Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 09.06.08

 Meus queridos netos:

 

Tal como vos prometi numa das minhas últimas cartas, (ver: Angola, a debandada) venho hoje contar-vos o que se passou na curta ausência do Vôvô, quando se deslocou a Lisboa, em Abril de 1975, para levantar e pôr a bom recato o nosso Audi e algumas mobílias, sem as quais podíamos continuar a viver em Luanda, como era nossa intenção.


A nossa casa, situada no Bairro Alvalade por ser um bairro agradável e sossegado, tinha agora, instaladas na nossa própria rua, uma no princípio e outra no fim, duas delegações dos movimentos independentistas: a da U.N.I.T.A e, não muito longe, a do M.P.L.A. Com relativa frequência, começaram a trocar tiros que passavam mesmo pela nossa casa, tendo nós ido encontrar uma das balas no quarto do Quim. Que sorte estar o quarto vazio nessa altura!

 

Escusado será dizer que ficámos cheios de medo e passámos a refugiar-nos, com a Luísa, nas escadas interiores, que levavam ao 1º andar, sobretudo mal a noite caía, porque o rés-do-chão da nossa vivenda era quase todo envidraçado, sem a mínima protecção. Eu lá me dirigia todas as manhãs para o Liceu, que não tardou a fechar, bem como as restantes escolas. Mas, enquanto tal não aconteceu, muitas vezes mal metia o carro no jardim, corria para casa, com as balas a assobiarem sobre a minha cabeça. Depois, os vossos Pais deixaram de ter aulas e resolvemos mandar o Zé para Portalegre, para casa dos Bisavós, a fim de frequentar o último período do 5º ano no Liceu daquela cidade, o que fez com muito bom aproveitamento, para grande espanto dos seus colegas – e não sei se também de algum dos professores – convencidos de que no Ultramar tudo era facilitado e de segunda categoria.


O Quim, como sempre tinha estado adiantado relativamente ao seu desenvolvimento intelectual e psicológico, ficou connosco e, embora dadas as circunstâncias, tenha passado para o 5º ano como todos os seus colegas, teve de o repetir, em Lisboa, com grande proveito pois, a partir daí foi sempre muito bom aluno, o que lhe permitiu uma nota excelente para entrar no Instituto Superior Técnico, benesse que ele, infelizmente, não soube depois aproveitar. Mas isso já são outros contos e, por enquanto, estamos os três em Luanda, como dizia, pendentes das notícias do Vôvô, que não eram muito tranquilizantes pois, em Lisboa, vivia-se um conturbado processo revolucionário, com grandes manifestações sobretudo no 1º de Maio, que o Vôvô acompanhou pela televisão, em casa dos pais da Milú, onde fora almoçar e de que nos deu conta.


Ora, no meio de todas estas preocupações, houve um dia em que não resisti aos pedidos insistentes dos vossos Pais, ansiosos por irem ver o filme Lawrence da Arábia, um épico de grande e merecida fama, que passava, à noite, no Cinema Império, relativamente afastado da nossa casa. O grande problema é que havia recolher obrigatório a partir das onze da noite e nada nos garantia que, ao regressarmos a casa, não fôssemos surpreendidos por alguma patrulha ou um bandido qualquer. Íamos a contar com uma boleia de algum dos nossos amigos ou conhecidos, tão numerosos, mas, com grande surpresa nossa, mal o cinema acabou, todos os espectadores se esfumaram sem nós termos tempo de pedir a ajuda com que tínhamos contado. Em face deste contratempo, não tivemos outro remédio senão pôr pés ao caminho e lá viemos os três, por ruas desertas, com o recolher obrigatório já em vigor, cosidos com as paredes, sobretudo ao passarmos diante dum quartel que ficava no caminho para a nossa casa, mas, protegidos pelo nosso Anjo da Guarda, pelo que tudo não passou dum grande susto.


Quando o Vôvô regressou de Lisboa, vinha muito pessimista e, influenciado por um dos seus melhores amigos, decidido a seguir o seu exemplo e requerer a reforma, tanto mais que já tinha quase todo o tempo de serviço exigido. E como, com isto tudo, o meu sistema nervoso estava muito abalado, começou a convencer-me de que também para mim seria esse o melhor caminho a seguir, embora eu tivesse vaga de professora efectiva no Liceu Maria Amália e menos tempo de serviço do que ele, o que se traduziria numa pensão de reforma mais pequena.

 

Não digo que me tenha arrependido, não só porque a vida nas escolas não escapava à turbulência cá de fora, mas também porque passei a ter, em Lisboa, onde nos fixámos, muitos explicandos em casa, mantendo assim o contacto com alunos e arredondando, como dizem os franceses, o meu rendimento mensal. Além disso, essa situação permitiu-me acompanhar os estudos dos vossos Pais até à sua entrada no Ensino Superior e à nossa ida para os Açores, de que já vos falei longamente e que viria a trazer alguns benefícios às nossas reformas.


Por hoje é tudo.

 

Beijinhos muito cheios de ternura da Vóvó.

publicado por clay às 14:33 | link do post | comentar | favorito
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Junho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
21
22
23
25
26
27
28
29
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO