Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 29.11.12

 

Ilustração de Cristina Kohlhoff Feijó Relvas

 

O ar está a tornar-se irrespirável, letal. Tudo, pessoas e coisas, progressivamente se esfumam, como naquelas

manhãs em que os aviões têm de continuar em terra, apesar dos protestos dos que veem os seus planos gorados: passeios, negócios, encontros sentimentais, tudo aquilo de que a vida é feita e agora parece prestes a soçobrar no nada.

 

Os arranha-céus apagam a sua majestosa imponência numa nuvem de fumo que lembra o rescaldo dum grande incêndio, mas a verdade é que estão incólumes. Se incêndio houver, ainda mal começou, embora ameace vir a ter proporções dantescas.

 

Que estranho fenómeno! - pensa o relógio, de si para si: Colorido e nítido aos olhos que sabem e querem ver, tem um lugar central, no meio dum abundante feixe de ramos, despidos de folhas e um molho de lisos troncos, com as raízes desaparecidas por um corte certeiro, como se se tratasse dum arranjo envenenado para dar a

alguém que se ame – continua o relógio nos seus funestos pensamentos.

 

E aquele grupo de seres, cujas formas e feições estão reduzidos a esboços, eles que, ameaçados como os arranha-céus, estão a caminho da destruição total? Caminham como cegos. Desviados para os mais fúteis pensamentos, julgam-se eternos, sem se aperceberem do lixo espalhado por toda a parte, das emissões de carbono emitidas pelas fábricas, por carros que proliferam aos milhares mas que só os perturbam quando lhes roubam o espaço para estacionarem o seu; e fenómenos da natureza que dantes eram mais raros e menos destruidores. Sim. As calotes de gelo a derreterem nos polos, provocando todas essas calamidades ...  Nada disso os preocupa, embora sintam os olhos cada vez mais nublados, tanto que já nem se apercebem do relógio, das suas cores vivazes e que insiste em comer o tempo que se esvai.

 

O relógio? Será que o relógio, o tempo,sairá incólume, para medir a eternidade que nos foi prometida por Deus?

 

Lisboa, 29 de Novembro de 2012

 

Clementina Relvas

tags:
publicado por clay às 17:53 | link do post | comentar | favorito

                   Maria da Luz leu, muito atentamente, estas notas do Tio Artur que, em certas ocasiões, lhe valeram grandes elogios: «És uma sabichona. Onde é que foste desencantar tanta informação sobre a Rádio?». Mas tratava-se dum segredo bem guardado.

Mas a admiração que suscitava nas suas amigas e colegas, não era daqui que lhe vinha. Era, sim, do seu talento que começava a afirmar-se. Assim, algum tempo depois destes acontecimentos, um grupo dessas amigas, acabada a interpretação que ela fez duma canção em inglês, comentam, não sem uma pontinha de inveja:

 

             - Quem havia de dizer? Ainda há pouco fazia parte do coro e agora já é solista. Com o seu talento, há-de chegar muito longe, é o que vos digo. A mim até já me disseram que o Leitão de Barros quis por força convencê-la a participar no elenco da  “Maria Papoila”. Mas ela rejeitou o convite, dizendo que não nasceu para atriz, mas sim para cançonetista. E sabem quem fez de Maria Papoila? Foi a Mirita Casimiro que, essa sim, parece ter o teatro nas veias e também canta muito bem, tornando as suas canções tão populares que toda a gente as trauteia.

 

            Mas agora interrompem-se, dizendo:

 

            - Que é que vem a ser isto? O locutor a aparecer, assim de repente… Que más notícias terá ele para nos dar?

 

            O locutor, meio em pânico, de atropelando as palavras, anuncia:

«Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de cantigas tornadas célebres pelo cinema português para transmitir uma notícia da última hora, da Agência Press. É tão inesperada e alarmante que pôs o mundo em sobressalto: às 19 horas e 45 minutos, o Dr. Jorge da Fonseca, do Observatório Meteorológico de Braga, diz ter detectado, no planeta Marte, várias explosões de gás incandescente. E o Professor Manuel Franco, do Observatório Astronómico de Cascais, descreve o fenómeno como “um jacto de chama azul, disparado por uma arma”.

 

            Todos ficam assustados e não tarda que o alarme suba de tom:

 

            «Acrescentamos a esta notícia que, segundo fontes fidedignas, os marcianos já chegaram a Portugal. Neste momento, a população está alarmada e dividida: uma parte aguarda, ansiosamente, que a rádio lhe forneça mais pormenores, enquanto outra, em número já considerável, se precipita para Cascais».

 

            Entretanto, no Estúdio, vai uma grande confusão: soltam-se gargalhadas e manifestam-se alguns receios dos mais crédulos e menos informados. Matos Maia tinha conseguido, na esteira de Orson Welles, pôr o país em polvorosa, como, aliás, tinha sucedido na América. Foi um autêntico “golpe radiofónico”.

