Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 10.09.08

 Queridos netinhos:


No final da carta anterior, a narração da minha aventura no Rio Zaire ficou num ponto em que, em plena escuridão, algures no rio, o nosso barquito, encalhado num banco de areia e no meio de sons estranhos, sofreu um “encontrão” não se sabe de quem, mas que me deixou bastante assustado.


Lembrei-me de repente que trazia na minha mochila um potente foco eléctrico de três pilhas. Nervoso, apontei-o na direcção do leito do rio e nem queria acreditar no que estava a ver: dezenas de luzinhas brilhantes à tona da água, umas perto, outras mais distantes. Depois apontei para os lados da margem, o espectáculo era semelhante. Como que impelidos por uma mola, os barulhos cessavam quando acendia o foco para logo se ouvirem, ainda mais fortes e furiosos, mal o apagava. E voltei a sentir, e desta vez não havia engano, uma forte pancada no casco do gasolina, como se tivéssemos sido abalroados por qualquer coisa.

 

Fiz todos os possíveis para manter a calma. Mas não, não podia continuar naquela situação sem saber o que estava a acontecer e que seres misteriosos eram aqueles que nos rodeavam no escuro.


Varri o barco com a luz forte da lanterna de pilhas. Com certa dificuldade acabei por distinguir os vultos dos três tripulantes, imóveis e totalmente envoltos em mantas, confundidos com as sacas de fuba. Um deles era, sem dúvida, o Camba que dormia profundamente, como os outros dois. Como não acudisse aos meus chamamentos, desloquei-me até ele com todo o cuidado, sobre carga tão irregular, puxei-lhe a manta por onde calculei ser a cabeça dele e apontei-lhe em plena cara o forte foco gritando energicamente: “Camba, acorda!”. O homem, o tranquilo Camba, sentou-se e mostrou-me, desta vez, uma cara apavorada ao mesmo tempo que lançava um grito de terror, como se tivesse visto o mafarrico. Disse-lhe, “desculpa ó Camba, sou eu que precisa falar imediatamente com você”. “Mam’é, é o Sr. Comandante, desculpa senhor” replicou já mais sossegado. Neste momento senti uma certa vergonha por estar a ser tratado por comandante, mas não lhe disse nada.


Então tivemos a explicação do mistério: Tratava-se de uma manada inofensiva de hipopótamos, mergulhando e resfolegando nas águas. As luzinhas eram os seus olhos reflectindo no escuro o forte foco da minha lanterna! Quanto às luzinhas da margem, o caso era mais sério. Tratava-se do mesmo fenómeno, mas com jacarés, abundantes naquela zona. Eram os tais “olhares vítrios” de que Ferreira da Costa falava no seu livro! A pancada que sofremos no nosso barco seria possivelmente obra de um jacaré, mas não havia problema porque não têm força suficiente para virar um barco ou saltar para dentro dele. Isto dizia o Camba, claro! Para ele não havia problemas. Mas nunca fiando!


Esclarecido o fenómeno, Camba voltou a enrolar-se na manta e estendeu-se sobre a sacaria de fuba como se de um confortável colchão de penas se tratasse. Quanto aos outros seus dois companheiros, creio que nem sequer chegaram a sair do seu pesado sono. A mim e ao pobre do Neves, agora um pouco menos assustado, não nos restava outra solução, pois o cansaço apertava.

 

Desfrutei durante alguns instantes o magnífico espectáculo que o céu me oferecia. Miríades de estrelas, umas de maneira mais intensa do que outras, cintilavam sem parar. Lá estava o Cruzeiro do Sul que não é visível no hemisfério norte e que está representado nas bandeiras de alguns países, entre os quais o Brasil e a Austrália. De facto o espectáculo era magnífico e então…adormeci.


Acordo com a boca muito seca e com um raio de sol a bater-me na cara. Com uma sede imensa, mas a água do meu cantil há muito se tinha esgotado. Os três angolanos da tripulação tinham-se precavido na véspera, quando a maré ia vazia e a água ainda era doce, enchendo uma cabaça com água do rio que eles bebiam sem qualquer receio. Nem eu, nem o Neves, nos atrevemos a tal, preferindo sofrer, na esperança de chegarmos ao destino e lá haver água de maior confiança.


