Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 28.05.07

Minha querida neta:

 

           Eu sei que tu aprendeste a fazer pão, quando tinhas aí uns sete anos, nas actividades para-escolares da Escola Alemã. Fizeste muito direitinho tudo a que a professora foi dizendo, regalaste-te com um dos pãezinhos feitos por ti e levaste, para casa, um outro que toda a gente provou e elogiou.

 

Depois, com a tua independência, quiseste repetir a experiência, mas sozinha, claro, e ao fim de algum tempo tendeste (ou seja moldaste) uns pãezinhos muito bonitos que levaste ao forno, a cozer. Quando passou o tempo que a professora tinha indicado para a cozedura, tiraste-os do forno e oh! tristeza, os pãezinhos não tinham crescido. Ficaram muito sossegadinhos com a forma que lhes tinhas dado, mas o pior foi quando lhe ferraste os teus dentinhos: duros que nem uma pedra. Não choraste porque não és menina de chorar, pelo menos para fora, mas foste-o mostrar à Mami que logo calculou onde devia estar o mistério. De facto, em cima da mesa, estava o fermento branquinho que até te pareceu ter um ar levemente trocista.

 

Agora, já sabes fazer bolos – com a experiência é que melhor se aprende – e fazê-los sobretudo quando um de nós faz anos: para o vôvô com pouco açúcar, para não lhe aumentar o risco dos diabetes, para mim, sem creme para não ficar a D. Redonda e para os outros, o que tu gostas mais de fazer é uma montagem de chantilly e frutas frescas variadas e coloridas, com tanta arte, que até os olhos se regalam. Mas muito mais se regala o paladar pois é de comer e chorar por mais.

 

Vieram estas recordações, e muitas outras de que vou falar, da visita que, com o vôvô, fiz há dias ao Museu do Pão, na cidade de Seia. É um espaço muito amplo e muito bem organizado: uma casa moderna, construída para o efeito, e onde se pode ver todo o ciclo do pão, desde a sementeira do grão até, quando as searas já estão maduras, a ceifa, que consiste em cortar as espigas, à debulha, ou seja, retirar o grão da cápsula de palha que o envolve. Depois vêem-se três moinhos antigos, cada um com duas mós (pedras redondas) que, roçando uma na outra, transformam os grãos em farinha. Os moinhos podiam ser manuais (mais pequenos) ou então puxados por animais ou movidos a água ou vento.

 

Tudo isto está muito bem ilustrado com gravuras apelativas e legendas simples, tal como o que se segue. Mas aqui vêm misturar-se as tais outras minhas recordações de que te falava. Sim, em minha casa, havia uma divisão na cave onde se fazia o pão. Era aí que a minha mãe peneirava a farinha, para lhe extrair o farelo e o pão sair branquinho, a masseira, uma grande caixa de madeira onde se juntava a farinha, o fermento que se tirava da massa da semana anterior, e que era desfeito antes de juntar a farinha e água necessárias até a massa ter a consistência desejada. Mas para chegar a esse ponto, só te digo, Cristina, tinha de se dar muitas voltas: primeiro juntando suavemente os elementos e depois sovando-os – sim, como se estivessem a levar uma sova. Uma vez pronto – não era difícil de adivinhar à experiência de minha mãe que repetia esta tarefa todas as semanas – passava-lhe um pouco de farinha para o moldar melhor e fazia uma cruz em cada pão, dizendo:

 

São Vicente te acrescente,

São João te faça pão,

e a Virgem Santa Maria

te deite a sua benção (o acento circunflexo no e omitia-se por causa da rima)

 

Depois era só pôr-lhe um sinal distintivo: um pedacinho de pau, uma bola de massa, no topo, ou outra coisa assim, porque, na aldeia, só havia um forno – o forno do povo – e várias pessoas coziam o pão ao mesmo tempo. E nunca vi que ninguém se tivesse enganado ao recolher o seu pão.

 

Ficávamos, então, com pão para toda a semana e, mesmo um bocadinho duro nos últimos dias, sempre nos perecia o melhor pão do mundo.

 

Mas havia outro reino onde eu assistia a uma tarefa semelhante: era na escola primária que funcionava na casa da senhora professora que, por sinal, era minha tia. Quando era o dia de amassar o pão, lá era eu destacada para ir deitar a água na massa à medida que a empregada o achava necessário. E bem gostava eu desta tarefa: é que num banco preguiceiro fechado, ao lado da masseira, havia uma colecção de livros, meio reais meio lendários, sobre figuras conhecidas da nossa História. E eu, olho na massa, olho no livro, passava ali um bom bocado de sonho.

 

            Tudo isto me veio à memória no Museu do Pão, onde encontrei eco de todas as minhas impressões de infância: quatro salas com todas as fases do fabrico do pão, uma outra dotada de um vidro para se poder ver, de longe, - e assim evitar contaminações -como tudo isso era feito. Havia também pães, feitos sem fermento, que eram autênticas esculturas, com muitos e variados bonecos, alguns bem engraçados.

 

            Mas além de tudo isto, há ainda uma cafetaria com uma varanda panorâmica para a serra e um restaurante que não vi porque levávamos outro destino através da Serra da Estrela até à Covilhã, o que de facto fizemos mas com um nevoeiro de cortar à faca e de cortar de medo a respiração. Ah! É verdade: cá fora havia dois carrinhos pequenos e um comboiozinho – não tão zinho assim – para transportar grupos, principalmente de meninos das escolas que, graças àquela visita, ficam a saber as voltas que leva o pão até chegar à padaria.

publicado por clay às 01:12 | link do post | favorito

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