Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 27.05.08

 

Meus queridos netos:

 

               As minhas cartas sobre a guerra foram, como não podiam deixar de ser, muito carregadas de tristeza e emoção. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas sobretudo em 1975, a inquietação e o medo começaram a infiltrar-se na maioria dos portugueses que tinham ido para Angola na esperança de melhorar a vida , mas passado algum tempo, cativados pela beleza da paisagem, pela vastidão dos horizontes, pelas potencialidades daquela terra de riquezas inumeráveis e pelo convívio com as gentes, nativas e chegadas de novo, não podiam imaginar-se a viver noutro lugar, nem sequer na Metrópole.


             A cidade começou, pouco a pouco, a trocar os sons quotidianos de urbe trabalhadora e próspera, pelo ruído das marteladas com que se faziam, à pressa, grandes caixotes mais ou menos toscos onde eram acondicionados alguns haveres, geralmente de valor mais sentimental do que material. Alguns desses bens tinham sido, por vezes recentemente, fruto de heranças familiares e levados para Angola, onde se julgava estar a amadurecer o futuro. Lembro-me duns amigos nossos que renovaram a sua sala de jantar com móveis antigos e muito valiosos e duma colega do Liceu que, ao regressar de férias, trouxera para Luanda um serviço de jantar da Companhia das Índias que, embora cuidadosamente embalado, se perdeu em grande parte, na viagem Luanda–Lisboa.

 

             Também sucedeu com um outro nosso amigo, médico muito conceituado, que tinha construído uma moradia junto ao muceque Prenda, e, não podendo suportar os insultos e ameaças, deixou a sua vivenda abandonada e se mudou, «com armas e bagagens», para um apartamento em zona mais central, onde mandou refazer a sua biblioteca, delicadamente trabalhada em panga-panga, no propósito de nunca abandonar aquela sua terra de adopção, à qual tinha dado os melhores anos da sua vida e o seu muito saber de médico radiologista. Infelizmente, passado pouco tempo, viu a sua nova casa invadida por militares duma das facções, que, a propósito dum tiro disparado não sabiam por quem, vasculharam a casa toda exibindo as suas armas de fogo e, tendo encontrado uma pistola de colecção, queriam, à viva força, prender o filho mais velho, então com menos de vinte anos, acusando-o de ter sido ele o autor do disparo. Mas era tão evidente a disfuncionalidade da pistola, que lá os deixaram em paz, mas muito traumatizados e na firme disposição de abandonarem Angola o mais depressa possível.


            As notícias alarmantes espalhavam-se a um ritmo dia a dia mais acelerado: foi o noivo duma colega do Liceu que foi assassinado por ter recusado, num posto de controle, pagar um mata-bicho que todos os dias ali lhe era exigido; foi um dos meus Tios que desapareceu, sem deixar rasto, quando regressava, de jeep, de Salazar (hoje Dalatando) à sua casa em Luanda, deixando a família mergulhada no drama de não conseguir saber, por mais diligências que fizesse, qual terá sido o seu destino e o quanto poderá ter sofrido; foi uma menina de dezoito anos, jovem universitária que, no quarto andar do seu prédio, vizinho da nossa casa, foi atingida, quando se encontrava à mesa com os seus pais, por uma bala perdida que lhe foi direita ao coração. E muitos, muitos outros casos de que nos falavam a toda a hora.


          Claro que, neste ambiente de terror, também nós começámos a pensar deixar Angola e regressar à nossa verdadeira terra. A primeira coisa que fiz foi enviar para casa dum Tio, em Lisboa, uma arca com objectos de valor mais sentimental do que material: as peças mais bonitas do meu enxoval, o meu vestido de noiva, uma fotografia em rica moldura de prata do nosso casamento, um álbum em que eu tinha conseguido reunir com persistência, fotografias dos meus pais, irmãos, tios, de filhos das minhas amigas que assim mos davam a conhecer e também minhas, desde criança. Era um álbum único, pois mais ninguém na família se tinha dado a esse trabalho. O meu tio era solteiro e tinha, à data, uma empregada que roubou todo esse espólio. A polícia conseguiu recuperar o enxoval, mas não o vestido de noiva, a foto do casamento e respectiva moldura e os álbuns de fotografias, ou seja as coisas a que eu estava afectivamente ligada


              Começou aí a perda dos nossos haveres e o desinteresse em pormos a salvo outros bens que possuíamos. Aconteceu, porém que um primo do Vôvô era funcionário da Companhia Colonial de Navegação, em Lisboa, e se nos ofereceu para arranjar lugar, num navio, destinado ao que desejássemos salvar da hecatombe. Com uma perspectiva muito diferente da nossa quanto ao que se estava a passar em Angola e em Portugal após o 25 de Abril, estava extremamente pessimista quanto ao futuro dos portugueses – e, portanto, o nosso – não compreendendo a nossa apatia ou o que ele considerava como tal.


             Depois de muita hesitação, resolvemos, aproveitar esta oportunidade que nos era oferecida de bandeja e enviámos para Lisboa o nosso carro Audi 100, (o primeiro carro novo que tivemos na nossa vida) bem como uma mobília de sala de jantar e outra de quarto, em panga-panga, comprada expressamente, porque não queríamos desfazer-nos das nossas coisas, e pouco mais. É que, apesar de tudo, não nos queríamos render à evidência de que teríamos de abandonar tudo quanto possuíamos: uma casa toda mobilada, algum dinheiro no banco e uma moradia que tínhamos mandado construir num terreno por nós comprado em Viana, a uns vinte quilómetros de Luanda, ou seja o fruto do trabalho de muitos anos ao serviço de Angola e, diziam-nos, de Portugal.


           Para levantar e guardar em segurança os haveres que tínhamos despachado por barco, deslocou-se o Vôvô a Lisboa, onde assistiu às manifestações do 1º de Maio de 1975 e à agitação dessa época conturbada, dita revolucionária. Levou o nosso carro para Aveiro, onde ficou à guarda do casal Matos, nosso vizinho no Miramar e as mobílias foram guardadas num armazém, arranjado pelo Sr. Lopes, pai da nossa amiga Milú.


Do que se passou em Luanda, durante a curta ausência do Vôvô, falarei na próxima carta.


Até lá, beijinhos e muito amor da Vóvó.

 



publicado por clay às 02:04 | link do post | favorito

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