Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 11.08.09

 
Meus queridos netos:


Esta semana da Cristininha, passada na nossa companhia e na do seu Pai, puxou-lhe pela costela de «escritora» e assim, além destas três mensagens que resolvi incluir no meu blogue, ainda escreveu um longo texto, misto de afectos e de «crítica literária», sobre aquilo que conhece dos meus escritos e da minha paixão pela leitura. Além dos três grandes livros que «devorou», entre os quais o Mar Morto, de Jorge Amado.


Diz ela, nesse texto, que fui eu que lhe incuti a sua paixão pela leitura e pela escrita, pois, a partir dos três anos e meio e depois de ter adormecido, noite após noite, a ouvir e, muitas vezes repetidamente, histórias de encantar, que iam da Gata Borralheira e afins ao belíssimo livro de Miguel de Sousa Tavares, O Segredo do Rio, púnhamo-nos as duas a escrever histórias a meias: ela inventava os títulos, por exemplo Márika, a Flor Vermelha, e começava; depois íamo-nos revezando, suprindo eu as suas faltas de imaginação. Ela ilustrava-as com uns desenhos incipientes mas engraçados depois de eu as ter acabado de escrever. Essas pequenas e ingénuas histórias são, por mim, religiosamente guardadas para lhas dar mais tarde.


Mas toda esta actividade não impediu que ela dedicasse ao seu Pai esta saudosa e comovente mensagem:

 

O meu pai:
O meu pai chama-se Joaquim Manuel de Sousa Relvas, mas eu chamo-o só papi, porque “pai`s” há muitos mas “papis” há só um, o MEU! O meu pai era mais uma ama-seca. Quando eu era mais pequena, era ele que tratava de mim: mudava-me as fraldas, dava-me de comer (uns biberões enormes, que tinham imensas vitaminas e cálcio) e eu, como a-d-o-r-a-v-a essas coisas boas, comia a paparoca toda e ainda chorava por mais. Mas não se tratava só de fazer comida, mas sim também de “eliminar” os restos que a comida deixava mais tarde para trás, ou seja mudar as fraldas. Pois, isso não era tarefa fácil e de certeza que não era a que o papi mais apreciava.


Mesmo sendo eu uma rapariga muito complicada, o meu pai nunca desistiu, pois gostava/gosta muito de mim!


O meu pai e eu corremos muitas aventuras juntos Quando ele morava em Santarém, eu ia lá passar o fim-de-semana e tínhamos aventuras fantásticas! Quando, à noite, o céu estava cheio de estrelas cintilantes, nós deitávamo-nos lá fora, no jardim, e ficávamos, por vezes, horas a fio a contemplar aquele deslumbrante espectáculo. Frequentemente também, íamos acampar a um sítio chamado “Olhos de Água”. Era um verdadeiro santuário da Natureza, onde nasce o rio Alviela. Nesse rio, nós íamos tomar banhos que duravam sempre muito tempo, pois eu nunca estava preparada para ir embora. Era sempre. “ Ó papi… Só mais 5 minutos!” E o papi sendo um pai esplêndido, concordava. Embora esses 5 minutos passassem a ser umas horas.  Uma vez estávamos nós a fazer a nossa comida para o jantar, veio de lá um cão e roubou-nos os bifes! Nós, estando cheios de fome, só podemos comer salada. Mas esta situação deu-nos uma boa risada, vendo tudo pelo lado positivo, claro.


O meu pai também tinha uma mota. Era uma mota vermelha reluzente, embora já não muito nova. Andávamos nela pelo campo. O papi ao volante e eu atrás agarrada a ele. Claro que não íamos a grande velocidade, mas mesmo assim era divertido.


O papi a certa altura mudou-se para o Montijo e comprou uma casa grande, com três quartos. E eu tinha direito a ter um quarto inteiro só para mim! Como tínhamos uma cozinha bem ampla e toda equipada, fazíamos grandes jantares, almoços e pequenos-almoços. Na sala havia uma lareira para que no inverno a casa não estivesse fria. Mas nós não usávamos a lareira só para aquecer a casa, mas também para fazer umas castanhas bem quentinhas. Depois sentávamo-nos no sofá a comer castanhas e a ver um filme ou então, simplesmente, falávamos.


A certa altura o papi decidiu comprar um cãozinho, chamado Pantufa. Era um cão muito querido (e bem gorducho). Ainda era um bebé, um bebé muito animado e queria sempre muita brincadeira. A certa altura a Pantufinha (assim também o chamávamos) comeu uma larva venenosa num jardim e infelizmente faleceu. Claro que o papi ficou muito abalado com tal situação e, então, decidiu comprar um outro companheiro: um Yorkshire. Divertimo-nos muito com ele. Era um cão muito activo e inteligente.


Como o meu pai não se fartava de ter aventuras, resolveu comprar uma caravana para assim podermos fazer belos passeios. No último Verão, o meu pai decidiu fazer-me uma surpresa, levando a sua caravana até ao Algarve para podermos ir acampar. Foi uma verdadeira aventura, pois só chegámos à noite ao parque de campismo. Foi muito difícil prender a roda da caravana ao chão para não escorregar e ainda por cima o parque estava cheio e mal havia espaço para nós, pelo que tivemos de ficar num sítio muito inclinado. Mas mesmo com algumas dificuldades conseguimos passar uns dias muito agradáveis.


Claro que tivemos ainda imensas aventuras, sobre as quais poderia escrever mais umas quantas páginas, mas isso fica para mais tarde.
Agora, como o meu pai vive em Lisboa, só o visito nas férias e nos dias de festa. Claro que fico sempre com muitas saudades quando volto para o Algarve, mas sei que em Lisboa tenho uma segunda casa onde posso sempre ficar quando precisar.


Com muito carinho,
Para o melhor papi do mundo!


Cristina Kohlhoff Feijó Relvas
24 de Julho de 2009

publicado por clay às 00:20 | link do post | favorito

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