Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 03.06.08

 

 

Meus queridos netos:


Alguns anos depois do nosso regresso a Luanda, fui oficialmente destacada para ir assistir à inauguração duma Escola Primária na Província de Cabinda, muito perto da fronteira com o Congo ex-belga, integrada no programa «Levar a Escola à Sanzala», ou seja, tornar o ensino, especialmente a aprendizagem da língua portuguesa, acessível a todas as populações, inclusive as mais isoladas, programa que deu bons frutos, como se vê pela correcção com que os angolanos falam hoje o português, escolhida pelos seus governantes como língua oficial.

 

A comitiva, encabeçada pelo Secretário Provincial da Educação, Dr. Pinheiro da Silva, cérebro e impulsionador desta iniciativa, era composta por várias entidades importantes do sector.

 

Deu-se a coincidência de, nesses dias, o Vôvô também ter de se deslocar, ao serviço das Obras Públicas, à cidade de Cabinda para proceder a uma inspecção e, assim, aproveitámos viajar juntos, o que, em tais circunstâncias nunca tinha acontecido. Os vossos Pais, Zé e Quim, ficaram em Luanda aos cuidados da imprescindível Luísa.

 

Fomos todos no mesmo avião e ficámos instalados num bom Hotel, creio que o único da cidade. Depois dum curto descanso, partimos, uns de automóvel outros de jeep, para a dita sanzala, situada em plena floresta virgem do Maiombe, a muitos quilómetros. Era uma grande caravana, pois nela tinha sido integrada uma representação das forças vivas de Cabinda, devidamente escoltada por militares armados do exército português, já que a região não era nada segura.

 

Para abrilhantar a inauguração, o chefe da aldeia, senhor Tati, que o era também dum grupo de paramilitares africanos, maioritariamente composto por dissidentes de um dos Movimentos de Libertação, os chamados TE’s (Tropas Especiais), tinha preparada uma grande recepção, ou antes uma verdadeira festa popular, que durou todo o dia e noite e se prolongou para o dia seguinte. A enorme casa de adobe ficava situada numa elevação de terreno, donde se contemplava um rio, atravessado por uma ponte. Esta, de noite, ficava toda iluminada com luzeiros feitos de cascas de coco cheias de petróleo bruto e com um pavio, que davam à paisagem, engolida pelas trevas nocturnas, um aspecto verdadeiramente fantasmagórico. Sublinhavam-no os ritmos e os cantos dos batuques, a que o povo, acrescido de parentes e amigos vindos do outro lado da fronteira, se entregava freneticamente. Deviam estar ali centenas de pessoas.

 

Havia muita comida: desde os aperitivos e whiskies, às reses assadas inteiras, nos espetos, e, sempre que havia lugar na mesa, travessas enormes de frangos no churrasco. Não faltavam, claro, muitos e variados doces e frutas tropicais.

 

Durante a noite, organizaram um baile muito animado, especialmente pelos militares, que, distraídos da missão que lhes fora atribuída de nos protegerem, não paravam de dançar com as mulheres da terra e de beber e comer. E a protecção que lhes fora ordenado fazer às entidades presentes, entre as quais o Comandante daquela Região Militar? Pura e simplesmente, ou melhor, inacreditavelmente, e para ficarem de mãos livres para a festa, ensarilharam armas ou encostaram-nas a uma parede no exterior e….fé em Deus! De facto, Deus estava do nosso lado, pois não se verificou o mínimo distúrbio, numa zona em que, pouco tempo antes, vários militares portugueses tinham sido apanhados numa emboscada, enquanto se refrescavam numa pequena lagoa, com grande número de baixas.

 

        Mas, afinal, estávamos bem guardados, pois, a dada altura, o Vôvô necessitou de se ausentar dali por breves momentos e, mal deu alguns passos fora do recinto, saltaram-lhe à frente dois TE’s de armas em punho que, depois de o reconhecerem, respeitosamente o deixaram passar.

 

Quando o senhor Tati deu por terminada a festa, já quase de madrugada, levaram-nos para os vários alojamentos dispersos pela zona que cuidadosamente haviam sido preparados para cada grupo de convidados, A mim e ao Vôvô, depois de termos atravessado o rio pela tal ponte iluminada, coube-nos uma casa em plena floresta e ali passámos a noite, em claro, extenuados, a ouvir os ruídos sem fim, próprios da selva e da respectiva bicharada!

 

No dia seguinte foram-nos buscar de regresso ao local da festa, porque esta iria continuar até ao meio da tarde…Só que as nossas perigosas aventuras, do Vôvô e minhas, não iam ficar por aqui. Nós tínhamos ido, como disse, integrados numa coluna militar mas num Volkswagen “carocha” das Obras Públicas, conduzido por um motorista cabinda daqueles serviços. Chegada a hora do regresso, começou a organizar-se, de novo, a coluna; mas o senhor Tati, querendo ser amável para mim, que era a única senhora ida de Luanda, pediu-me que esperasse uns minutos pois queria oferecer-me uma prenda que já pertencera aos seus antepassados. Perante tal gentileza, que remédio senão esperar! Passados muitos minutos, chegou ele com uma pequena cesta de palhinha trançada (com outra mais pequena lá dentro, (estilo matriosca), realmente antiga e muito perfeita, que ainda hoje conservo.

Mas o meu contentamento foi de pouca dura, porque, com aquela demora, a caravana tinha partido sem se dar conta de que nós ficávamos para trás. Entretanto, tínhamos dado boleia a um professor daquela Escola que precisava de se deslocar a Cabinda. Um homem novo e robusto que, depois, muito nos havia de valer. E lá seguimos os quatro através da floresta, sem qualquer protecção. A tarde já ia adiantada e, não tardaria muito, naquela densa floresta só haveria negrume. Foi então que o nosso motorista, um profissional competente e muito desembaraçado, nos disse conhecer um atalho muito usado pelos madeireiros que nos permitiria ir encontrar, mais à frente, a coluna militar. Aceitámos a sugestão mas, naquela estrada de terra batida e muito gasta pela circulação dos carros pesados dos madeireiros, vencida uma lomba, entrámos num leito de areia, onde o nosso carro ficou assustadoramente enterrado. O Vôvô e os nossos dois acompanhantes trataram logo de ir cortar bissapas (ramos com muitas folhas), enquanto eu me entrincheirava no carro, com as portas bem fechadas, para fugir à fúria de milhares de mosquitos, atraídos pelas luzes dos faróis. O motorista carregava insistentemente no acelerador do carro e o Vôvô e o tal professor matulão bem empurravam a viatura, mas nada. Parecia que esta se enterrava cada vez mais.

 

Iríamos nós ficar ali toda a noite naquele desvio pouco frequentado, no meio de uma das florestas mais densas de África, muito perto da fronteira da actual República Democrática do Congo, possivelmente expostos a mil e um perigos?

 

A dada altura, pareceu ao Vôvô que o motorista, mais habituado a lidar com grandes carros pesados, não estava à altura do pequeno carocha e tomou o lugar dele. Agora, o Vôvô ao volante, carregando furiosamente no acelerador, os dois fortes angolanos atrás a empurrar, as bissapas postas por baixo das rodas a ajudar e, diga-se a verdade, também a prática que o Vôvô tinha de, durante anos e anos, guiar o nosso carocha, lá conseguiram desenterrar o Volkswagen e retomar, com compreensível alívio de todos, a nossa viagem de regresso. Escusado será dizer que da coluna militar não vimos nem sequer o rasto e, quando chegámos à cidade de Cabinda, sãos e salvos mas extenuados e cobertos de pó, alguém, muito admirado com a nossa aventura, da qual ninguém se tinha dado conta, nos informou:

 

- Mas olhem que agora têm de se ir arranjar para o banquete, pois já está quase na hora.

 

Com mais vontade de, tomado um duche refrescante, nos deitarmos a descansar, lá tivemos de comparecer na festa, pensando, como num pesadelo, que iríamos assistir à continuação da comezaina, agora com lagosta e outras requintadas iguarias, que não conseguiam exercer sobre nós qualquer espécie de tentação.

 

. Foi ou não foi uma arriscada aventura que, graças a Deus, correu bem?

Beijinhos da Vóvó, com a promessa de contar novas “façanhas”..

 

publicado por clay às 09:08 | link do post | comentar | favorito
Margarida Duarte a 29 de Agosto de 2008 às 20:43
Esse texto apresenta uma incorrecção que considero grave pois atribui ao dr. Pinheiro da Silva a concepção do projecto "Levar a escola à sanzala". O responsável por esse projecto foi o dr. Amadeu Castilho Soares, secretário provincial antes do dr. Pinheiro da Silva.
Teresa Caetanito a 30 de Agosto de 2008 às 21:58
Permita-me corrigir o erro de atribuição da concepção do plano "Levar a Escola à Sanzala" ao Dr. Pinheiro da Silva, como já foi dito no commet anterior. Para mehor esclarecimento, poderá consultar o site www.memoria-africa.ua.pt, onde poderá encontrar digitalizados os livros escolares adoptados e a explicação desse mesmo plano.

Cumprimentos.
clay a 4 de Setembro de 2008 às 15:07
Só posso regozijar-me por saber que foi o Dr. Castilho Soares, antigo colega de meu marido na Universidade, quem teve a feliz ideia do programa “Levar a Escola à Sanzala., facto que desconhecia. Mas não há dúvida de que quem o tornou uma realidade, que quem teve a difícil tarefa de reunir meios, esforços e vontades para o instalar no vasto território, o acompanhou pessoalmente no terreno, foi o Dr. Pinheiro da Silva, seu sucessor no Governo. Parabéns então aos dois.
Obrigada pela informação. Cumprimentos.
Margarida Duarte a 14 de Setembro de 2008 às 20:31
O Dr. Castilho Soares não teve apenas a ideia. Além da concepçãooriginal e inovadora, teve de conqustar aderentes e afastar opositores, pessoais e institucionais (infelizmente a Igreja Católica , até então responsável pelo ensino dos "indígenas",foi uma opositora). Teve de montar e organizar a estrutura técnica e institucional de suporte e implementação do plano, tudo aquilo que permitiu que este fosse uma realidade. Ao Dr. Pinheiro da Silva coube o mérito de se ter apercebido das virtudes do plano, já em execução, e de lhe ter dado continuidade, o que não se verificara com o seu antecessor.
Margarida Duarte2
Joaquim Brito a 17 de Setembro de 2012 às 13:42
Querida Vovó... ou Querida Professora:

Para quem cumpriu serv. militar em Cabinda é sempre bom ler histórias do Enclave, todavia, penso que para a mesma tocar mais aos "corações" lhe faltam alguns dados, nomeadamente datas (é tão bom podermos dizer: olha foi no meu tempo) como o nome dos locais onde passou (porque também sabe bem dizer: olha, também estive aqui).
Já agora estive aquartelado em Bata Sano (Buco-Zau) e no Dinge, entre 16/4/69 até 1/7/71. A minha companhia tem um um grupo no Facebook, com dezenas de fotografias e histórias. É só entrar no Face e ir a: Grupo da cart 2516.
Com os melhores cumprimentos. Joaquim Brito
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