Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 29.11.12

 

Ilustração de Cristina Kohlhoff Feijó Relvas

 

O ar está a tornar-se irrespirável, letal. Tudo, pessoas e coisas, progressivamente se esfumam, como naquelas

manhãs em que os aviões têm de continuar em terra, apesar dos protestos dos que veem os seus planos gorados: passeios, negócios, encontros sentimentais, tudo aquilo de que a vida é feita e agora parece prestes a soçobrar no nada.

 

Os arranha-céus apagam a sua majestosa imponência numa nuvem de fumo que lembra o rescaldo dum grande incêndio, mas a verdade é que estão incólumes. Se incêndio houver, ainda mal começou, embora ameace vir a ter proporções dantescas.

 

Que estranho fenómeno! - pensa o relógio, de si para si: Colorido e nítido aos olhos que sabem e querem ver, tem um lugar central, no meio dum abundante feixe de ramos, despidos de folhas e um molho de lisos troncos, com as raízes desaparecidas por um corte certeiro, como se se tratasse dum arranjo envenenado para dar a

alguém que se ame – continua o relógio nos seus funestos pensamentos.

 

E aquele grupo de seres, cujas formas e feições estão reduzidos a esboços, eles que, ameaçados como os arranha-céus, estão a caminho da destruição total? Caminham como cegos. Desviados para os mais fúteis pensamentos, julgam-se eternos, sem se aperceberem do lixo espalhado por toda a parte, das emissões de carbono emitidas pelas fábricas, por carros que proliferam aos milhares mas que só os perturbam quando lhes roubam o espaço para estacionarem o seu; e fenómenos da natureza que dantes eram mais raros e menos destruidores. Sim. As calotes de gelo a derreterem nos polos, provocando todas essas calamidades ...  Nada disso os preocupa, embora sintam os olhos cada vez mais nublados, tanto que já nem se apercebem do relógio, das suas cores vivazes e que insiste em comer o tempo que se esvai.

 

O relógio? Será que o relógio, o tempo,sairá incólume, para medir a eternidade que nos foi prometida por Deus?

 

Lisboa, 29 de Novembro de 2012

 

Clementina Relvas

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publicado por clay às 17:53 | link do post | comentar | favorito

                   Maria da Luz leu, muito atentamente, estas notas do Tio Artur que, em certas ocasiões, lhe valeram grandes elogios: «És uma sabichona. Onde é que foste desencantar tanta informação sobre a Rádio?». Mas tratava-se dum segredo bem guardado.

Mas a admiração que suscitava nas suas amigas e colegas, não era daqui que lhe vinha. Era, sim, do seu talento que começava a afirmar-se. Assim, algum tempo depois destes acontecimentos, um grupo dessas amigas, acabada a interpretação que ela fez duma canção em inglês, comentam, não sem uma pontinha de inveja:

 

             - Quem havia de dizer? Ainda há pouco fazia parte do coro e agora já é solista. Com o seu talento, há-de chegar muito longe, é o que vos digo. A mim até já me disseram que o Leitão de Barros quis por força convencê-la a participar no elenco da  “Maria Papoila”. Mas ela rejeitou o convite, dizendo que não nasceu para atriz, mas sim para cançonetista. E sabem quem fez de Maria Papoila? Foi a Mirita Casimiro que, essa sim, parece ter o teatro nas veias e também canta muito bem, tornando as suas canções tão populares que toda a gente as trauteia.

 

            Mas agora interrompem-se, dizendo:

 

            - Que é que vem a ser isto? O locutor a aparecer, assim de repente… Que más notícias terá ele para nos dar?

 

            O locutor, meio em pânico, de atropelando as palavras, anuncia:

«Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de cantigas tornadas célebres pelo cinema português para transmitir uma notícia da última hora, da Agência Press. É tão inesperada e alarmante que pôs o mundo em sobressalto: às 19 horas e 45 minutos, o Dr. Jorge da Fonseca, do Observatório Meteorológico de Braga, diz ter detectado, no planeta Marte, várias explosões de gás incandescente. E o Professor Manuel Franco, do Observatório Astronómico de Cascais, descreve o fenómeno como “um jacto de chama azul, disparado por uma arma”.

 

            Todos ficam assustados e não tarda que o alarme suba de tom:

 

            «Acrescentamos a esta notícia que, segundo fontes fidedignas, os marcianos já chegaram a Portugal. Neste momento, a população está alarmada e dividida: uma parte aguarda, ansiosamente, que a rádio lhe forneça mais pormenores, enquanto outra, em número já considerável, se precipita para Cascais».

