Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 06.04.08


Meus queridos Netos:

Creio ser escusado dizer-vos que, na vida, todos temos de ultrapassar momentos difíceis, até mesmo os animais.
Que o diga o meu amigo Pantufa, um cão do mais puro pedigree, possuidor de Caderneta com nome de pai e mãe, data de nascimento e indicação de raça que, nos caninos e outros animais, excepto os humanos, não revela qualquer espécie de discriminação.
Ainda mal tinha nascido, vira-se logo separado da mãe e dum rancho de irmãos e exposto para venda numa loja de animais. Embora bem tratado, apertava-se-lhe o coração sempre que ouvia:
- Calhava bem era vender este enquanto ainda é bebé e pode render bom dinheiro.
Pensava: a que mãos irei parar? Gostava tanto de encontrar um dono simpático, que gostasse das minhas lambidelas e das minhas habilidades e que não se cansasse de mim…
É que já lhe tinham chegado os ouvidos, pela boca dos mais velhos, arrepiantes histórias de cães que, mal chegavam as férias dos donos, eram abandonados nas auto-estradas ou em parques de estacionamento e por ali andavam até os levarem para o Canil Municipal, uma espécie de prisão que, mesmo horrível, todos os dias se esvaziava para dar lugar a outros. Isto para não falar dum destino mais tenebroso, resultante dum autêntico crime: ser atirado para o Tejo, do sítio mais alto da Ponte Vasco da Gama e ter a sorte de morrer afogado e não ficar, horas e dias, a ganir no rebordo exterior da ponte, até lhe enrouquecer a voz e se lhe fecharem os olhos.
Mas o Pantufa era um cãozinho valente e optimista: sentia que, dum dia para o outro, alguém se encantaria com ele, com o seu pêlo abundante e comprido, os seus olhos vivos e expressivos e as suas orelhas que ele sabia arrebitar para exprimir as mais variadas emoções. E assim, pensava ele, em breve arranjaria um amigo.
Não se enganou, o nosso Pantufa: um dia viu-se ao colo dum senhor – pela roupa que vestia mais lhe parecia um rapaz – que o levou para casa e começou a enchê-lo de mimos. Só havia um problema: roía tudo quanto estivesse ao seu alcance e toda casa lhe servia para satisfazer as suas necessidades básicas. O dono ralhava com ele mas, ao olhar para os seus olhos doces, pegava-lhe ao colo e, pacientemente, procurava ensiná-lo a ser um cão bem comportado e apresentável que pudesse apresentar aos seus pais, cuja idade lhes fora minando a paciência.
Ao fim-de-semana, dava-lhe um banho quentinho com um champô muito bem cheiroso, penteava-lhe, carinhosamente, os longos pêlos até ficarem brilhantes e aprimorava-lhe a popa que eles faziam, entre as orelhas, sua irresistível imagem de marca.
Com o passar dos dias, começou a reparar que o dono mudava frequentemente de humor e, embora nunca deixasse e o mimar, às vezes ficava sem paciência para as suas brincadeiras. O Pantufa retirava-se para o seu canto e aguardava que o dono o chamasse. Dirigia-lhe, então, palavras carinhosas e até o deixava dormir no aconchego da sua cama. O Pantufa ali ficava, muito sossegadinho, e só de manhã, quando o dono acordava, é que não resistia a ir dar-lhe os bons dias, à sua maneira, com as habituais lambidelas. Parecia-lhe que o dono gostava desse ritual, porque se ficavam um bom bocado na brincadeira, o que era o melhor começo do seu dia.
Mas como a felicidade não é um estado permanente, chegou uma altura má para o dono: adoeceu, deixou de ganhar o dinheiro suficiente para pagar as prestações da casa e teve de ir viver para uma casa pequena e desconfortável. Mas o que mais afligiu o cãozinho é que a dona da casa, uma autêntica megera, o afastava da companhia do dono, prendendo-o no quintal, ao lado do Farrusco, um vira-latas esquelético e malcheiroso, que estava constantemente a ladrar-lhe ou a rosnar. Em breve, também ele começou a cheirar mal, privado dos deliciosos banhos perfumados com que tinha sido acolhido. E, para dizer a verdade, até fominha passou. É que o dono, não tendo aguentado aquele ambiente, desapareceu, deixando-o naquele abandono
Mas, confiante na amizade que sempre vira retribuída, nunca desesperou de voltar a viver tempos melhores, apoiando-se no seu optimismo, apesar das saudades lancinantes que sentia.
Bem podemos imaginar o seu grande contentamento, quando viu o dono entrar no quintal, soltá-lo da corrente, pegar-lhe afectuosamente ao colo e dizer-lhe na sua voz amiga:
- Ó Pantufa, meu amor de cãozinho, nem imaginas como tenho sofrido com a tua falta, como, nestes dias negros, me tenho sentido só! E tu aqui, tão desprezado, sem poderes sequer mostrar como és engraçado e afectivo.
O cãozinho não parava quieto, estendendo as patas, remexendo-se no seu colo, lambendo-lhe as mãos e até a cara, o que era a expressão máxima do seu afecto. E, mal podendo acreditar no que ouvia, arrebitou as orelhas e prestou toda a sua atenção:
- Mas esqueçamos o passado. Agora vais comigo e nunca mais te deixo sozinho. E nunca mais ficarei sozinho. Vamos para uma nova casa, pequena mas confortável, onde tu terás os teus banhinhos semanais e a comida a horas certas. E tudo será bom como dantes. Será mais difícil irmos brincar para a praia, mas faremos belos passeios ao jardim que fica perto da minha casa e poderás correr atrás das borboletas e dos pardais, na eterna ilusão de te escapares como eles.
Agora, mais crescido e com mais experiência da vida, mas sempre divertido e afectuoso, o Pantufa já não suja a casa e só outro dia, num acesso de infantilidade, se pôs a roer o papel higiénico, desdobrando o rolo como se quisesse enfeitar a sala com enormes serpentinas brancas.

Lisboa, 9-03-08

Beijinhos da vossa Avó


publicado por clay às 00:46 | link do post | comentar | favorito
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