Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 21.05.07

Meus queridos netos:

 

            Quando, já com muitos anos de vida, resolvi recordar para vós, ao correr da pena, episódios da minha infância, tão diferente da vossa, nunca imaginei que os “olhos do meu coração”, no dizer de S. Paulo, fossem capazes de ver tão longe, de desencantar pormenores por mim julgados completamente esquecidos. Nunca pensei,  também, que desse meu coração pudessem brotar, inesgotáveis, torrentes de emoção ao simples recordar dum cheiro a pão acabado de cozer, do perfume dos lilazes da Páscoa, da imagem dum campo roxo de violetas na margem de um ribeiro, do eco das vozes dos que amei e já partiram para sempre.

 

Enganei-me redondamente. A cada carta que vos escrevo, sinto um aperto no peito, um aperto que não magoa mas me dá momentos de felicidade e paz para partilhar convosco.

 

Não quero dizer como muitos outros: “No meu tempo…” como se este não fosse também o meu tempo e como se cada tempo não tivesse sempre coisas positivas e negativas, que a nós cabe aproveitar ou rejeitar, procurando sempre tirar de tudo o maior proveito para a nossa felicidade.

 

Sim, meus queridos netos: como haveis de aprender ao longo da vida, a felicidade não é uma estrada plana, calcetada de blocos de oiro e tendo, no seu extremo, um arco-íris de sonhos.

 

Tem bocados assim: brilhantes, gloriosos, onde nos sentimos reis ou rainhas, príncipes ou princesas, destinados por uma fada madrinha a alcançarmos, sem custo, o referido arco-íris.

 

Mas logo se apresenta uma curva inesperada que nos esconde o que fica para além dela , um charco onde os nossos pés patinam e se sujam ou um qualquer outro obstáculo que nos julgamos incapazes de transpor.

 

E, tal como o caminho do arco-íris, nunca se esvai por completo, continuando a estimular o nosso coração, também a via difícil e acidentada mais cedo ou mais tarde ficará para trás, deixando-nos mais fortes e com esperança de sermos o atleta no lugar cimeiro do pódio.

 

Por isso vos escrevo estas cartas: nelas encontrareis bocados de arco-íris – o que eu consegui fazer de bom na minha vida – e também muitos revezes e dificuldades que me atrasaram a caminhada ou fizeram mudar de rumo sem nunca perder a esperança de chegar ao arco-íris. Aqui vereis situações de penúria que só o serão para vós, nascidos neste tempo de consumismo e outras, de tão deliciosa paz e tranquilidade, como agora só raramente se conseguem viver.

Podereis confrontar o que era, como era e por que era com a realidade que hoje vivemos. Vós e eu, porque como já disse, este vosso tempo também é o meu tempo.

 

Não vos quero deixar tristes com o meu passado, em que muitas vezes fui feliz, nem apreensivos com o vosso futuro, que já não será o meu, mas, acredito piamente tenha também, no fim do caminho um arco-íris para o qual ireis caminhar, apesar das curvas e outros obstáculos.

 

Tereis é de ter sempre presente que nada se consegue sem trabalho, sem esforço e que o optimismo é meio caminho andado.

 

publicado por clay às 17:58 | link do post | favorito

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