 

            Mas outros problemas, esses reais e bem mais graves, preocupam os portugueses em geral e, em particular, os jornalistas. O noticiário que agora se escuta, arrasta consigo terríveis augúrios:

 

            - Este ano de 1939 vai ser o ano de todas as catástrofes: Adolfo Hitler acaba de ocupar a Checoslováquia e de invadir a Polónia. O seu insaciável apetite de expandir a Grande Alemanha e as suas execráveis teorias de superioridade da raça ariana, a única verdadeiramente pura e digna de governar o mundo, já bem conhecidas depois da publicação, em 1925 e 1926, do seu livro Mein Kampf, não podem deixar indiferentes países democráticos como a Inglaterra e França. Já não restam dúvidas, a ninguém esclarecido, de que este é o princípio duma segunda grande guerra, certamente bem mais terrível do que a primeira, já de si tão devastadora. É nestes momentos que qualquer país precisa de governantes à altura. Portugal e a Espanha, que acabam de assinar o Pacto Ibérico irão, graças à prudente inteligência de Salazar e Franco, procurar manter-se neutrais. O que vai exigir medidas duras como, as já decretadas, de encerrar todas as emissoras particulares de rádio. Exceções serão apenas O Rádio Clube Português e a Rádio Renascença.

 

            Quando o indicativo luminoso, “No ar”, se extingue, entram no estúdio dois jornalistas bem conhecidos que, pelos gestos precipitados e pelo ar congestionado dos seus rostos, mostram uma grande preocupação e discordância. Um deles, o Vasco, homem prudente e sensível, mais ligado à rádio, não consegue dominar a sua angústia e preocupação:

 

            - Ó Guedes, diz-me lá que loucura é essa? Vieram-me dizer que andas por aí a espalhar aos quatro ventos que queres ir para a frente de batalha? Não te chegou o que passaste para fazer a cobertura da Guerra de Espanha e os três anos a viver o horror daquela luta fratricida? A meu ver, nem os elogios pelo cuidado posto na informação, nem a amizade que aí começou entre ti e o Ernest Hemingway, podem alguma vez pagar todos perigos que correste e todos os sacrifícios que te foram exigidos.

 

            - Pois sim. Mas um homem não é de ferro. Eu, Vasco, também o não sou. E quando, embora à socapa, se ouvem as notícias arrepiantes que o Fernando Pessa nos manda pela BBC, como ficar indiferente a toda aquela barbárie? Como é que alguém e, para mais, um jornalista amigo da justiça e da fraternidade, se sente ao conhecer as perseguições antissemitas do gueto de Varsóvia e o drama dos desgraçados que são obrigados a largar tudo e, encurralados num comboio de gado, seguir para um destino sobre o qual nada sabem?

 

            Mas descansa, que, pelo menos por agora, ainda não posso seguir os meus impulsos de lutar pela liberdade. A minha luta, por enquanto é outra e bem diferente: fazer-me porta-voz dos que, em Portugal continental, vivem ainda na pobreza e mergulhados no analfabetismo. Acabei de criar um movimento, mais ou menos clandestino, «Por um Portugal melhor» e nem me passa pela cabeça não contar com a tua colaboração.

 

            - Claro, Guedes. Mas temos de ser muito prudentes, pois a P.I.D.E. não se deixa levar por esses rótulos humanitários. E bem sabes quais podem ser as consequências…

 

             São interrompidos pela chegada da Maria da Luz a quem José, que pacientemente tinha aguardado a sua saída do Estúdio, diz, arrebatadamente:

 

            - Como te saíste bem! Ontem, hoje e sempre e sempre. Essa tua canção, «Nasci para cantar», é das mais bonitas que já ouvi. Eu sei, tenho a certeza de que vais ser uma grande estrela. A estrela que há-de guiar a minha vida. Não posso pensar em mais nada…

 

            - Mas olha que a canção foi a minha sorte grande. Bem tenho de a agradecer ao Matos Sequeira que, ao acabar de compor a Marcha para o nosso bairro para ser cantada pela Maria Clara e, só porque me ouviu cantarolar um bocadinho da «Lisboa Antiga» enquanto pendurava uns balões, me deixou estarrecida ao brindar-me com a canção, enquanto dizia:

 

            -Toma lá, rapariga. És bonita, tens uma óptima presença e a tua voz, pelo pouco que me foi dado apreciar pode levar-te muito longe. Espero que esta canção seja para ti um talismã e te abra as portas da fama.

 

(Capítulo VII do meu livro em preparação “MARIA DA LUZ – a magia da rádio”.

 

Clementina Relvas

publicado por clay às 12:07 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Visitas desde Maio de 2007

Contador de Visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Novembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds