Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 14.07.09

 

Meus queridos netos:


Soa, já lá tão longe, na minha memória, o toque diário das Ave-Marias, mas ainda o escuto e, com ele, correm em tropel ao meu encontro, doces recordações inesquecíveis, a minha infância que passou para sempre, simples, sem grandes acontecimentos, mas também sem sobressaltos de maior.


Quando voltávamos da escola, era o tempo de brincar. Juntavam-se, no largo junto à nossa casa, todos os miúdos da aldeia que, apesar de ter apenas umas dezenas de famílias, era ainda um alfobre de crianças, pobres, mas descuidadas e felizes. Jogávamos às escondidas, ao apanha, ao “bom barqueiro” e, sobretudo os rapazes é claro, com a bola de trapos que a minha Mãe lhes fazia, com o seu jeito e muita dedicação. Cantávamos, ríamos, gritávamos sem qualquer razão, numa algazarra que não irritava os mais velhos, alguns já muito idosos, que, não raramente, se quedavam à nossa beira, rindo connosco e certamente relembrando tempos em que tinham sido tão felizes como nós.


O sobressalto chegava quando o sino da nossa igreja fazia ecoar, por vales e serras, o toque das Ave-Marias. Era, então, a debandada imediata, pois todos tínhamos ordens rigorosas de deixar as brincadeiras e ninguém ousava desobedecer. Em nossa casa, era a altura das orações da noite, com todos de pé junto à lareira – o meu Pai sentado, não só devido à sua idade, pois já tinha casado tarde, mas também porque, ao fim dum constante labutar no campo, precisava de, como ele dizia, descansar as pernas. À minha Mãe cabia invocar os santos da sua devoção, especialmente Nossa Senhora Auxiliadora, colocar nas mãos de Deus todas as necessidades, nossas e alheias, e a nós acompanhá-la com os Pai-Nossos e Ave- Marias, numa atitude de grande respeito, quebrado, embora raramente, por um safanão ou pisadela clandestinos e a consequente advertência da minha Mãe. Terminadas as orações, pedíamos e recebíamos a bênção dos nossos Pais, já a pensar na ceia que nos esperava.


No mês de Maio, a minha maior alegria era ajudar a enfeitar a Igreja: lírios, açucenas, coroas de noiva e goivos de várias cores, exalavam um perfume inebriante que eu pensava capazes de chegar ao Céu, como o incenso queimado nas grandes solenidades. E como os Anjos e os Santos haviam de gostar!


A Igreja era enfeitada mais do que uma vez por semana, já que, no mês de Maio, a nossa vizinha D. Irene rezava diariamente o terço com um grupo considerável de pessoas, entre elas muitas crianças. Eu gostava de tudo: dos altares enfeitados, do silêncio que “enchia” a Igreja, das orações participadas pela assembleia e das imagens dos Santos. Em primeiro lugar, Nossa Senhora Auxiliadora que era, com S. Sebastião, a patrona da freguesia. S.Sebastião fazia-me muita pena, com o seu corpo cravado de setas e a escorrer sangue que, apesar de eu saber não ser real, me confrangia o coração.


É verdade que, nesse tempo, e apesar duma rápida e superficial catequese –ou por isso mesmo-, eu não entendia quem era Deus e não era com Ele, escondido no Sacrário, que eu mantinha os diálogos mais vivos. Com S. José, sim. Gostava de o ver apoiado numa açucena como se dum báculo se tratasse e do carinho com que pegava ao colo o Menino Jesus, que me diziam ser seu filho adoptivo. Eu não sabia muito bem o que significava, já que esse laço familiar não existia na nossa aldeia: éramos todos filhos a sério dos nossos pais e das nossas mães, que nos amavam, se ocupavam de nós e, também, de vez em quando, nos «chegavam a roupa ao pêlo».


Como vêem pelo que fica escrito, o tempo encarrega-se de filtrar e, também, de dourar as nossas recordações, fazendo da nossa infância uma época de maravilhas, que não trocaríamos por nada neste mundo.


Dela vos falarei ainda muitas vezes, pois trata-se duma espécie de caverna de Ali-Bábá, onde se guardam muitos tesouros, à nossa disposição desde que saibamos dizer, convictamente, o mágico “Abre-te Sésamo”.

 

Até Breve. Beijinhos da Vóvó!


                       

                             A Igreja da minha infância

                                              Pereiro - Tabuaço

publicado por clay às 01:05 | link do post | comentar | favorito
paisagemviva2 a 22 de Julho de 2009 às 16:40
Tempos de ouro e em que as brincadeiras eram saudáveis e os prazeres sinceros, felizes e simples.
Lindos monumentos adornavam os acontecimentos da época. O consumismo não era uma doença e as crianças viviam a sua infância, algumas com dificuldade mas ainda assim com maior felicidade por sentirem prazer nas coisas simples da vida.
Eu recordo-me que tinha duas bonecas, adorava uma de caracóis e inventava roupas para ela, brincavamos à apanhada e às escondidas e divertiamos-nos imenso ;)
Bjs
Paisagemviva
clay a 23 de Julho de 2009 às 11:36
Para: Paisagemviva2:
Muito obrigada pela atenção que tem dispensado ao meu blogue e também pelas palavras de simpatia que me tem dirigido. De facto, tenho tido uma vida muito cheia, de momentos felizes e outros menos bons e são essas eecordações que tenho tentado transmitir aos meus netos. Com alguns poemas e histórias pelo meio. Beijinhos
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