Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 17.07.13

Meus queridos netos:

 

                 A Formiga Choramigas e a Cigarra Cantadeira eram duas boas vizinhas que viviam junto ao tronco, muito velho e carcomido, duma nogueira quase centenária, mas que ainda nos regalava, todos os anos com uma boa saca de nozes.

                                                                                                     

             

   Durante todo o Verão, andava a formiga numa roda viva, acarretando para a sua casa de duas minúsculas assoalhadas (habitação e celeiro), cada grãozinho que os ceifeiros deixavam atrás, ao ceifar. Por vezes, já a neve começava a pintalgar os campos e lá se vislumbrava a formiga, vergada ao peso dum grão maior, derreada com aquela inesperada dádiva dos seus deuses.

 

               E nunca se queixava. Por mais queimada que se sentisse por um sol tórrido (daí aquela cor de chocolate preto que durava todo o ano) ela achava tolos e desconchavados os desabafos das ceifeiras:

 

              "Isto hoje é que não se aguenta!", pois continuavam a trabalhar, que a jorna era de sol a sol.

 

              Até que chegava o Inverno. Então tudo ficava gelado e, por vezes, nem restava buraquinho por onde se pudesse sair. Era o período em que a formiga, aninhada no seu cantinho, se regalava com o grãozinho de trigo, de milho ou de cevada que, previdente, fora amealhando durante o Verão.

 

                            E as cantorias da cigarra que, durante meses, lhe tinham massacrado os ouvidos, não é que agora até lhe faziam falta, tornando os dias soturnos e intermináveis? De vez em quando, ouvia débeis gemidos e pensava de si para si: "Lá está a pobre desgraçada, cheia de fome e talvez de arrependimento, por ter desperdiçado o bom tempo em que não largava as cantigas e era presença constante em todos os bailaricos da região, onde não faltavam ricos petiscos"

 

 

 

 

            Como não podia sair de casa, não lhe podia acudir com alguns grãos que lhe iriam sobrar, embora, no seu íntimo, esvoaçassem nuvens de azedume por ver os efeitos daquela vida "sem rei nem roque".

 

           Até que teve uma ideia: como agora não tinha trabalho a fazer, podia ir-se entretendo a abrir uma  passagem por onde ir ao encontro daquela cabecinha oca e levar-lhe, além dum pouco de comida, algum convívio e consolação.

 

          Ah! Não foi esta a história que vos contaram? Pois claro, há muitas formigas no mundo e cada uma delas é diferente da vizinha. Esta era assim: trabalhadeira, poupada mas amiga de ajudar os que, fosse qual fosse o motivo, estivessem a sofrer. Era o que hoje chamaríamos um exemplo de voluntariado social.

 

                        Lisboa, 11 de Julho de 2012

 

                        Clementina Relvas

 

           

publicado por clay às 14:22 | link do post | comentar | favorito
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