Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 19.04.08
Meus queridos netos:

 

                   Ao fim de sete longos anos em Angola, em que o Vôvô não teve férias e eu, sem a companhia dele, me limitava, durante as minhas, a ir, com as crianças, aproveitar o sol e o remanso da Ilha, ali ao pé da porta, decidimos vir, finalmente, gozar a nossa primeira licença graciosa a que, de quatro em quatro anos, os funcionários públicos tinham direito

                        Já tínhamos prescindido duma, porque o dinheiro não abundava, naqueles primeiros tempos, além de que, com dois filhos muito pequenos, não era fácil o afastamento de casa por alguns meses e muito menos estabelecer uma logística adequada.

                     Agora, com o Zé António quase a fazer cinco anos e o Quim catorze meses mais novo mas já muito desembaraçado, não havia tempo a perder, até porque as saudades, da Família, dos amigos e da própria terra, já nos impediam de apreciar como devíamos e costumávamos, os encantos de Luanda.

                     Embarcámos no Infante D. Henrique, um paquete enorme e de tal modo confortável que as férias não podiam deixar de contar com aqueles nove dias passados a bordo. De facto, sobretudo a primeira classe, em que viajámos, tinha óptimas instalações, um restaurante de grande categoria, uma piscina exterior e várias salas destinadas a jogos, cinema e festas temáticas, geralmente de cariz regional, certamente para nos dar o prazer antecipado do reencontro com os lugares de onde tínhamos partido.

                     

                             Paquete "Infante D. Henrique"

                    As crianças até aos doze anos não podiam comer com os adultos. Assim, logo que me levantava, preparava os pequenos e, ao fim de dois dias, graças ao bom sentido de orientação que o Zé sempre revelou, lá iam os dois pelos labirínticos corredores e escadas até à sua sala de pequeno almoço, onde lhes não faltavam os regalos que poderiam vencer a pior falta de apetite, o que não era o seu caso. Por isso, e depois de me certificar, pelo telefone, de que os «meninos Relvas» já tinham chegado, arranjávamo-nos nós e íamos, sossegadamente, os dois, tomar a nossa primeira refeição do dia, enquanto os rapazinhos ficavam num jardim infantil em ponto pequeno, entregues aos cuidados de duas monitoras que com eles brincavam em total segurança. Por vezes realizavam gincanas e outras competições e então lá iam todos, especialmente os pais, assistir às habilidades dos seus meninos. O Quim era muito destro e desembaraçado e, se acabava em primeiro lugar, o que acontecia frequentemente, lá vinha ele acolher-se no meu regaço, onde não lhe faltavam mimos e incentivos. Se não tinham essas actividades, íamos buscá-los para estarem connosco à beira da piscina e aí se entretinham com brinquedos e desenhos até ás onze horas, altura do almoço. Eu acompanhava-os sempre, porque eles gostavam da minha presença e assim podia ir vendo como eles se alimentavam e comportavam. O mesmo sucedia ao jantar, depois duma tarde em que dormiam uma boa soneca, lanchavam, voltavam aos jogos connosco ou com os amigos. E, depois…caminha. Era nesse período que nós íamos ao cinema, jogar bingo, dar uns passos de dança, sempre com sortidas do Vôvô para ver se tudo estava bem, apesar de haver um vigilante que tínhamos encarregado de passar frequentemente à porta do nosso beliche e o sono dos dois ser sempre calmo e ininterrupto.

                  Entretanto chegou o dia 13 de Julho e os cinco anos do Zezinho. Houve festa rija, com um magnífico lanche oferecido pela Companhia de Navegação, a que não faltou um artístico bolo alusivo ao aniversário, a presença de todas as crianças que vinham a bordo e a de muitos adultos que quiseram partilhar aqueles momentos, felizes para todos.

                 Foram uns dias bem passados, na companhia de amigos de Luanda que viajavam connosco e novos conhecimentos travados com passageiros que já vinham de Moçambique, embora alguns, mais elitistas ou «peneirentos» se fechassem no seu círculo de conhecidos.

                 Também chegou a nossa vez de sermos convidados para a mesa do comandante, o que era uma distinção que todos apreciavam, tanto mais que se tratava duma pessoa muito distinta e afável.

                Ao chegarmos à Ilha da Madeira, quase todos desembarcámos e fomos dar uma volta pelos sítios mais pitorescos: a Senhora do Monte, no alto duma serra que furava as massas de nevoeiro, espessa mas branquinhas, o Cabo Girão, Santana da Serra com as suas casas típicas e outros pontos de interesse que mais tarde havíamos de revisitar com mais demora. O Funchal, um autêntico presépio de brancas moradias, separadas por luxuriante vegetação, no alcantilado debruçado sobre as águas azuis do Atlântico, encheu os nossos olhos de beleza e também de espanto pelos progressos evidentes que ali se tinham verificado. De facto, à ida em 1959, no navio Quanza, apesar da inegável força da paisagem, notámos que a maioria da população andava descalça, que não havia ainda um cais de atracagem e chocou-nos ver uma chusma de rapazes a atirar-se afoitamente ao mar para resgatar moedas que muitos passageiros se entretinham a atirar-lhes.

              Mas foi na nossa segunda visita turística, já em 2004, que ficámos deveras surpreendidos com o desenvolvimento alcançado pela região, devido não só ao estatuto autonómico que tinha adquirido, como pelas ajudas monetárias recebidas da União Europeia, baseada na sua classificação de região periférica. Agora, além da distinção e fama adquirida pelo «velho» Reids, onde, entre outras pessoas célebres, se hospedou por mais do que uma vez Winston Churchill, da grandiosidade e valor artístico do edifício do Hotel–Casino, segundo projecto do grande arquitecto brasileiro Óscar Niemeyer, muitos e luxuosos hotéis tinham transformado a Madeira num dos mais procurados destinos turísticos, não só graças ao seu aeroporto, completamente reestruturado depois do terrível acidente, o único da história da nossa aviação civil, em que se tinham perdido dezenas de vidas, como ainda pelo magnífico porto, onde chegámos a contar seis grandes paquetes ali ancorados ao mesmo tempo. Mas a verdadeira estupefacção foi a espantosa rede viária, em que os túneis se seguiam uns aos outros, galgando vales e encurtando distâncias, assim como os teleféricos que passaram a oferecer aos visitantes vistas ainda mais deslumbrantes daquela paisagem inigualável.

                                     

                                            Uma panorâmica do "Funchal" de hoje

            Da Madeira a Lisboa, com tempo favorável, por três dias continuou a magnífica viagem. E nem assentámos arraiais: depressa partimos para Portalegre, já no nosso Faísca que tinha viajado connosco, pois em Portalegre nos esperavam, ansiosos, os vossos Bisavós paternos. Quando vieram acolher-nos à porta, o Quim foi logo aconchegar-se no colo da Vóvó Inês, o que a deixou muito comovida.

           Dessas nossas longas e bem preenchidas férias, me ocuparei em próxima carta.

                   Beijinhos, muitos e afectuosos.

 

 

 

publicado por clay às 18:26 | link do post | favorito

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