Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 14.04.12

 

Esta pequena história tem dois objectivos: lamentar que, na Natureza, tanto animais como humanos sejam, por vezes, autênticas aberrações, abandonando, mal os dão à luz, os bébés que, durante meses, trouxeram no seu seio e alimentaram com o próprio sangue das suas veias; e homenagear aqueles que, devotadamente, não se poupam a esforços para corrigir os erros alheios e salvarem esses indefesos seres em perigo.

 

 Pois sim. Esta é uma história verdadeira e que veio trazer um raio de luz às costumadas sombras da comunicação social: Havia uma girafa que vivia num Jardim Zoológico, onde nunca tinha conseguido conquistar a estima das suas companheiras. Era um animal elegante segundo o padrão do mundo das girafas e tinha as manchas castanhas tão artisticamente distribuídas pela pele, que causava a admiração de todos e a tornou alvo de inúmeras máquinas fotográficas, apostadas em guardar para a posteridade um tão perfeito exemplar do reino animal.

 

E, claro, não lhe faltavam pretendentes. Altiva e egoísta, rejeitou muitos e bons partidos até que um dia lhe foi dado conhecer um macho tão belo e majestoso como ela e, passado pouco tempo, ficou grávida. Com o mesmo egoísmo de sempre, foi deixando passar os dias, as semanas e os meses, muito ocupada consigo própria: ficava horas perdida nas lembranças da savana, os vastos horizontes e os perigos que tinham feito da sua vida uma aventura constante. Ia dessedentar-se em grupo, porque ao ajoelhar para chegar à água, sentia-se sempre vulnerável aos ataques dos predadores, especialmente dos leões. Já para comer era muito mais fácil: o seu longo pescoço e a língua enorme e dúctil tornavam-lhe próximas e acessíveis as folhas tenras das acácias, as que mais apreciava.

 

Um dia, porém, caiu na armadilha dum caçador e, largando a sombra duma frondosa árvore que de há muito escolhera para seu poiso favorito, veio parar àquele Jardim Zoológico, onde tudo lhe parecia acanhado e medíocre. Passou por momentos de depressão e tristeza, apesar dos esforços dos tratadores que todos os dias lhe davam folhas tenras e fresquinhas e até lhe faziam festas na pele grossa mas suave como veludo. Depois, sem perceber muito bem como, ficou grávida e viu partir o companheiro com os outros machos do bando.

 

 Os meses foram passando, cerca de treze longos meses que lhe pareceram uma eternidade. Foi ficando cada vez mais pesada e mais isolada de todos. Aqui, o bando já não era tão indispensável pois tinha sempre água e comida ao seu alcance e nenhum predador ameaçava a sua vida. Ficava-se deitada no seu canto, à espera nem ela sabia bem de quê. Até que, no fim dum dia em que estava a sonhar com um pôr de sol na savana, todo feito de ocres e vermelhos, começou a sentir dores muito agudas que se foram tornando cada vez mais insuportáveis e constantes.

 

Era a hora da visita do tratador, que foi chamar o veterinário para, juntos, ajudarem ao parto. Foram quatro longas horas de sofrimento até que começaram a aparecer as patinhas e as pernas da pequena girafa, depois, lentamente o corpo e, por fim, a cabecinha já com os seus pequenos chifres e as aveludadas orelhas. Todos soltaram um suspiro de alívio, excepto a mãe, que se quedou amodorrada e indiferente a quanto se estava a passar à sua volta. Não lambeu a cria ao nascer e nunca nenhum tratador notou nela qualquer sinal de interesse e muito menos de afecto.

 

A pequena girafa era débil e, no Jardim Zoológico, ninguém se atreveu a celebrar aquele nascimento, temendo pela sua vida e chocados com a atitude da mãe. Nunca se tinha visto nada assim. Por isso, decidiram todos lançar mãos à tarefa de salvar aquele ser inocente e frágil: arranjaram-lhe uma caminha suave como um ninho, revezavam-se pontualmente na hora do biberão e dos medicamentos receitados pelo veterinário e faziam-lhe festinhas como se duma menina se tratasse. Chamaram-lhe Benvinda e tiveram a alegria de a ver crescer, formosa como a mãe mas mais doce e sociável.

 

 Só a mãe não deu por isso, completamente alheia àquela que poderia ter sido uma mudança feliz na sua vida.

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publicado por clay às 16:20 | link do post | comentar | favorito
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