Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 25.01.13

                 

Meus queridos netos:

 

            O meu neto Zezinho já não é Zezinho. É José António, assim como eu, com um certo desgosto, passei de Vóvó a avó Clementina e o Vôvô a avô Emílio. Não há papá nem mamã, mas pai e mãe como dizem os crescidos. Crescido também ele está, com os seus sete anos feitos há pouco, mas continua meiguinho, exprimindo-se agora com um vocabulário já muito elaborado: estou prestes a; é melhor que bom, é excelente; o polvo não tem patas tem tentáculos, etc.

 

            Continua a parecer um anjinho, por dentro e por fora. Isto se esquecermos os momentos, agora mais raros, em que não desiste de manter a sua opinião (Quem manda sou eu).

 

            Aqui há dias, numa das suas, para mim, sempre curtas visitas, teve comigo esta conversa encantadora:

 

            - Olha, avó Clementina, nós temos de ajudar os velhinhos, porque eles também nos ajudam e até podemos aprender muitas coisas  com eles, não achas?

            - Claro que sim, além de que nós precisamos da vossa ajuda, porque começamos a ter menos forças, algumas doenças…

            - Pois - atalhou ele – as tuas dores de costas, não é? Mas podes apoiar-te nos meus ombros, que eu, agora, até já estou bem mais crescido.

 

            Referia-se a uma queda que eu dei há cerca dum ano e que, depois de três meses acamada, me obrigava a deslocar-me com as mãos apoiadas nos ombros de alguém que, à minha frente, me conduzia como se fosse ceguinha.

 

            Um dia ele reparou nessa ajuda que me estava a dar o avô e quis ser ele a tomar o seu lugar. E lá fui eu, muito curvada, a fingir que me agarrava nos seus frágeis ombros, do meu quarto até à sala, onde todos se quedaram comovidos com esta cena. E foi há mais dum ano. Que rica memória!

 

            Pois agora, embora já não precise de recorrer a essas ajudas, lá voltámos a repetir esta relação de carinho, ele todo contente por ser útil e eu, de coração  derretido.

 

            Beijinhos, meu anjo da guarda.

                       

                                   Lisboa, 23 de Janeiro de 2013

 

                                   Clementina Relvas

publicado por clay às 00:05 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 22.01.13

        Meus queridos netos:

 

 

             Lilita é uma cadela brasileira que, muito merecidamente, recebeu a honra de fotografia e texto na Televisão: recolhida por uma alma generosa, ficou a viver com outros animais que, como ela, tinham sido abandonados.

 

            A dada altura, descobriu uma casa de acolhimento como a sua, mas onde havia mais abundância de comida. Habituou-se a ir lá, em busca de alimento. Mas não tardou que as tratadoras se dessem conta de que, quando Lilita acabava de comer, se quedava de olhos fitos nos restos . Até que um dia, uma delas sugeriu: “Parece que a cadelinha quer levar a comida que sobrou. Porque será?”.

 

            Meteram num saco de plástico o arroz, feijão e carne que ficara, depois de todos já terem saciado a sua fome. E, para espanto de todos, a Lilita segurou cuidadosamente na boca o saco bem atado e foi à sua vida.

 

            Intrigada, uma senhora seguiu-a até à casa onde ela vivia com os outros animais ali recolhidos e, num crescendo de espanto, verificou que a Lilita depusera o saco no chão ao alcance de todos os que ela sabia com fome e, em breve, foi uma confraternização geral, à volta de banquete tão inesperadamente aparecido no meio daqueles desvalidos.

 

            Mas a história verídica e documentada, não acaba aqui. Dali em diante, todos os dias, a cadelinha passou a percorrer três quilómetros para se ir alimentar e trazer, percorrendo outros três quilómetros, aos companheiros famintos, o saco de restos que lhes saciavam a fome e alegravam os seus dias.

 

            Que magnífico exemplo de voluntariado! Claro que, no nosso país e por todo o mundo, há milhares de milhares de pessoas que se preocupam com as necessidades do próximo e põem as suas vidas ao serviço dos que nada têm, dando não só o que lhes sobra, mas até o que lhes faz falta e convencendo aqueles que mais possuem, a partilhar os seus bens com os desvalidos. Mas aqui se prova que esse impulso para ajudar o próximo é um instinto a que os próprios animais não são alheios e que, de vez em quando, tocam o coração dos homens que precisam de ser cada vez  mais solidários.

 

                                   Lisboa, 22 de Janeiro de 2012

 

                                   Clementina Relvas

 

 

 

publicado por clay às 14:00 | link do post | comentar | favorito
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