Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 08.10.08

 

 

Já lá vão alguns anos, quando fazíamos viagens de carro em Portugal ou até ao sul de Espanha, não era preciso muito tempo para que tivéssemos de fazer uma paragem a fim de limparmos o pára-brisas, todo sujo pelos insectos que nele se esmagavam, desde as borboletas, aos mosquitos e até a um ou outro gafanhoto, incautamente iludidos pela transparência do vidro. Se levávamos farnel e resolvíamos comê-lo resguardados por alguma árvore, à beira da estrada, não nos faltava música de fundo: o chilrear dos pássaros, o zangarreio das cigarras, o som dos chocalhos do rebanho que por ali pastara e agora se resguardava do calor, apertando-se na sombra mais próxima.
Aproveitávamos para, embalados por essa música da Natureza, descansarmos um pouco, antes de seguirmos viagem. Durante alguns anos, com os filhos adolescentes, fizemos campismo na Praia Verde, perto de Monte Gordo, ainda sem urbanizações e onde os pinheiros mansos que davam o nome ao local nos acolhiam com as suas sombras. No pinhal havia muitos animais, especialmente camaleões, que faziam as delícias da petizada, sempre ansiosa de promover algum deles a animalzinho de companhia que, coitado, pouco tempo resistia fora do seu habitat.
Ora, numa tarde de muito calor, resolvi sentar-me à sombra dum desses copados pinheiros a ler um emocionante romance e foi então que, talvez a dormitar, eu ouvi a acalorada discussão que se segue, entre um camaleão e um louva-a-deus:

 

- Olhe, compadre, por mais voltas que dê à cabeça, não consigo entender o sentido da sua vida, sempre a mudar de cor, preguiçando entre essas carumas. Em meu fraco entender, é uma desilusão saber que alguém não é capaz de assumir a sua verdadeira e única personalidade. Para falar com franqueza, parece-me que se trata, de pura e condenável hipocrisia. Olhe para mim, para o meu esqueleto que mais parece uma máquina propulsora. A cada salto que dou, lá liberto a Natureza de um ou mais indesejáveis insectos.
- Como está enganada, minha amiga, se é que lhe posso chamar assim, uma vez que tem tão fraca opinião a meu respeito. O que chama hipocrisia – seguindo, aliás, uma ideia falsa mas comummente aceite que confere aos humanos esta designação pejorativa – é, nem mais nem menos, do que um dom especial que nos foi dado, bem como a alguns outros animais como por exemplo o polvo, para podermos escapar ao ataque dos nossos inimigos que, nós, detectamos à distância e com toda a facilidade, pois fomos dotados com olhos móveis e multidireccionais.
- Multi…quê? Nunca ouvi falar de tal coisa!
- Olhos que podem ver em todas as direcções e que nos são de grande utilidade para, como a comadre, limparmos o ambiente de muitos pequenos seres indesejáveis. Afinal de contas, somos melhores do que qualquer insecticida, sem os perigos que estes comportam. Mas, diga-me uma coisa: porque lhe chamam louva-a-deus? Não acha que esse nome tão bonito, lhe acarreta uma imensa responsabilidade?
- Penso que sim. Mas sempre lhe digo que não é, para mim, nenhum sacrifício estar sempre de mãos postas, já que, nas minhas andanças quotidianas vejo constantes maravilhas que só Deus poderia ter criado: nem é preciso sair da beira do pequeno lago onde moro para me encantar com os peixinhos que ali se movimentam livremente, com as borboletas que chegam a vir pousar nas minhas asas tomando-as por pequenos arbustos ou com as flores, sedutoras e sempre variadas, segundo as estações do ano. Tudo maravilhoso, mas olhe que, às vezes, chego a sentir remorsos por precisar de destruir pequenos seres que, se calhar, também têm uma finalidade na vida…
- Pois têm. Todos temos. Mas, frequentemente, esse destino que nos parece cruel é o mais útil e o mais valioso. Repare nos ratinhos da Índia. Já viu como são fofinhos e inofensivos, a ponto de, muitas crianças os elegerem como seus companheiros preferidos? E, no entanto, milhões deles passam por indizíveis sofrimentos nos laboratórios que os utilizam como cobaias a fim de descobrirem tratamentos e curas para tantos males que afligem a Humanidade!
- Aí está uma coisa que eu ignorava, mas olhe que nem por isso me sinto menos inquieta. É um destino de verdadeiros heróis, de que jamais se darão conta, pois não há condecorações para eles nem, que eu saiba, ocorreu à ideia de alguém instituir o «Dia da Cobaia». Por todos esses seres sacrificados ao bem dos outros e pelos mistérios insondáveis da Criação é que as minhas mãos estão postas noite e dia, excepto quando necessito de me equilibrar. E é por isso que me chamam Louva-a-Deus.

 

 

Clementina Relvas
Lisboa, 28-06-08 

    

        Um Louva-a-Deus                  Um camaleão

 

publicado por clay às 10:19 | link do post | comentar | favorito
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