Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 05.09.09

 

Meus queridos netos:


O que eu recordo, agora, é um tempo de júbilo: passou o tempo das cerejas, os primeiros frutos do ano, se não tivermos em conta as azeitonas, colhidas ao frio e por vezes à chuva, com as mãos enregeladas pelo sincelo e que, com as idas frequentes à fogueira, se enchiam de frieiras e nos faziam sofrer.


Mas o tempo das cerejas, que começava com a romaria da Santa Cruz num ermo afastado, a que quase todos os anos nos dirigíamos em grupo e donde trazíamos as primeiras, ligadas duas a duas pelo pé, para nos servirem, às raparigas, de brincos para as orelhas, era um tempo de festa. Claro que nos tinham deslumbrado as cerejeiras, brancas como noivas, mas só quando as cerejas começavam a querer ficar vermelhas é que a nossa ansiedade disparava. As primeiras trazia-as o meu Pai, duma propriedade distante da aldeia, onde as ia buscar montado no nosso cavalo Carriço. Todos ficávamos extasiados diante da cesta de vime, revestida de fetos selvagens, e repleta dos deliciosos frutos, quase mágicos. Chegavam para todos e era quase uma epifania. Era, pelo menos o prenúncio da grande fartura que estava quase a chegar, dos dias, já temperados pelo calor da primavera e da faina em que todos participávamos, pois, além do prazer que nos proporcionava ajudar os adultos e comer as cerejas acabadas de colher por nós, o dinheiro não chegava para contratar pessoal, mesmo contando com o produto da venda. Eram uns dias de grande azáfama, até para a minha Mãe, obrigada a ficar em casa para nos preparar o almoço, o almoço das cerejas, que era quase um almoço de festa, a que então se chamava jantar.


Depois era a vez duma única macieira temporã, que todos os anos, pelo S. João, se enchia de frutos. Poucos chegavam a amadurecer totalmente, porque, ainda meio-verdes, já eram sumarentos e doces, ligeiramente ácidos, sim, mas uma delícia reservada para os pequenos. Não se chegava a fazer a colheita porque todos os dias, depois de regarmos a horta, passávamos pela macieira, deixando-a mais pobre de maçãs.


Mas em breve a fartura regressava, com os alperces, as ameixas, os pêssegos e uns figos deliciosos, verdes por fora e vermelhinhos por dentro, que nos faziam negaças nas ramadas pendentes sobre o lavadoiro público, o que nos obrigava a perigosas acrobacias. Havia ainda alguns melões e melancias que o meu Pai era dos poucos a cultivar, para nosso exclusivo regalo.


Mais tarde, já perto do fim das férias, tinham lugar as vindimas e, então, tudo «fiava mais fino»: além da gente da casa, tinha de se recorrer a alguns jornaleiros, pois o trabalho era prolongado e penoso. Encher de cachos de uva os grandes cestos vindimos, transportá-los até ao distante lagar por trilhos íngremes e sinuosos e, depois proceder à pisa, não era tarefa para crianças: nós limitávamo-nos a cortar alguns cachos para uma cesta pequena e a despejá-la, ufanos, no cesto que os homens haviam de carregar às costas, apoiados numa espécie de almofada em forma de rolo, que lhes pendia da cabeça. O nosso momento de gáudio chegava com a noite, quando os homens se dirigiam para o lagar, arregaçavam as calças o mais que podiam e punham-se a pisar as uvas, num ritmo cadenciado, geralmente acompanhado por alguma conhecida cantilena, muitas vezes ao som dum acordeão, privilégio de alguém que assim ficava dispensado do trabalho da pisa. E também, nessa altura, a minha Mãe se encarregava de fazer comida para todos, regada por refrescante vinho da safra do ano anterior: era uma comida simples, igual à que nos era servida todos os dias, mas que, naquelas circunstâncias de confraternização, parecia mais saborosa e suculenta.


Com o começo do Outono, os soutos de castanheiros enchiam-se de animação, pois quase toda a gente procurava abastecer-se dos últimos frutos do ano, que eram, afinal, bem mais do que isso: em lugar das batatas cozidas, com molho de azeite e vinagre e algum bocado de carne de porco da salgadeira, fazia-se uma ceia de castanhas. Eram geralmente assadas no braseiro que se fazia no lar da cozinha, enquanto nos íamos embrenhando nas peripécias de histórias tradicionais ou inventadas pela minha Mãe. Chegado o momento, afastavam-se as castanhas para um dos lados e cada um ia tirando e descascando as que lhe apeteciam, até todos ficarem saciados. O meu Pai servia-se também dum copo de vinho tinto, mas tanto a minha Mãe como os mais novos se limitavam a um copo de água fresca. Também se preparavam algumas castanhas «piladas», que, depois de secas, eram usadas para fazer uma sopa que nunca foi muito do meu agrado, mas que fazia as delícias do meu Pai.


Depois… mais nada. E daí o ditado que todos conheciam: «Do cerejo ao castanho, bem me eu avenho, mas do castanho ao cerejo é que me vejo». «Víamo-nos» sem os nossos únicos mimos, porque bananas, mangas, kiwis, abacaxis, papaias, bem como as inúmeras frutas de toda a qualidade provenientes dos mais variados países que, agora, enchem as bancas de qualquer mercado, não eram sequer conhecidas fora das grandes cidades e muito menos em pequenas aldeias, onde só se comia o que se cultivava, ou seja, cada fruto no seu tempo.


Beijinhos muito afectuosos da vossa Vóvó

publicado por clay às 00:31 | link do post | favorito

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