Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 19.07.12

   Meus queridos Netos:

 

 

            Desde há longos anos que sentia grande admiração pelas glicínias: pela sua cor, simultaneamente forte e delicada, pelo acentuado e agradável perfume das suas flores e pela sua estrutura, em cachos pendentes, que tanto lhe permitem ornamentar muros de casas e jardins como pender de latadas em fantasmagóricas cortinas de azul.

 

            Depois, encantei-me com uma glicínia que. no muro do jardim duma casa em frente da Igreja da Força Aérea, antes a primitiva e bela paroquial de S. Domingos de Benfica (monumento nacional, onde se encontram os restos de João das Regras e uma pedra tumular de Frei Luís de Sousa), me anunciava, bem como as brancas coroas de noiva suas vizinhas, a chegada da Páscoa.

 

 

            E perguntava-me a mim mesma donde teria vindo flor tão singular, mas sem nunca ter procurado resposta para a minha curiosidade. Até que, no número de Maio da Revista do Inatel, que todos os meses é enviada gratuitamente aos associados, me deparei com um belíssimo artigo de Susana Neves e, aí, a informação que desejava e de que vos transmito os elementos que achei mais interessante.

 

            Assim, muito abundante e antiga na China e no Japão, entrou na Inglaterra depois duma longa viagem de barco, a partir do porto de Cantão, em 1816, como oferta dum rico vendedor de glicínias chinês ao Comandante Robert Welbank, que a ofereceu a um seu cunhado.

 

            Como a glicínia só floresce a partir dos sete anos, dado desconhecido do novo proprietário, este, supondo que a falta de flores era devida ao frio, submeteu-a, em estufa, a uma temperatura até 20º, o que, aliado a uma praga de aranhas vermelhas, por pouco não a aniquilava. Só em Março de 1819 é que se viu coberta de longos cachos de flores azul-lilás e daí o seu nome chinês de vinha azul. E porque as flores são intensamente perfumadas , os ocidentais chamaram-lhe  glicínia, do grego glykys.

 

            Descobrindo que a lenta propagação através de sementes podia ser acelerada  se se adotasse a utilização de estacas, em breve as glicínias iam recobrir mansões e florir em modestos jardins e espalhar-se por vários países ocidentais. Geralmente eram podadas mas, em 1896, uma que foi plantada na Sierra Madre (Califórnia) mereceu as honras do Guiness Book como a maior planta do mundo entre as que dão flor. Pesa 250 toneladas, ocupa cerca de meio hectare, e dá, por ano, cerca de 1,5 milhões de flores.

 

            Para minha maior satisfação, soube que era a planta preferida de Claude Monet e que aquilo a que ele chamava o seu “colorido suspenso” terá modificado a sua maneira de pintar, acentuando o aspeto onírico que caracteriza muitas das suas telas e que tanto me fascina.

 

            Aprendemos todos muito, não acham? E dos novos conhecimentos ficamos gratos a Susana Neves. Obrigados!

 

 

           

 

tags:
publicado por clay às 06:04 | link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 13.07.12

Meus queridos Netos:

 

 

            Naquele tempo, quando chegava a época dos figos (e embora tivéssemos muitas figueiras mais ou menos perto de casa), os primeiros a amadurecer eram os da que estava numa propriedade bem distante, já perto do rio Távora. Tinha que se descer (e depois subir, está claro), toda aquela enorme distância, por um estreito e tortuoso caminho que, à falta de qualquer outro transporte, era galgado agilmente pelo nosso cavalo Carriço.

 

            Quando o meu Pai anunciava, quase solenemente, que no dia seguinte ia ao Serralheiro apanhar uma grande cesta de figos, logo eu acudia pedindo que me deixasse ir com ele, prometendo ajudá-lo na sua tarefa. Não era preciso insistir muito porque aquela viagem, devido à minha presença, era, pela minha Mãe, transformada naquilo que, a meus olhos, era uma autêntica festa: fazia-nos um suculento farnel de pão centeio feito por ela, fatias de presunto ou chouriço também caseiro, o miminho dum biscoito de azeite que raramente faltavam lá em casa, água para mim, vinho da nossa lavra para o meu Pai e lá partíamos os dois, montados no Carriço, ele à frente e eu atrás com a segurança de me poder agarrar a ele, caso o cavalo desse algum tropeção.

