Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 04.03.08


Meus queridos netos:

Na minha última carta fiz uma breve evocação da nossa Luísa mas o tempo que ela viveu connosco (cerca de 14 anos) e a sua dedicação a toda a família, em particular aos nossos filhos, merece mais do que isso: merece ficar nestas memórias pelo afecto e gratidão que tão bem soube merecer.

Nós chegámos à Caála por volta do dia 20 de Julho de 1960, quando o Tio Zé completara a sua primeira semana de vida e um pouco antes de iniciar, no princípio de Outubro, as minhas funções no Liceu Norton de Matos, o Vôvô começou a procurar, com a ajuda dos seus funcionários espalhados pelo Concelho, uma pessoa idónea para ama do bebé. Apresentaram-nos então a Luísa, uma rapariga mestiça filha dum comerciante do Quipeio, órfã de mãe e com pouco mais de dezassete anos. Não era bonita, com pronunciados traços negróides e uma carapinha curta, mais tarde, em Luanda, disfarçada por uma peruca. Era muito simpática e delicada e toda a gente gostava dela. Conquistou incondicionalmente o coração do tio Quim, que ajudou a criar desde o seu nascimento, e que ainda hoje conserva o seu retrato, bem à vista, em lugar de honra, na sua casa. Era bastante tímida mas bastante aplicada, sempre desejosa de aprender pois, quando veio, pouco mais sabia do que falar com certa dificuldade o português. 
             
Acompanhava-nos em todos os passeios que fazíamos: à Muxima, ao Cacuaco, ao Morro dos Veados, à Barra do Quanza e à Ilha do Mussulo, um local paradisíaco, perto de Luanda, com praias de areias finas e água quentinha, onde nos regalávamos a nadar e a saborear, na esplanada sob os coqueiros, um churrasco de frango que estava sempre delicioso. O Mussulo era um deslumbramento: o pôr-do-sol por trás dos coqueiros, a água cristalina e quase sem ondas e, de vez em quando, revoadas de gaivotas a exibirem, à compita em bandos enormes, acrobacias que nunca conseguimos filmar em toda a sua beleza.

Regressávamos como fôramos, a bordo do Ka-Posoka, quase sempre acompanhados pela minha afilhada e sobrinha Tininha, mais velha do que os nossos filhos. Ao desembarcar metíamos no nosso carro e voltávamos a casa, retemperados e felizes.

Também foi connosco a Malange, cidade então muito progressiva. Mas o que, pelo caminho, maior impressão me causou, foram os inúmeros imbondeiros, de grossos troncos por vezes ocos, onde até se abrigavam pessoas e

               

de cujos ramos retorcidos e sem folhas, pendiam os seus abundantes frutos em forma de ratos pendurados pelo rabo, eu nem sequer sei se eram comestíveis. Certamente influenciada pelos «baobas» de Saint-Exupéry, inspiraram-me um poema que vos reproduzi atrás, em homenagem às maravilhas da Natureza daquele vasto país que muito amo.

Foi nessa altura que, por mais que tentássemos, não a conseguimos convencer a vir de férias connosco, quando, ao fim de sete anos, gozámos a nossa primeira licença graciosa, que se estendia por vários meses de bem merecido descanso. Tivemos de arranjar outra ama, em Portalegre, para não sobrecarregar os bisavôs com duas crianças de quatro e cinco anos, tanto mais que eu aproveitei para ir fazer uma reciclagem de Francês, em Tours, onde o Vôvô também se matriculou, embora mais como turista.

Esta segunda ama, a Alice, era boa rapariga mas só ficou célebre pela sua bonita cabeleira e pela camada de piolhos com que infestou as crianças. Quanto à Luísa, voltou para junto do pai e da irmã durante as nossas férias de oito meses. Porém, mal regressámos a Angola, retomou o seu lugar na nossa família.

Nesta altura, já o tio Zé ia fazer seis anos e o tio Quim, cinco. Andavam num colégio particular, propriedade duma colega minha do Liceu, que ficava mesmo ao lado deste. Já eram uns rapazinhos crescidos tanto em casa como na Escola. O Quim era o preferido da Luísa, talvez por ser o mais novo mas principalmente, como já disse, porque se ocupou dele desde o seu nascimento. Era, e é, mais afectivo e lembro-me de que, numa das nossas viagens, trocou o colo da Luísa pelo meu, o que a deixou muito triste. Geralmente, conviviam muito os dois e os outros empregados da casa e foi assim que o Quim ganhou o gosto pelo peixe seco com funge, que a Luísa me pedia para comprar quando ia à praça e era o petisco domingueiro dela e do seu ajudante, bem como do Quim, é claro. Por isso, quando íamos para a praia – todos os Domingos, depois da missa – do almoço que levávamos para, junto aos do nosso grande grupo de amigos, fazermos uma grande almoçarada, lá constava um pequeno taperware, onde a Luísa não se esquecia de pôr o petisco do seu menino.
À medida que foram crescendo, iam deixando a Luisa com mais tempo livre: de manhã iam para a Escola e, à tarde, estudávamos juntos. Se a preparação das minhas aulas me impedia de brincar com eles, iam ter com os vizinhos da sua idade e também com os garotinhos pretos que viviam em duas ou três cubatas nas traseiras da nossa casa, com quem jogavam à bola e que os ensinaram a fazer e manejar os seus engenhosos carrinhos de arame.
A Luísa tinha desempenhado, desde sempre, o papel de intermediária entre mim e os empregados; era ela quem lhes dava ordens, quem os punha aptos a realizar as suas tarefas e ainda, nas horas vagas, quem lhes ensinava algumas orações e procurava iniciá-los na leitura e na escrita. Mas nunca conseguiu ter grande êxito no seu trabalho «missionário» porque, ao fim de poucos meses de casa, quando sabiam que o patrão tinha um emprego importante nas Obras Públicas, tratavam logo de meter uma cunha à Luísa, sempre pronta ajudá-los e sempre com êxito.

Penso que é altura de dizer que, uma vez em Luanda, a Luísa, farta de trabalho lento e mal feito, sempre a exigir a sua intervenção, foi-se propondo substituir, progressivamente, a lavadeira e o cozinheiro, acumulando com o seu os ordenados deles. Ficámos apenas com um empregado, sempre a mudar como disse, que a ajudava na cozinha, limpava o chão da casa e se ocupava do jardim e do quintal das traseiras, o que incluía os animais de estimação do Quim: uma gata, porquinhos-da-índia e outros, entre os quais um pequeno cágado que em breve procurou outras paragens. Isto, claro, quando o Quim tinha de se preparar para os testes, já que o cuidar dos animais era incumbência sua.

Era uma vida tranquila e feliz, sem luxo mas também sem privações, embora com alguns sobressaltos provocados pelos ecos da guerra, que se desenrolava lá longe. Mas foi por causa desta guerra que deixámos Angola e também a Luísa pois, mais uma vez, não houve argumentos que a convencessem a vir connosco para Portugal, tendo ficado em Luanda, num emprego que o Vôvô lhe conseguiu, a trabalhar num Hotel de Luanda. Durante muitos anos trocámos correspondência com ela – o Quim e eu – e fomos sabendo notícias suas através de pessoas conhecidas até que, com muita pena, a perdemos de vista, embora ainda hoje esteja bem presente nas nossas memórias e no nosso coração.

E então, beijinhos para a nossa Luísa de Angola e, claro, para os meus netinhos. Até breve.





publicado por clay às 16:21 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Março 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
20
21
22
23
24
25
27
28
29
30
31
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO