Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 20.03.09

 

Meus queridos netos:


Em Luanda, antes da guerra só havia dois cinemas: o mais antigo, o Tropical, que tinha mesas de madeira e cadeiras a condizer, à volta das quais os espectadores se sentavam para ver o filme – e que belíssimos filmes franceses eu lá vi! – enquanto, cheios de calor, íamos bebericando refrigerantes ou cerveja, bem frescos; mais recente, o Restauração era um imponente edifício moderno, destinado exclusivamente ao cinema. E tal era o seu tamanho e a sua comodidade que, depois da Independência, ali foi instalado o Parlamento da nova nação.


Durante a guerra, e com o afluxo de novos e mais exigentes públicos, os cinemas foram proliferando, construídos agora ao ar livre, rodeados por bem cuidados jardins. O primeiro nesse estilo e, para mim, o mais bonito, era o cinema Miramar, com uma vista deslumbrante sobre a Baía de Luanda, principalmente à noite, com a magia de tantas luzes acesas.


Mas o filme da nossa aventura, passava no cinema Império, relativamente perto da nossa casa do  Bairro Alvalade, já em plena época conturbada, logo no início da descolonização. Era o «Lawrence da Arábia», um filme cheio de acção e emoção, protagonizado por um actor de primeira linha: Peter O’Toole. Como era muito longo, começava ainda de dia mas terminava cerca da meia-noite. Decidimos ir a pé, eu e os vossos pais, confiados em que, no regresso, alguém, entre tantos conhecidos e amigos, nos daria uma boleia para casa, uma vez que o Vôvô se tinha ausentado temporariamente para Lisboa pelas razões já apontadas em carta anterior.


Acontecera, porém, que tinha sido decretado o recolher obrigatório às vinte e três horas, o que significava que, depois dessa hora, ninguém podia circular nas ruas da cidade.


Lá fomos, vimos o filme de que gostámos muito, mas como acabou tão tarde, a multidão que o tinha ido ver sumiu-se como num golpe de mágica e, de repente, ali nos encontrámos os três, sozinhos, sem vivalma a quem pedir a imaginada boleia.


Não tivemos outro remédio senão regressar a casa a pé, cheios de medo, calcorreando as ruas completamente desertas e sabendo que tínhamos de passar, inevitavelmente, em frente dum Quartel, com as suas sentinelas. Já me via presa com os meus dois filhos, o que não era pura fantasia pois, por muito menos, já muitas pessoas tinham sido dadas como desaparecidas para sempre. Eu tinha um triste exemplo na família: um dos meus Tios tinha ficado pelo caminho, quando regressava da cidade de Salazar (Dalatando), e nunca mais foi encontrado, nem o jeep em que viajava, apesar das inúmeras buscas e outras diligências, feitas pela sua mulher e filhos.


Nós nem pelas sentinelas do Quartel fomos interpelados e regressámos a casa sãos e salvos e dando graças a Deus por nos termos saído bem de tão perigosa aventura. Não nos livrámos foi do «sermão» do Vôvô, que soube da nossa imprevidência quando regressou de Lisboa: que nos mostrámos totalmente imprevidentes, principalmente eu, com a idade e a experiência da vida que já tinha. Bem podia ele estar descansado, longe de nós, confiado na nossa inteligência e bom senso. E assim por diante…


Mas o mal já estava feito e só nos restava não esquecer que devemos ser sempre prudentes, e muito mais em circunstâncias anormais.


É e lição que vos deixa, com muitos beijinhos, a Vóvó

 

 

 

 

 

publicado por clay às 11:29 | link do post | favorito

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