 

            Ainda não tínhamos vencido metade do caminho, já eu apregoava a minha fome de criança e lá fazíamos uma curta paragem para petiscar moderadamente, que a viagem ia durar quase todo o dia.

 

            Chegados ao destino, dirigíamo-nos à grande figueira, que nunca nos desiludiu: apresentava-se sempre coberta de figos já maduros, brilhantes e raiados de castanho, que nos enchiam de orgulho e de alegria, ainda antes de nos deliciarem com o seu sabor inesquecível.

 

            Enquanto o meu Pai ia forrar a cesta de fetos viçosos, que por ali abundavam, já eu me regalava com aqueles figos polposos e docinhos, sem ligar à áspera fricção das folhas nos meus braços nus.

De facto, era o único senão. Como se estava já no começo do verão, ali particularmente abrasador, as folhas da figueira pareciam lixa viscosa e deixavam a pele comichosa e ardente, durante um longo espaço. Mas, perante a impassibilidade do meu Pai, aliás com os braços protegidos por mangas compridas, eu cumpria estoicamente a minha tarefa até ambos temos enchido a cesta, que então cobríamos com uma camada de fetos.

 

            Procurávamos depois uma sombra protetora e regalávamo-nos com o farto lanche preparado pela minha Mãe, enquanto o meu Pai me contava histórias reais da sua vida, principalmente do tempo que passou no Brasil. Não podia faltar o episódio em que o seu batalhão, destinado a seguir para França, onde iria participar na primeira Grande Guerra, foi visitado pela Rainha D. Amélia, que ofereceu a cada soldado um par de meias de lã. Não foram utilizadas nessa circunstância porque o batalhão nunca chegou a ser convocado para partir.

 

            Mas, vencendo um caminho ainda mais difícil, regressámos a casa, onde a nossa cesta de figos foi recebida com grande alvoroço e fez a delícia de grandes e pequenos.

 

 

 

                             Lisboa, 12 de Julho de 2012

 

                                   Clementina Relvas

 

sinto-me:
tags: ,
publicado por clay às 11:21 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 03.07.12

            Querida neta Cristina

 

Já que estamos em maré de receitas de culinária, aqui vai uma que te ensinará a "embebedar"... peras

 

     

                Ingredientes:

                14 Peras

                1 Limão

                8 dls. de vinho tinto e um bocado de vinho do Porto

                1 Chávena de açúcar mascavado  

                2 Cascas de vidrado de limão

                1 Pau de canela

                              

                Descascam-se as peras inteiras (algo verdes), não muito grandes e, quanto possível, do mesmo tamanho. Deixa-se-lhes o pé, corta-se-lhes um pouquinho da base para se sustentarem e envolvem-se em sumo de limão.

 

                Dentro dum recipiente, leva ao lume o açúcar, o vinho, as cascas de limão e o pau de canela. Deixa ferver em lume brando, durante 2 ou 3 minutos e coloca as peras, em pé, na caçarola, numa só camada. Tapa e deixa ferver, em lume brando, durante meia hora a três quartos de hora, virando-as de vez em quando. Retira as peras com cuidado, com uma escumadeira. Apura a calda até ficar espessa. Deixa arrefecer e guarda no frigorífico. Serve bem geladas, e, se gostares, enfeitadas com hortelã.

 

Obs. Fiz metade da receita e saiu muito bem.

 

Aqui vai uma foto de sete peras, tão bebedas que até vão cair no goto:

 

 

publicado por clay às 12:22 | link do post | comentar | favorito
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Julho 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds