como humanos sejam, por vezes, autênticas aberrações, abandonando, mal os dão à luz, os bébés que, durante meses, trouxeram no seu seio e alimentaram com o próprio sangue das suas veias; e homenagear aqueles que, devotadamente, não se poupam a esforços para corrigir os erros alheios e salvarem esses indefesos seres em perigo.

 

 Pois sim. Esta é uma história verdadeira e que veio trazer um raio de luz às costumadas sombras da comunicação social: Havia uma girafa que vivia num Jardim Zoológico, onde nunca tinha conseguido conquistar a estima das suas companheiras. Era um animal elegante segundo o padrão do mundo das girafas e tinha as manchas castanhas tão artisticamente distribuídas pela pele, que causava a admiração de todos e a tornou alvo de inúmeras máquinas fotográficas, apostadas em guardar para a posteridade um tão perfeito exemplar do reino animal.

 

E, claro, não lhe faltavam pretendentes. Altiva e egoísta, rejeitou muitos e bons partidos até que um dia lhe foi dado conhecer um macho tão belo e majestoso como ela e, passado pouco tempo, ficou grávida. Com o mesmo egoísmo de sempre, foi deixando passar os dias, as semanas e os meses, muito ocupada consigo própria: ficava horas perdida nas lembranças da savana, os vastos horizontes e os perigos que tinham feito da sua vida uma aventura constante. Ia dessedentar-se em grupo, porque ao ajoelhar para chegar à água, sentia-se sempre vulnerável aos ataques dos predadores, especialmente dos leões. Já para comer era muito mais fácil: o seu longo pescoço e a língua enorme e dúctil tornavam-lhe próximas e acessíveis as folhas tenras das acácias, as que mais apreciava.

 

Um dia, porém, caiu na armadilha dum caçador e, largando a sombra duma frondosa árvore que de há muito escolhera para seu poiso favorito, veio parar àquele Jardim Zoológico, onde tudo lhe parecia acanhado e medíocre. Passou por momentos de depressão e tristeza, apesar dos esforços dos tratadores que todos os dias lhe davam folhas tenras e fresquinhas e até lhe faziam festas na pele grossa mas suave como veludo. Depois, sem perceber muito bem como, ficou grávida e viu partir o companheiro com os outros machos do bando.

 

 Os meses foram passando, cerca de treze longos meses que lhe pareceram uma eternidade. Foi ficando cada vez mais pesada e mais isolada de todos. Aqui, o bando já não era tão indispensável pois tinha sempre água e comida ao seu alcance e nenhum predador ameaçava a sua vida. Ficava-se deitada no seu canto, à espera nem ela sabia bem de quê. Até que, no fim dum dia em que estava a sonhar com um pôr de sol na savana, todo feito de ocres e vermelhos, começou a sentir dores muito agudas que se foram tornando cada vez mais insuportáveis e constantes.

 

Era a hora da visita do tratador, que foi chamar o veterinário para, juntos, ajudarem ao parto. Foram quatro longas horas de sofrimento até que começaram a aparecer as patinhas e as pernas da pequena girafa, depois, lentamente o corpo e, por fim, a cabecinha já com os seus pequenos chifres e as aveludadas orelhas. Todos soltaram um suspiro de alívio, excepto a mãe, que se quedou amodorrada e indiferente a quanto se estava a passar à sua volta. Não lambeu a cria ao nascer e nunca nenhum tratador notou nela qualquer sinal de interesse e muito menos de afecto.

 

A pequena girafa era débil e, no Jardim Zoológico, ninguém se atreveu a celebrar aquele nascimento, temendo pela sua vida e chocados com a atitude da mãe. Nunca se tinha visto nada assim. Por isso, decidiram todos lançar mãos à tarefa de salvar aquele ser inocente e frágil: arranjaram-lhe uma caminha suave como um ninho, revezavam-se pontualmente na hora do biberão e dos medicamentos receitados pelo veterinário e faziam-lhe festinhas como se duma menina se tratasse. Chamaram-lhe Benvinda e tiveram a alegria de a ver crescer, formosa como a mãe mas mais doce e sociável.

 

 Só a mãe não deu por isso, completamente alheia àquela que poderia ter sido uma mudança feliz na sua vida.

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publicado por clay às 16:20 | link do post | comentar | favorito
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