Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 18.12.09

           Meus queridos netos:

 

                                   Ontem, apesar do frio, saí à noite e, como é habitual todos os anos por esta época, a minha rua (e a maior parte das ruas da cidade), resplandecia do brilho de milhares de luzinhas, que punham as almas em festa, na expectativa do Natal.
Este ano, cada grinalda de estrelas suspende no ar, graciosamente, um anjo : é só o seu contorno em luzes brancas e, à volta, luzinhas cor de rosa para o tornar mais vivo e apelativo. As pessoas passavam, sem parar, mas eu tinha a impressão de que aquela luz, embora vista de relance, punha em todos os olhos, por vezes espelho duma vida difícil, um brilho nascido em cada coração, só porque era Natal: uns deitavam contas à vida para não falharem com a consoada e os presentes, antegozando a reunião da família que, no aturdimento da vida quotidiana, se tornava cada vez mais espaçada e difícil; outros já se reviam no aconchego da lareira em qualquer ponto do país, onde se sabiam ansiosamente esperados; e outros lá iam, apoiados à sua muleta e curvados pelos anos e pelas artroses, acalentando a esperança de que, nesse dia, alguém havia de bater-lhe à porta: uma vizinha e amiga ou aquela simpática senhora do Centro Social…
            De repente, eis que uma menina puxava o braço da Mãe e exclamava, fazendo-a parar: “Olha, Mamã, tantos anjinhos que vieram para esta rua! Achas que todos eles estão, como eu, ansiosos pelo dia de anos do Menino Jesus? E já viste quantas festas Ele vai ter, em todas as casas, não é?”. A Mãe, seguindo, comovida, o olhar da criança e os seus sonhos, não quis toldar aquela carinhosa esperança e calou os seus pensamentos: “ Infelizmente, há muitas casas em que o Menino Jesus não entra, pois já estão todas a abarrotar de coisas. Ele é a árvore de Natal toda iluminada e rodeada de lindos embrulhos enfeitados de fitas e laços, a grande mesa da consoada onde se acumula tanta comida que até se perde o apetite, a algazarra das pessoas que aproveitam para pôr em dia as conversas sobre as suas vidas, tão atarefadas e, graças a Deus, também os risos e, por vezes, as canções de crianças, felizes por verem os outro felizes e por terem recebido muitos presentes. “
            Porém,  a menina continuava: “ Ó Mamã, tu vais fazer um bolo de anos para o Menino Jesus?”.A Mãe pensou um pouco e disse: “Todos os bolos que a Mamã faz, as rabanadas, os sonhos, os coscorões são do Menino Jesus porque é Ele que nos dá, a mim e ao Papá, a saúde e o emprego para podermos fazer a ceia dos Seus anos e comprar os presentes, que evitamos sejam muitos para ajudar os que não têm nada”.
E já ambas seguiam o seu caminho, sob o dossel dos anjos de luz, quando a menina pediu: “ Mas olha, Mamã, o que eu queria era que tu fizesses o bolo de chocolate que é o mais bonito dos meus anos e lá escrevesses assim: “Muito obrigado, Menino Jesus. Todos nós gostamos muito de Ti”.
            Então é que os olhos da Mãe se iluminaram e ela disse, comovida: ” Essa vai ser a oração que todos nós, lá em casa, vamos rezar este Natal”.
            Já tinham atravessado para outra rua, onde as luzes não desenhavam anjos, mas evocavam, de igual modo, a verdadeira Luz do Deus que Se fez homem para nos tirar das trevas e nos dar a esperança da Ressurreição.
            Que seja essa seja a Luz a iluminar as vossas vidas, são os desejos que saem dos corações dos vossos Vóvós
 
 
 
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publicado por clay às 18:21 | link do post | comentar | favorito
clay a 26 de Dezembro de 2009 às 13:11
Caro amigo R. S.:
Desculpe que o trate deste modo, o que é justificado pela sua atitude de humildade e que apesar de tudo, me deu uma grande alegria.
Na realidade, e como normalmente acontece, o tempo e a distância apagaram da minha memória os rostos, mais do que os nomes, dos alunos que preencheram e deram sentido a uma grande parte da minha vida, mas averdade é que eles continuam, em bloco, bem presentes no meu coração e só desejo que todos tenham tirado algum proveito da sua convivência comigo.

Quanto ao infeliz episódio que me relata, não guardo dele a mínima lembrança, pelo que nada tenho a perdoar-lhe,mas sim lamentar o que diz ter-se passado.

Neste tempo em que tudo está diferente, tanto nas escolas como na vida, penso que a sua atitude terá sido fruto da imaturidade e, também, de alguma rebeldia característica dessa fase das nossas vidas.
Mas devo confessar-lhe que, se fosse hoje, também não deixaria em branco esse procedimento incorrecto, porque defendo o respeito pelos professores (e nãso só) como um dos valores que, infelizmente, estão a desaparecer. Só me parece que a Escola teve, em relação a si, uma atitude demasiado drástica, embora não possamos deixar de enquadrar tudo isto no contexto e na mentalidade da época.

O seu pai não era, por acaso, jornalista no Jornal de Angola? Digo-o porque só me recordo dum aluno muito indisciplinado, a cujo pai pedi que fosse falar comigo a respeito do comportamento do filho...

Pelo seu comentário, deduzo que ainda continua em Angola, país de que guardo as melhores recordações e para o qual desejo os maiores progressos. A si, faço votos por que tenha tido êxito na vida e que este novo ano que se aproxima lhe traga as maiores felicidades. E muito obrigada pelas referências ao meu "apostolado" em prol da língua portuguesa.
Se quiser dar-se ao trAbalho de voltar ao meu blogue, em breve lá poderá encontrar memórias da minha vida de professora (não serão as primeiras), nomeadamente no saudoso Salvador Correia.

Cordiais cumprimentos



RS a 26 de Dezembro de 2009 às 13:32
Professora Clementina,
Eu continuo em Angola, onde nasci (Luanda), cresci e me fiz homem. Nunca daqui saí.
O meu pai que já é falecido não era jornalista nem tinha nenhuma relação com o JA.
Curiosamente eu é que sou jornalista e de facto já trabalhei no JA nos idos de 77.
Se quiser mandar-me o seu mail poderemos depois trocar mais algumas impressões sobre este tempo complicado que foi a minha passagem pelo LSC.
RS
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