Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 16.03.08

 Meus queridos netos:

 

         Apesar do que deixei dito na última carta, os dois anos que passámos na Caála foram anos felizes: o Zezinho ia crescendo, muito precoce no andar e na fala e sem nos dar problemas de maior, a não ser no primeiro mês, em que chorava toda a noite porque o meu leite não satisfazia o seu apetite, aliás constante até hoje. Assim, desde que passei a alimentá-lo a biberão, tudo entrou na normalidade.

 

         Quando completou catorze meses, nasceu o Quim, no Hospital de Nova Lisboa que ficava a vinte e três quilómetros da nossa casa; e tão aflitiva era a pressa do Vôvô para, às onze horas da noite, me entregar aos cuidados dos especialistas, que atropelou um veado, encandeado pelos faróis do Faísca, o nosso Volkswagen, adquirido em segunda mão no rescaldo da guerra do Catanga, ainda com marcas de ter apanhado uma rajada de metralhadora naquele território, quando ainda era do seu antigo dono.

 

         Tratava-se de um “Carocha”, ainda de óculo traseiro pequeno, com o qual, mais tarde, numas férias em Portugal, no gozo de uma então chamada “licença graciosa”, percorremos o nosso país de lés-a-lés, por montes e vales, com grandes cargas em cima do tejadilho, sem nunca nos ter deixado mal! O Vôvô costumava dizer que o carrinho era melhor do que um jeep. O certo é que voltou a Angola, onde nos continuou a prestar óptimos serviços até que pudéssemos comprar um carro novo, pois o dinheiro não abundava, apesar de sermos dois a ganhar…

 

         O tio Quim nasceu bem, provocando, como é hábito, alguns ciúmes no irmão mais velho, destituído do seu estatuto de filho único. Já adaptados aos sobressaltos da guerra, teve um baptizado muito diferente do tio Zé: este foi baptizado à pressa, sem poder ter como padrinhos, como era nosso desejo, o meu irmão Alfredo e a Adelina, que viviam em Luanda, e tendo, como festa, apenas um almoço oferecido pelo Administrador do Concelho e esposa, seus padrinhos de emergência. O Quim, baptizado também na linda ermida de Nossa Senhora do Monte,

           

teve uma festa muito concorrida por todos os amigos, que já eram numerosos e um autêntico banquete para o qual contribuíram os artísticos bolos e outra iguarias confeccionados pelas esposas dos chefes de posto.

 

          Tínhamos nessa altura vários empregados, pagos pela Administração: um cozinheiro que parecia já velho e, viciado em liamba, passava a maior parte do tempo a dormir num banco do quintal, já não fazendo coisa com coisa; uma lavadeira que me enchia o quintal de filhotes e de pequenas fogueiras onde cozinhava a fuba e o peixe seco que era gratuitamente fornecido a todo o pessoal, e um criado de dentro, miúdo vivaço com cerca de dezoito anos e que protagonizou um episódio hilariante: um dia em que o procurei por toda a parte, chamando-o sem que ele desse sinal de vida, e tendo quase a certeza de o ter visto entrar para o nosso quarto, espreitei para debaixo da cama e qual não foi o meu espanto ao ver, cozido com a parede branca, um vulto de que sobressaíam os olhos, muito vivos e escuros, envergando a minha «liseuse» cor de rosa, a cuja atracção não foi capaz de resistir. A muito custo, lá saiu do improvisado esconderijo, balbuciando a desculpa de que quisera ver como lhe ficava uma roupa tão linda.

 

         Além deste pessoal, contratámos a expensas nossas, uma ama para cuidar, primeiro do tio Zé e depois também do tio Quim, que ela dedicadamente tratou duma renitente alergia ao leite, mudando-lhe a roupa durante a noite, pois a transpiração aumentava-lhe o prurido e o mal estar. Era a Luísa, de quem vos falei com certo pormenor na carta anterior, então com dezoito anos e vinda duma aldeia do Concelho da Caála, o Quipeio, porque eu fui, durante esses dois anos, professora no Liceu Norton de Matos, nome herdado do fundador de Nova Lisboa. Tinha aulas todas as manhãs e, em dias de reunião de professores, o que não era muito frequente, também ficava no Liceu uma parte da tarde.

 

          Como o Liceu ficava a cerca de vinte quilómetros da nossa casa, por uma boa estrada (a mais extensa recta que me lembro de ter percorrido), tratei logo de tirar a carta de condução e para lá me dirigia, dando geralmente boleia a uma colega e amiga que leccionava Matemática e era uma óptima companhia. A Fernanda Macedo, assim se chamava, morreu com sessenta e dois anos, pouco depois de ter regressado a Portugal e eu ainda hoje rezo algumas orações que lhe serviram de conforto no seu sofrimento, como esta que transcrevo: «Senhor Jesus, que eu dê à cruz que Tu me deste a medida inteira dos meus braços». Na Caála, vivia com os seus tios (ele engenheiro das Obras Públicas), um casal muito recto e bem disposto com quem mantivemos as melhores relações de amizade.

 

         Mais tarde, foi nomeado um novo Administrador do Concelho que, apesar de muito traumatizado pelos horrores da guerra a que assistira no Norte, procurava dar expressão ao seu feitio bem disposto, coadjuvado pela esposa, essa dotada dum humor muito crítico e apurado. Tinham uma filha pequena, com cerca de oito anos, que gostava muito do tio Zé, que a chamava Lóló.

 

         Quando o Vôvô ganhou o concurso para Director Administrativo das Obras Públicas de Angola, ficou a substituí-lo nas funções de Secretário um colega natural do Porto, que, com a esposa, um filho e uma filha quase da idade dos nossos, eram os nossos companheiros de todas as horas e que, mais tarde, reencontrámos em Luanda, onde continuámos a conviver e acompanhámos na imensa dor causada pela morte do filho, então com doze anos, por uma deficiência cardíaca que nunca fora detectada. Com eles tínhamos feito belos passeios como às Pedras Negras e às quedas de água “Duque de Bragança”, no rio Lucala, uma das mais grandiosas de África. Quando regressámos definitivamente a Portugal, escrevemo-nos regularmente pelo Natal até que o tempo e a distância – eles foram viver para o Porto – nos privaram desse convívio mas nunca da mútua amizade.

 

           Por todas estas razões, a despedida da Caála foi para nós bem dolorosa, após dois anos que muito marcaram as nossas vidas.

 

                    E ala, para Luanda. Até breve e muitos beijinhos.

          

 

publicado por clay às 00:37 | link do post | comentar | favorito
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