Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 01.07.08


Meus queridos netos:

 

Numa carta anterior contei, com muitos pormenores, as primeiras férias que passámos em Portugal, quando trabalhávamos em Angola


O tempo foi passando, floriram na altura própria as acácias rubras, uma vez, outras vezes, ficaram para trás os anos do Colégio da D. Júlia, as aulas de natação no Clube Nuno Álvares e, apesar da guerra, que ainda não chegara a Luanda, a nossa vida decorria tranquila e feliz. Como me parece que já vos disse, o Vôvô desistiu de ter férias porque, depois de ter feito a experiência de ir, à tarde, connosco às praias da Ilha, viu-se a braços com tanto trabalho acumulado que não podia deixar de ir de manhã e à tarde às Obras Públicas, onde aliás ninguém, seguindo o exemplo do Director, deixava de cumprir escrupulosamente os horários, sem férias nem folgas. Ora, tanto eu como os vossos Pais tínhamos as férias escolares na época do maior calor, pelo que, muitas vezes com a Luísa e também com a Tininha e o Toni íamos no meu carro até à Ilha, onde nos refrescávamos nas ondas quase sempre calmas do Oceano Atlântico e descansávamos dum ano de trabalho.

 

Todos juntos nos divertíamos e comíamos, esfomeados, o rico lanche que sempre levávamos connosco. Ao Domingo, depois da Missa, o Vôvô aproveitava então, não só a praia, como a companhia dos nossos amigos e respectivos filhos. Cada um levava o seu almoço que era partilhado por todos e, esse grande grupo, já conhecido de toda a gente e muito bem disposto, por ali se ficava em amena cavaqueira até o sol, muito vermelho, ficar bem perto da linha do horizonte, A noite caía abruptamente, por volta das seis da tarde e era o regresso a casa. Alguns casais iam juntos ao cinema, mas nós gostávamos mais de sair em família. Durante esse tempo fizemos alguns passeios de que já vos falei, festejámos os anos e a Primeira Comunhão dos nossos filhos, sempre com muita gente e alegria.


E, quase sem darmos por isso, chegou a altura de gozarmos a segunda licença graciosa. Bem precisados estávamos dum descanso, mas a verdade é que «o homem põe e Deus dispõe»: Ora, nesse ano de 1969, abriu, a nível nacional, o estágio para professoras efectivas com trezentas e sessenta vagas, mas só na Metrópole. Ponderados os prós e os contras e apesar do grande estado de cansaço em que eu me encontrava, decidimos, o Vôvô e eu, que o melhor a fazer era concorrer, o que, uma vez admitida, em segundo lugar, implicou a minha deslocação para Lisboa, onde se me juntariam, no fim do ano lectivo, o Vôvô, O Zé e o Quim, para então darmos início às tão ambicionadas férias. Isto porque, apesar das diligências do Secretário Provincial da Educação, não havia qualquer certeza de abrirem estágios em Luanda.


Nas vésperas da minha partida, fizemos um animado safari à Reserva da Quissama, de que falarei na próxima carta. Mas foi com grande tristeza que me separei da família. Instalei-me, como era nosso costume, na Casa de Santa Zita, à Estrela, não só porque já conhecia o ambiente e as pessoas (até lá tinha uma colega que fez dali o seu lar) mas também porque ficava perto do Liceu Pedro Nunes, onde eu iria estagiar. Ora, o primeiro choque resultou logo do facto de eu me ver, sozinha, num sítio onde tinha passado dias felizes, quando gozámos a primeira licença graciosa. Tudo me fazia lembrar o Marido e Filhos, tudo me parecia desprovido de qualquer sentido.


No Liceu, contei com a simpatia do Reitor, que me tinha conhecido em Luanda e do metodólogo de Francês, casado com uma colega, ambos muito simpáticos. As aulas iam decorrendo dentro da normalidade, até que um dia o metodólogo de Português me encarregou de «ir meter na ordem» uma turma do então sétimo ano, que um colega não fora capaz de interessar, deixando-a cair numa anarquia completa. A primeira aula foi dada pelo metodólogo, comigo a assistir e a verificar que, de facto, me não esperava uma tarefa fácil, pois se tratava de alunos viajados, com um nível cultural fora do comum e muito exigentes.

 

Não foi, contudo, muito difícil de os fazer aceitar as minhas regras e tudo parecia correr normalmente. Chegou, entretanto, o feriado de Todos-os-Santos e eu resolvi ir a Portalegre, acompanhar os Bisavós na visita ao Cemitério. Foi uma infeliz ideia, pois comecei a ser sacudida por crises de choro incontroláveis, tremuras e não conseguia dormir. Deixando, preocupados e tristes, os Bisavós que não sabiam o que fazer, regressei a Lisboa e apelei a pessoas amigas que me encaminharam para a Clínica de Belas, onde fiz uma cura de sono (com medicamentos), durante doze dias. Tive a grande sorte de encontrar um psiquiatra inexcedivelmente simpático e dedicado, que me rodeou de carinho, me fez aceitar que a minha prioridade era a família e se prontificou a medicar-me por correspondência, se resolvesse voltar a Luanda.


No Liceu Pedro Nunes, todos se preocuparam com o meu estado, tendo Reitor proposto anular-me as faltas em excesso, embora se confessasse admirado como é que eu tinha deixado não só a família como a consideração de que vira eu desfrutar em Luanda, da parte de colegas, alunos e pessoas amigas.


Entretanto tinha sido autorizado o funcionamento do estágio em Luanda e imediatamente pedi a transferência, ficando perante o dilema de desistir e perder a oportunidade por que tanto ansiara ao longo da minha carreira ou iniciar um estágio em tratamento dum esgotamento nervoso. Não foi uma decisão fácil, que o médico disse que tinha de ser eu a tomar, para me não sentir frustrada. Das primeiras vezes que voltei ao meu Liceu, em Luanda, só o pude fazer acompanhada. No primeiro dia de aulas, tive uma crise de vómitos, mas lá fui. E a verdade é que, mal entrei na sala do 4º A, perante aquelas meninas tão atentas e preocupadas comigo, todas as angústias me passaram. Depois, com as cartas do meu médico de Lisboa, a compreensão das metodólogas, a infatigável ajuda do Vôvô, que me dactilografava todos os trabalhos e me levava, ao fim da tarde, a espairecer, olhando o pôr do sol na ponta da Ilha e a calma vida familiar, consegui o meu objectivo: acabei o estágio em primeiro lugar entre oito candidatas, o que me valeu ter sido logo escolhida para metodóloga de Francês, pois cedi o Português à minha amiga Ana Maria, que se sentia mais à vontade a orientar essa disciplina.

 

Do meu esgotamento ficaram, por longos anos, dificuldades de sono, o que não me impediu de orientar os meus estagiários até 1975 (ano em que regressámos definitivamente a Portugal, como já disse em carta anterior) e de integrar, por duas vezes, o júri nacional que se deslocou a Moçambique, da segunda vez na companhia do Vôvô.

 

Em Moçambique, fomos recebidos pelo Tio Ernestino, que tinha passado uma vida ao serviço dos Caminhos-de-ferro daquela colónia e pela sua mulher, duas almas generosas que, sem filhos, ajudaram muita gente, servindo de pais a quem os não tinha. Viviam numa quinta que tinham adquirido na Matola, próxima da capital, naquele tempo Lourenço Marques, hoje Maputo, e que o Tio teve de deixar, já viúvo, por causa da descolonização.

 

Apareceu-nos um dia em nossa casa, em Lisboa, só com a roupa que trazia vestida e uma mala quase vazia. Depois de ter conseguido, com muito esforço e obstinação, sempre acompanhado pelo Vôvô, a reforma que lhe era devida por mais anos de trabalho do que os estipulados pela lei, em má hora, quis voltar e voltou à sua casa na Matola, onde acabou por ser bárbaramente agredido por assaltantes, que o atiraram para uma cama de Hospital, donde só saiu para regressar a Lisboa, numa cadeira de rodas. Voltou a ficar algum tempo em nossa casa, acarinhado por todos nós e, quando fomos trabalhar para os Açores, teve de ir para um Lar de idosos, onde apesar de explorado, dizia sentir-se feliz e aí morreu, com mais de noventa anos. Mas antes, ainda conseguiu ser operado no Hospital de Santa Maria de Lisboa, onde lhe extraíram um ferro que uma "cirurgiã" soviética, ao serviço do regime que se instalou em Moçambique, lhe colocara no interior de um joelho, o que tolhia qualquer movimento da perna. E assim, para sua grande alegria, deixou a cadeira de rodas. Conta o Vôvô, que sempre o acompanhou, que viu uma vez um professor-médico do Hospital de Santa Maria expor na vidraça de uma janela da enfermaria onde o Tio estava acamado, perante os estudantes medicina estupefactos, as radiografias do joelho com o ferro, dizendo: “isto que vocês aqui vêem é como se tivessem atravessado este ferro na dobradiça de uma porta!.... Pobre velho!”


Esta carta vai muito longa e bastante triste mas, para vos compensar, prometo contar-vos, na próxima, o tal safari de que falei mais atrás.


Até lá, muitos beijinhos carinhosos da Vóvó Clementina
 


 

publicado por clay às 00:37 | link do post | comentar | favorito
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