 

            Entretanto, no Estúdio, vai uma grande confusão: soltam-se gargalhadas e manifestam-se alguns receios dos mais crédulos e menos informados. Matos Maia tinha conseguido, na esteira de Orson Welles, pôr o país em polvorosa, como, aliás, tinha sucedido na América. Foi um autêntico “golpe radiofónico”.

 

            Mas outros problemas, esses reais e bem mais graves, preocupam os portugueses em geral e, em particular, os jornalistas. O noticiário que agora se escuta, arrasta consigo terríveis augúrios:

 

            - Este ano de 1939 vai ser o ano de todas as catástrofes: Adolfo Hitler acaba de ocupar a Checoslováquia e de invadir a Polónia. O seu insaciável apetite de expandir a Grande Alemanha e as suas execráveis teorias de superioridade da raça ariana, a única verdadeiramente pura e digna de governar o mundo, já bem conhecidas depois da publicação, em 1925 e 1926, do seu livro Mein Kampf, não podem deixar indiferentes países democráticos como a Inglaterra e França. Já não restam dúvidas, a ninguém esclarecido, de que este é o princípio duma segunda grande guerra, certamente bem mais terrível do que a primeira, já de si tão devastadora. É nestes momentos que qualquer país precisa de governantes à altura. Portugal e a Espanha, que acabam de assinar o Pacto Ibérico irão, graças à prudente inteligência de Salazar e Franco, procurar manter-se neutrais. O que vai exigir medidas duras como, as já decretadas, de encerrar todas as emissoras particulares de rádio. Exceções serão apenas O Rádio Clube Português e a Rádio Renascença.

 

            Quando o indicativo luminoso, “No ar”, se extingue, entram no estúdio dois jornalistas bem conhecidos que, pelos gestos precipitados e pelo ar congestionado dos seus rostos, mostram uma grande preocupação e discordância. Um deles, o Vasco, homem prudente e sensível, mais ligado à rádio, não consegue dominar a sua angústia e preocupação:

 

            - Ó Guedes, diz-me lá que loucura é essa? Vieram-me dizer que andas por aí a espalhar aos quatro ventos que queres ir para a frente de batalha? Não te chegou o que passaste para fazer a cobertura da Guerra de Espanha e os três anos a viver o horror daquela luta fratricida? A meu ver, nem os elogios pelo cuidado posto na informação, nem a amizade que aí começou entre ti e o Ernest Hemingway, podem alguma vez pagar todos perigos que correste e todos os sacrifícios que te foram exigidos.

 

            - Pois sim. Mas um homem não é de ferro. Eu, Vasco, também o não sou. E quando, embora à socapa, se ouvem as notícias arrepiantes que o Fernando Pessa nos manda pela BBC, como ficar indiferente a toda aquela barbárie? Como é que alguém e, para mais, um jornalista amigo da justiça e da fraternidade, se sente ao conhecer as perseguições antissemitas do gueto de Varsóvia e o drama dos desgraçados que são obrigados a largar tudo e, encurralados num comboio de gado, seguir para um destino sobre o qual nada sabem?

 

            Mas descansa, que, pelo menos por agora, ainda não posso seguir os meus impulsos de lutar pela liberdade. A minha luta, por enquanto é outra e bem diferente: fazer-me porta-voz dos que, em Portugal continental, vivem ainda na pobreza e mergulhados no analfabetismo. Acabei de criar um movimento, mais ou menos clandestino, «Por um Portugal melhor» e nem me passa pela cabeça não contar com a tua colaboração.

 

            - Claro, Guedes. Mas temos de ser muito prudentes, pois a P.I.D.E. não se deixa levar por esses rótulos humanitários. E bem sabes quais podem ser as consequências…

 

             São interrompidos pela chegada da Maria da Luz a quem José, que pacientemente tinha aguardado a sua saída do Estúdio, diz, arrebatadamente:

 

            - Como te saíste bem! Ontem, hoje e sempre e sempre. Essa tua canção, «Nasci para cantar», é das mais bonitas que já ouvi. Eu sei, tenho a certeza de que vais ser uma grande estrela. A estrela que há-de guiar a minha vida. Não posso pensar em mais nada…

 

            - Mas olha que a canção foi a minha sorte grande. Bem tenho de a agradecer ao Matos Sequeira que, ao acabar de compor a Marcha para o nosso bairro para ser cantada pela Maria Clara e, só porque me ouviu cantarolar um bocadinho da «Lisboa Antiga» enquanto pendurava uns balões, me deixou estarrecida ao brindar-me com a canção, enquanto dizia:

 

            -Toma lá, rapariga. És bonita, tens uma óptima presença e a tua voz, pelo pouco que me foi dado apreciar pode levar-te muito longe. Espero que esta canção seja para ti um talismã e te abra as portas da fama.

 

(Capítulo VII do meu livro em preparação “MARIA DA LUZ – a magia da rádio”.

 

Clementina Relvas

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Sábado, 17.11.12

           

               Dar do muito que sobra agrada a Deus.

               Dar todo o pouco da nossa pobreza

               é uma graça concedida a raros

               que puseram em Deus sua certeza

               de que a farinha não se esgotará

               nem o azeite terá acabado.

 

               Pois como Deus se imolou a si mesmo,

               incarnado em Jesus, pelo nosso pecado,

               e aparecerá segunda vez em Glória

               para nos dar a Sua Salvação,

               nunca deixará sós os que O esperam

               e do Seu Corpo fez o nosso Pão.

 

 

               Fosse eu a pobre viúva de Sarepta

               que, sendo gentia, se converteu,

               seguindo as ordens do profeta

               ou a outra viúva que deu tudo

               o que tinha,  com  amor,

               e, sendo pouco, satisfez o  Senhor.

 

                        Lisboa, 17 de Novembro de 2012

 

                        Clementina Relvas

  

A VIÚVA DE SAREPTA - EXEMPLO DE HUMILDADE E FÉ
publicado por clay às 23:31 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 13.11.12

              Sonhos e realidades. Sonhos para os têm a vida pela frente e realidades, embora saudosas, para os que já viveram muito, horas boas e más, sucessos e derrotas, amores correspondidos ou desencontrados. Que a vida é assim: feita de altos e baixos e nós sempre na esperança de que, se corre mal, em breve nos traga mudanças para melhor. E às vezes traz: geralmente são apenas felicidades passageiras, mas é assim que arranjamos forças para seguir adiante. E vencer. Ou não.

            Gonçalo é um jovem cheio de ilusões, como é próprio dos seus dezanove anos. Tem tanta energia dentro de si, que não pode prescindir do seu sótão, uma pequena divisão atravancada com os ícones da sua escolha: um computador de secretária, uma foto de Figo, um cachecol da Selecção e uma bandeira de Portugal, que o acompanha sempre até ao Estádio do Benfica. Numa mesa, ao fundo, impõe-se a presença de partes dum carro, um modelo Hispano-Suíza J 12, de 1932, em cuja recuperação tem ocupado largas horas. Mas a sua grande paixão é um grande rádio, de válvulas, do tamanho dum corpo humano, com a imponente coluna de som carinhosamente resguardada por uma velha toalha, que já nem sabe por que artes ou feitiços ali veio parar. Deixou a meio um curso superior, arrastado pela magia da rádio, mas nunca largou os seus velhos hobbies. Dedica-lhes todos os seus tempos livres que não são muitos, pois também gosta de nadar e de assistir ou, pelo menos de acompanhar pela rádio, os jogos em que entre o seu clube, de que, por vontade de seu pai, é sócio desde que nasceu.

             A noite está pavorosa: súbitos relâmpagos cortam o céu e este, agora, ajudou-o a encontrar o interruptor, que inunda o sótão de luz e o seu coração duma alegria quase infantil, pois assim será mais fácil receber das mãos do carregador, que contratou numa esquina da Baixa, o enorme e pesado caixote, a abarrotar de peças para continuar a montagem do seu Hispano-Suíza. E que lhe irá proporcionar - disso tem ele a certeza, momentos de profunda exaltação pois, embora o carregador olhe para aquela tralha com estranheza e algum desprezo, não é um jovem qualquer que pode dispor assim, de pé para a mão, dum carro que foi nem mais menos, do que uma prova de optimismo contra a Grande Depressão de 1929 e o profundo desânimo em que todos se sentiram naufragados.

