Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 13.03.09

 

Meus queridos netos:

 

Embora já tivesse dado por acabadas as cartas sobre o que foi a nossa vida em Luanda, ocorreram-me agora à memória alguns episódios dessa época:


Já vivíamos em Luanda há cerca de catorze anos e há bastantes numa moradia moderna, de dois pisos, com um quintal nas traseiras onde o Quim cuidava de gatos, peixes, porquinhos-da-índia e até dum cágado que lhe deram mas desapareceu ao fim de pouco tempo. A casa ficava situada no bairro de Alvalade, um dos mais modernos e selectos de cidade e que ficava muito próxima duma das maiores sanzalas de Luanda. A sanzala era um aglomerado de barracas, onde também viviam os vários empregados que então fomos tendo, a não ser que não tivessem família e preferissem ficar num bom quarto independente que tínhamos no quintal.

 

Vários empregados? De facto, é preciso explicar: quando contratávamos um empregado, para ajudar a Luísa na cozinha e para tratar do quintal e do jardim, era ela quem o ensinava, lhe dava as ordens e, em alguns casos, lhes dava lições de religião. Quando as relações entre ambos se tornavam mais familiares e eles se inteiravam de que o Vôvô tinha um cargo importante nas Obras Públicas, lá vinha a Luísa pedir, para eles, um emprego no Estado. Quase todos transitaram, deste modo, da nossa casa para um lugar de contínuo, com sacrifício para a Luísa pois, como eu lhe dizia, tinha de começar de novo a ensinar o trabalho destinado ao recém-vindo.


As coisas estavam de tal modo pacíficas que começaram a aparecer moradias ricas junto ao musseque e, mesmo atrás da nossa casa, havia um conjunto de casas pobres, algumas de angolanos pobres e era aí que os nossos filhos iam procurar os companheiros para as suas brincadeiras, sobretudo para jogar à bola ou fazer e utilizar carrinhos de rolamentos.


As coisas começaram, porém, a piorar quando os guerrilheiros dos três partidos – MPL.A, UNITA e FNLA.- foram autorizados a criar sedes pela cidade, depois de, em Portugal, ter ocorrido o 25 de Abril. Na nossa rua, instalaram-se duas facções rivais, a curta distância uma da outra. E, quando cruzavam fogo, o que era frequente, as balas passavam pela nossa casa, tendo até uma delas caído no quarto do Quim, que durante muito tempo e até já em Lisboa, a trazia ao pescoço como amuleto.


Entretanto, o Vôvô teve de vir a Lisboa, tratar de assuntos pessoais, ligados ao nosso regresso à Metrópole. Nós os três, com a Luísa e o empregado, refugiávamo-nos na escada interior, que levava ao 1º andar e ali ficávamos enquanto o tiroteio não acabasse. E razão tínhamos de ter medo, porque em breve aconteceu um drama num prédio de vários andares, situado na embocadura da nossa rua: uma bala perdida foi atingir, num quarto andar, uma menina de dezoito anos, estudante de medicina, quando estava sentada à mesa com os seus pais. Teve morte imediata. Também eu, algumas vezes, atravessei o jardim até casa, agachada, ouvindo as balas a zumbir sobre a minha cabeça. Mas, graças a Deus, nenhuma delas me atingiu.


Também Deus esteve connosco numa aventura em que, com o Vôvô em Lisboa, nos vimos os três enredados e que podia ter tido trágicas consequências. Mas vou contá-la na próxima carta, pois esta já vai longa.


Muitos beijinhos dos Vóvós.

publicado por clay às 12:24 | link do post | comentar | favorito
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