Agora o que me interessava era a luz do dia e luz é vida! É o dia seguinte! É ainda cedo porque, naquelas paragens, os dias, como as noites, surgem rapidamente. Dou conta do lugar onde estava porque, quase à minha frente, vejo o Camba de pé, já cachimbando, fazer-me uma vénia sorridente mas respeitosa. Ergo-me a custo pois o colchão onde estivera estendido cerca de quatro horas era dos durões!


O homem da máquina esforça-se para pôr motor a trabalhar. O barco começara a dar sinais de balanço. O Neves continua a dormir. A corrente do rio, ao largo, invertera de sentido. Eureka! a maré está a subir!. O outro homem da tripulação puxa para cima a corda que sustém a pequena âncora. Tudo indica que vamos sair dali. O Neves acorda e grita de alegria “o barco já balança, o barco balança”.


Mas o motorista não consegue acordar o motor. Pela primeira vez vejo o Camba interessar-se com o que se passa debaixo do toldo da máquina. Estão a falar em Kimbundo. Não entendo o que dizem. O barco agora flutua mesmo e começa a movimentar-se ligeiramente para montante, certamente empurrado pela corrente, agora a nosso favor. Os mosquitos desapareceram. Atiro para o lado a manta que ainda me cobria os ombros porque está a ficar calor. Os minutos parecem agora mais longos; quem me dera voltar a ouvir já o antipático ruído do motor! Mas nada!


Camba, “o que se passa?”. “Nada senhor, só que motor não pega, bateria está a ficar fraca e agora vamos abrir depósito para ver se é falta de gasolina, mas tampão não quer abrir”.


Ora esta! Será possível que a minha aventura tenha de continuar no próximo capítulo, como agora se diz nas telenovelas? Nisto, o pobre do Neves, que até aí não fazia mais nada do que lamuriar-se, arranca veloz aos tropeções sobre a carga e de dedo em riste, atira-se sobre a máquina. Ainda pensei que, em fúria desesperada, ele iria atirar-se às águas infestadas de jacarés... Mas não, inesperadamente, o motor dá sinal de si e, depois de largar dois fortes estampidos, começa finalmente a roncar. O "acto" do bom do Neves é festejado, como se tivesse sido ele o grande salvador.  A alegria e o alívio são gerais. Agora toca a seguir para a Pedra do Feitiço sem mais demoras. E lá seguimos rio acima, com a subida da maré a ajudar, sem mais contratempos.


Passadas umas três horas lá estava a Pedra, como abreviadamente os locais se lhe referem. Um morro rochoso debruçado sobre o rio e nele, lá no alto, um mastro onde tremulava a bandeira das quinas e a casa do Chefe do Posto onde eu haveria de residir cerca de dois anos. Em baixo, em terreno raso, quase despido de vegetação, cinco casas de telhado de zinco, uma delas certamente a loja do Sr. Francisco. Em redor dezenas de cubatas e nada mais.


Ali estava ela, a Pedra, à minha frente. O que iria ser a minha vida ali, só, isolado de tudo. Nem linha telefónica havia. Electricidade e água canalizada, nem pensar. O que iria ali fazer? Qual a minha missão? Seria dura certamente: uma vida inumana, me parece hoje que a idade já me pesa, mas que naquele tempo me parecia absolutamente natural, tão natural que até me dava gozo!!!

 

Beijinhos do Vôvô. Talvez um dia me disponha a contar-vos o que foi a minha permanência naquele rochedo, que Ferreira da Costa tão mal tratou. A título de curiosidade, por agora, apenas direi que a minha estreia foi assistir, como autoridade, logo no dia seguinte, a uma autópsia de uma vítima de acidente de caça... Mas tinha eu apenas 28 anos de idade e está tudo dito!


Mais beijinhos do Vôvô.

                                     

    A Bandeira das quinas  hasteada permanentemente num dos altos da Pedra do Feitiço. Sempre que um barco estrangeiro a saudava com
três sinais sonoros, logo um cipaio corria, a corresponder ao cumprimento, baixando-a e içando-a também três vezes.
 
                
  Do alto da Pedra, da casa do Chefe do Posto,vista sobre o Rio Zaire
 
                                         F I M

 

publicado por clay às 16:24 | link do post | comentar | favorito
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