            Molhado até aos ossos, o carregador aceita, reconhecido, a toalha que Gonçalo lhe estende. Enquanto se vai enxugando e encorajado pela simpatia do rapaz, não se contém que não diga:

          -Tem aqui um belo poiso. E bem prático para trazer as suas amiguinhas, sem a família se meter na sua vida…

          - Engana-se redondamente. A minha família conhece-me e habituou-se às minhas engenhocas desde o tempo em que comecei a desmontar e a tentar montar cada brinquedo que me ofereciam, principalmente nos anos e pelo Natal. Até que passaram a chamar-me o sonhador da família. E, como o meu Avô tinha aqui, desocupado, este sótão da casa onde morou muitos anos e acabou por alugar, foi ele próprio quem, no dia em que terminei o Liceu, me disse, com um misto de satisfação e de ironia:

          - Olha, rapaz, se tu quiseres, podes instalar-te no meu velho sótão e assim pores fim às reclamações da tua Mãe, sempre a tropeçar, diz ela, nas tuas “invencionices”.

          - E o Avô? Vai pôr de lado as suas “bricolages”, que lhe dão tanto prazer e nos acodem quando qualquer coisa se avaria, levando a uma unânime certeza: “O Avô ajuda». Mas claro que não me podia dar melhor oferta… E sabe como lhe vou chamar? A minha caixinha de sonhos.

          - Pois que ela te proporcione muitos e belos sonhos e, sobretudo que tu, com a tua inteligência e sensibilidade, os consigas transformar em realidades. Quanto a mim, agora que os anos já me pesam, cá virei de vez em quando e até, se quiseres, te darei algumas dicas, principalmente nas electricidades, que sempre me fascinaram. Mas não contes muito com as  minhas mãos.

          - Há uma coisa que me está a fazer uma grande confusão: porque é que o Avô tem isto cheio de velharias e não tem uma televisão, que agora já ninguém dispensa? Assim, devia ser uma grande pasmaceira…

          - Não para mim. Parece mentira, mas a televisão nunca me atraiu. A rádio, sim. A rádio é outra coisa. Nem eu saberia viver sem ela. A rádio é um mistério, um feitiço e uma paixão.

          - A rádio? Como sabe, eu herdei essa sua paixão. Mas, sem bonecos, sem podermos ver os lances do futebol e os falhanços dos árbitros, que tanto jeito nos dão para as conversas de café e até no trabalho. Olhe que às segundas feiras…

          -Tudo isso é verdade. Mas acredita: a rádio é que sabe de que são feitos os sonhos. E o que eu tenho sonhado! Ponho-me a ouvir rádio e lá vou eu, atrás da sua magia. Conheci cantoras que me apaixonavam e por quem eu me apaixonava. E, quanto ao futebol, tenho de te confessar que, mesmo quando, anos depois do meu desastre, ia assistir ao vivo, a um desafio, nunca largava o meu rádio transístor.. Ficava mais preso às vozes dos locutores, sobretudo quando se tratava dum Artur Agostinho ou dum Lança Moreira, do que aos passes no relvado. E, na altura dos remates, quando o locutor alonga quase até ao fim do mundo o seu grito estridente Gooooooooooooooooool, gostava de estar perto de alguém que seguisse o jogo pela rádio. Olha que, às vezes, até me fazia pele de galinha.

         - A rádio é mesmo assim. Tem caprichos de mulher… Quando não é bem tratada, dá choque. Mas quando se torna a mulher da nossa vida, toma conta de nós e é para sempre. Foi o que aconteceu entre mim e a Maria da Luz. Um autêntico deslumbramento, um esplendor, uma vertigem… 

         - Avô, se me contasse…

         Mas José, cuja memória só a custo consegue domesticar, hesita um pouco e diz:

         -Vou demorar muito tempo, pois são muitas e muito antigas as minhas recordações. Se tu tiveres paciência…

         Gonçalo, filho do Rui e da Teresinha, quase venera aquele Avô, cuja vida nunca se cansa de ouvir contar. E que vida!

 

 (Capítulo I do meu livro, aguardando publicação: "MARIA DA LUZ - a magia da rádio")

 

Clementina Relvas

publicado por clay às 00:37 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 06.11.12

                                                                                                                                                                   

           José Miranda Relvas.jpg

Meus queridos netos: 

 

   Em  5 de Novembro de 1893 nascia no concelho de Portalegre, freguesia da Urra, a vossa bisavó Inês. Faria hoje 119 anos se fosse viva!  

