Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 20.06.08

Meus queridos netos:

 

 

Como vos disse numa das minhas primeiras cartas, não iria obedecer, nestas memórias, à ordem por que se deram os acontecimentos, pois que, ao escrever, muitos factos e sentimentos afluem ao meu pensamento e, ás vezes, sou inconscientemente impelida a privilegiar uns em detrimento de outros que só mais tarde se impõem à minha narrativa.


Foi o que se passou com o Curso de Férias em Tours e agora, de novo, com o que frequentei em La Rochelle, entre Nantes e Rochefort, já muito depois de ter regressado definitivamente de Angola.


Foi em 1983. Eu trabalhava na Secretaria Regional de Educação dos Açores, no apoio aos professores de Francês, em todo o arquipélago. e como me fora atribuída uma bolsa de estudo de mil e novecentos francos pelo Ministério da Educação, o meu Director prontificou-se a pagar-me as despesas da viagem, o que tudo somado, ainda não cobria os gastos, apesar do meu jeito para as poupanças. Nesse tempo, e penso que agora de novo, as ajudas oficiais eram muito limitadas, mas sempre eram um grande incentivo. E a generalidade das pessoas estava habituada a poupar em tudo quanto não fosse essencial.


Parti de Lisboa no Sud-Express, numa carruagem «couchette» que era uma cabine com beliches, partilhada com mais seis colegas, destinadas ao mesmo Curso. Fiz uma paragem em Bayonne, em casa da Milú, que me proporcionou o habitual acolhimento fraterno e um passeio a Biarritz, onde já tínhamos estado doutras vezes. De Bayonne a La Rochelle, com transbordo em Bordéus, viajei sozinha mas com outros passageiros, franceses, que me permitiram desenferrujar a língua.


Na estação de La Rochelle, encontrei-me com mais colegas e foi um estudante austríaco que nos transportou, no seu carro, até à Residência Universitária, instalada num Instituto de Formação que se encontrava disponível durante o tempo de férias. Era um edifício enorme e incaracterístico. Nós, as vinte portuguesas, ficámos no 5º andar, cada uma em seu quarto e com uma pequena cozinha para quem quisesse confeccionar as suas refeições. No andar debaixo, instalou-se um também numeroso grupo de professoras checoslovacas, que tinham aulas a horas diferentes e que não podiam conviver connosco, porque estavam sempre vigiadas por uma do grupo delas, cuja identificação desconheciam e que tinha como missão denunciar qualquer transgressão à rígida disciplina, imposta pelo Partido Comunista.


O que mais lamentámos foi a distância que separava a Residência do Instituto onde tínhamos as aulas, tanto mais que os autocarros que nos permitiam a deslocação só funcionavam até às dezanove horas, serviço complementado, até à meia noite, por pequenos barcos, os «bus de la mer» mas que nos deixavam a uma distância considerável de casa. Não resisto a contar já a aventura em que me vi metida, uma noite em que, depois de ter estado muito entretida a conversar com um grupo de colegas numa esplanada do Vieux Port, não dei pela partida das minhas companheiras e tive de ir, sozinha, no último barco. Deixou-me ao pé duma marina mas, para chegar a casa, ainda fui forçada a atravessar um infindável campo de girassóis, a que se seguia uma boa extensão de floresta. Tranquilizou-me ter encontrado, à entrada desta, um casal de franceses que por ali se passeavam e me acompanharam até à Residência.


A compensar tudo o que fosse menos agradável, estava a bonita cidade, com o Vieux Port flanqueado por duas torres-fortaleza e edifícios notáveis como o Hôtel de Ville, o moderno Museu do Novo Mundo, a Igreja de S. Salvador e a Promenade du Mail, muito bem cuidada e atravessada por um pequeno rio, onde pacíficos patos se banhavam e, sobretudo, com arredores fabulosos, para passeios inesquecíveis.


Logo ao lado, ficavam várias ilhas, que foram o objecto da nossa primeira excursão: um mini-cruzeiro inter-ilhas numa vedeta posta à nossa disposição e que nos levou à Ilha d’Aix, onde viveu Napoleão, a Oléron, chamada a Ilha Luminosa e que é a maior ilha francesa depois da Córsega. Com praias admiráveis, resguardadas por dunas e florestas, tem edifícios históricos como o Castelo, cujas muralhas foram erguidas sob a égide do grande arquitecto Vauban e prosperou com a cultura das ostras, que constituem a sua principal fonte de riqueza. Visitámos , a branca, pela cor das suas imensas praias, do seu casario caiado, de ruas ladeadas por contínuos canteiros de flores, onde eu aprendi o nome francês para malvaísco, as «roses tremières», que se perfilavam por todo o lado.
A Ilha de Ré passou a ser, digamos, o nosso passeio dominical, pois era servida por barcos que a ligavam ao Vieux Port, a menos de quatro quilómetros.


Outra Ilha, maior e igualmente cheia de encantos era a Ilha de Saint Martin, onde um dia, graças a uma boleia que me foi oferecida por uma mãe e uma filha, idas, de carro, de La Rochelle, fui com elas, pela primeira e única vez, a um campo de nudistas, tendo ficado, é claro, no grupo dos vestidos. Demos, depois, um passeio por toda a Ilha, onde ainda havia bunkers, desactivados, do passado recente da Segunda Guerra Mundial e lanchámos uns deliciosos crepes com gelado, num convívio que não se ficou por ali, pois ainda fui, algumas vezes, lanchar a casa delas, na pitoresca Rue de Sur-les-Murs e trocámos correspondência até o tempo e a distância ter arrefecido o entusiasmo. Delas guardo, no entanto, uma recordação muito viva e afectuosa.


Pensei que caberiam, numa só carta, as recordações de La Rochelle, mas, como vos não quero saturar com estas minhas memórias, voltarei ao mesmo assunto na que se lhe irá seguir.

 

Beijinhos da Vóvó.

 



publicado por clay às 00:56 | link do post | comentar | favorito
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