 

            Estava-se já, então, em plena época industrial. Na cidade havia uma grande fábrica inglesa, a Robinson, para o aproveitamento da cortiça. Era lá que a mãe da bisavó Inês, Casimira de seu nome, trabalhava com muitos outros empregados e empregadas. A fábrica tinha já preocupações sociais: entre outras regalias, tinha uma escola, de inspiração anglicana, onde os filhos do pessoal em idade escolar aprendiam a ler em português, a escrever com uma caligrafia impecável e também a fazer contas. Às meninas ensinavam, ainda, rudimentos de costura e de bordados. 

 

           A mãe, operária da fábrica, não tinha deixado passar essa oportunidade de dar à única filha, os conhecimentos a que ela nunca tivera acesso. E, assim, a Ignez, como então assinava, se tinha tornado uma menina muito prendada para o seu meio. Pequena, de feições miúdas mas regulares, tinha conquistado muitos afectos pela sua delicadeza e pela bondade do seu coração.

 

           E foi assim que viria a conquistar o coração de José, o vosso bisavô, ao tempo um rapaz que, feito o serviço militar, ao ter de escolher, quando decorria a primeira guerra mundial em que Portugal participou, entre França e o longínquo Timor, optou por este último para onde seguiu, e ali serviu quase até ao fim da sua vida, como sargento do exército e também em funções civis.

 

           Passados alguns anos, regressou à sua cidade, para se recompor dos males provocados por um clima adverso e pela solidão em que vivera, só mitigada pelas cartas da Inês, que demoravam a chegar. Ao reencontrar-se com aquela rapariga recatada e singela, não foi difícil convencê-la a casar consigo e a partir com ele para Timor.

 

          Decorria o ano de 1925 quando ficou grávida do seu primeiro filho, o vosso avô. Atrasos nos transportes, apenas marítimos naquele tempo, impediram que o vôvô nascesse em Timor ou em plena viagem, que chegava a durar dois meses e até mais! Finalmente, o menino nasceu em Portalegre e finalmente puderam partir, tinha ele apenas oito meses pelo que, ainda hoje, por graça, o Vôvô costuma perguntar: 

 

                 - Sabem que meio de transporte me levou para Timor?

 

 E, perante a curiosidade dos ouvintes, brinca, dizendo:

 

                 - Foi o colo da minha mãe!

 

                Timor, conhecido por Timor-Leste após a independência, por se tratar de cerca de metade duma ilha, era então uma colónia portuguesa, em que a outra parte pertencia  à Holanda e hoje à Indonésia.

 

                  Toda a ilha é extremamente montanhosa. Nela não existiam estradas; as deslocações eram penosas e demoradas, a dorso de cavalo, pelas íngremes e toscos caminhos através de montes e ravinas. Tatamailau, também conhecido por Montes Ramelau, com cerca de três mil metros de altitude, era o pico mais alto de todo o então território português, Não foi pois para aquela jovem franzina, propriamente um passeio turístico aprazível.

 

                Imaginemos, agora, uma menina criada na cidade, sempre ansiosa por ir passar algum tempo no monte alentejano da mãe do seu noivo. Aí, sentia uma grande felicidade, rodeada de árvores de fruto, animais domésticos e muitas flores plantadas na borda do tanque, onde a água permanentemente corria e dessedentava todos, com o cocho de cortiça sempre dependurado do muro caiado de branco e debruado a tinta azul. Como se haveria de sentir, transplantada, com a sua vida de recém-casada e um filho pequeno, para aquelas paragens tropicais, onde tudo era diferente e a sua própria língua incompreensível para os que a rodeavam e só se exprimiam em tétum.

 

              Mas depressa se habituou ao clima, ao ambiente, aos timorenses. Não era bem o seu Alto-Alentejo mas, nas várias localidades onde habitaram no decorrer dos anos, José bem procurou recriar um pouco do ambiente que deixara, promovendo com carinho o cultivo daquela terra fértil, onde cresciam tomates, cebolas, feijão-verde, alfaces, couves, enfim, tudo o que podia produzir aquele solo e clima. É verdade que dispunha de grande abundância de frutos exóticos: bananas, mangas, papaias, abacaxis, que mulheres do povo lhes iam vender à porta de casa. E também ovos, batata-doce, espigas de milho e outras iguarias locais. Mas, quando chegava a época das cerejas, ou das vindimas, ou das castanhas, aí as saudades apertavam, apertavam e doíam.

 

          Inês tinha uma máquina de costura e muito do seu tempo era passado a fazer roupinhas para o bebé, em breve dois e, mais tarde, quatro, todos rapazes. Os tecidos vinham, como aliás a maior parte dos produtos, incluindo os alimentares, de Surabaya, na Ilha de Java. Era também de lá que vinham os bébés, na crença dos mais miúdos! 

 

           Não tardou a ser procurada por mulheres timorenses, exímias na arte dos desfiados, uma espécie de crivo feito em bretanha finíssima e de que, geralmente, resultavam autênticas obras de arte, com anjos, flores, muita beleza e engenho. Na varanda da casa, trabalhavam horas infinitas, entregues ao seu trabalho e à espera de uma retribuição que aumentasse, um pouco, os seus parcos haveres. Com elas e com algumas senhoras da reduzida elite local, foi aprendendo algumas palavras e frases em tétum, indispensáveis à comunicação. Em breve trocavam receitas de culinária, especialmente de doces e passavam tardes inteiras a experimentá-las.

 

          E os anos foram passando, como sempre passam, sem a gente dar por eles. Os filhos cresceram, frequentaram as escolas da Missões Católicas em Maubara, em Manatuto, em Ainaro, conforme os postos administrativos em que o pai ia sendo colocado. Nessas escolas, as aulas eram ministradas em tétum, por missionários, que, na mesma língua, proferiam as homilias das missas, então ditas em latim. E os meninos, portugueses e timorenses, brincavam juntos a todos os jogos que conheciam no mais perfeito entendimento. A bisavó Inês, embora tivesse sido educada numa escola de inspiração anglicana, assistiu durante todos estes anos às Missas rezadas nas Missões Católicas, com todo o respeito e fervor. O vosso Vôvô conta que a única coisa diferente que a viu fazer foi ela, com uma pronunciada vénia,  pôr a mão direita na testa, sobre os olhos e em forma de pala, sempre que na missa se rezava o Pai-nosso, o Padre-nosso como naquele tempo se dizia.

 

         Chegou a altura em que o filho mais velho, o Vôvô claro, para poder frequentar o ensino secundário, que então acabara de ser criado em Timor, teve de deixar a casa paterna numa daquelas localidades e ir viver com a família dum amigo do Pai, em Dili, a capital. A adaptação foi difícil mas, em breve, as cartas para os Pais traziam notícias de bom aproveitamento, de integração no novo meio e de entusiasmo pelos novos amigos. Ele agora até costuma dizer, por graça, que foi um dos fundadores do ensino liceal em Timor! 

 

        Até que… Até que a Segunda Guerra Mundial se ia aproximando de Timor e o Pai, que se livrara da Primeira, trocando a França por Timor, resolveu, em 1939, trazer a família para a segurança da sua pacífica cidade natal, que deixara há vários e ininterruptos anos, no gozo da sua primeira licença graciosa, como então era designada. A vossa bisavó Inês esteve assim nada menos do que 14 anos seguidos sem voltar à terra que a viu nascer e a todos os seus familiares, principalmente a sua mãe Casimira, que encontrou já muito velhinha. O Vôvô e os seus três irmãos viram Portugal pela primeira vez já muito crescidos!

 

        A longa viagem de regresso, em vários navios de bandeira holandesa, que então dominava a região, foi um nunca mais acabar de aventuras para os quatro rapazes: de barco em barco, escalando vários portos em várias ilhas daquelas paragens orientais até chegarem a Batávia, a capital, hoje Jakarta. Aqui os pais adoeceram, com certa gravidade, principalmente a vossa bisavó, tendo-lhes valido a grande ajuda do cônsul honorário português, que curiosamente se chamava Remédios.

 

        O Sr. Remédios foi incansável e tudo fez até colocá-los num grande paquete holandês directo para a Europa, o "Indrapura", cujo destino era Génova e depois Lisboa. Foi uma viagem longa e sem incidentes, pois os pais haviam recuperado a saúde. Foi neste navio que os rapazes viram pela primeira vez na sua vida cinema sonoro, que ainda não tinha chegado a Timor: o Robin Hood com Errol Flynn.

 

       Mas a guerra mundial aumentara de intensidade e esperava-se que a Itália nela entrasse ao lado dos nazis, o que veio a acontecer. A Holanda acabava de ser ocupada pelos nazis pelo que o navio holandês teve de regressar à procedência. Por isso, a partida  teve de ser transferida para Nápoles, e foi para esta cidade que tiveram de se dirigir por via-férrea, onde embarcaram, finalmente, noutro grande paquete, agora de nacionalidade italiana, o "Satúrnia", que os trouxe até Lisboa, donde seguiram para a cidade natal dos pais, onde conheceram pela primeira vez as avós e restantes parentes.

 

         Ao chegarem à sua cidade, instalaram-se numa casa arrendada, no Centro, e prosseguiram os seus estudos em escolas adequadas às suas diferentes vocações. E temperavam as saudades de Timor e dos seus amigos, com visitas ao monte da Avó Maria, onde encontraram as delícias de que, tanto e em tom saudoso, lhes falava a sua Mãe.

 

          Mas , terminada a licença graciosa, o Bisavô teve de regressar, sozinho, a Timor, para aí cumprir o tempo de serviço que lhe faltava para a reforma. Só que “o homem põe e Deus dispõe” e, em breve, Timor foi invadido pelos japoneses, o que causou inúmeras mortes e fugas para a Austrália. Mas José recusou abandonar Timor, mantendo-se fiel ao Governador da Colónia e foi dos que, com alguns outros portugueses, acabaram por ser encerrados num campo de concentração, durante quatro anos, sujeitos à disciplina e ao rigor desses lugares.

 

        Mas, também na Metrópole, reinava o mais completo desconhecimento do que, entretanto, ocorria em Timor. As famílias ignoravam se os seus parentes estavam vivos ou mortos, num sofrimento inexprimível.

 

        E assim se passaram quatro longos anos. Eram os duros anos da guerra, em que tudo escasseava e as famílias estavam dependentes das senhas de racionamento e da espera, em longas filas, para comprarem fosse o que fosse, pois tudo era essencial à sobrevivência.

 

       A Inês estava agora sozinha, com quatro filhos ainda menores a seu cargo e, ao fim de algum tempo, um mísero subsídio do Estado, que, mal imaginava, um dia seria obrigada a devolver. Valia-lhe um pouco a fartura do monte da sogra, donde lhe vinham as batatas, o azeite, produtos hortícolas e frutas da estação, bem como um ou outro animal de capoeira que lhes enriquecia algumas refeições. Mas era preciso vestir e calçar os quatro rapazes, de modo a que se apresentassem decentes nas escolas e pudessem ir, ainda que raramente, a uma sessão do único cinema da terra. E tudo isto ela conseguiu, com muita valentia, muita luta e luto no coração.

 

        Até que um dia feliz… Também há dias felizes ou, como diz o povo, “não há mal que sempre dure”, tiveram a notícia que justificava as esperanças sempre presentes nos seus corações: o Pai estava vivo e regressava com os restantes portugueses, libertos após a derrota do Japão, mas todos exaustos e muitos deles gravemente doentes. Foi assim que, numa consulta de oftalmologia, o Bisavô veio a saber que estava a ficar cego devido à diabetes que tantos anos de má nutrição lhe tinham provocado. E começou o longo calvário da dieta e da insulina diária…

 

       Conta o Vôvô que, quando na altura tinha quase vinte anos de idade e viu o Pai desembarcar em Lisboa, quase o não reconheceu,  tão magrinho ele se apresentava, com um fato muito largo que lhe deram quando foi libertado. E era o único bem que trazia... perdão, sob um braço transportava um pequeno embrulho. Era a Bandeira Nacional que durante quatro anos nunca deixou de estar hasteada no campo de concentração. Esta bandeira encontra-se hoje na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Palácio do mesmo nome junto à Praça do Rossio de Lisboa, doada àquela Instituição pelo Vôvô em comovente cerimónia celebrada há alguns anos no salão nobre daquele palácio.

 

      Apesar de tantas tribulações a heroica Inês viveu, embora para o fim bastante doente, até uma idade avançada depois de ter visto partir o José e a Mãe centenária, de que desveladamente cuidara, na sua quase cegueira e outras limitações.

 

     Entretanto, viu os filhos casados e felizes e a chegada de seis netos, todos rapazes, que muito acarinhava.

 

     Há vidas assim: Aparentemente banais, apagadas, mas que escondem autênticas heroínas do quotidiano.

 

      Lisboa, 5 de Novembro de 2012

 

      Clementina Relvas                                        

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