Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 16.01.10
Meus queridos netos:
 
Depois daqueles dois anos felizes, a nossa vida dá, então, outra volta de 360º: o Vôvô foi o primeiro classificado num concurso para director administrativo das Obras Públicas e regressámos a Luanda, onde nos fixámos de vez, o que me permitiu ser contratada para o Liceu Salvador Correia, hoje Liceu Mutu ya Kevela.
O Liceu era um imponente quadrado com uma torre que se via de longe e uma entrada constituída por três amplas portas, encimadas por um frontão triangular, onde estava inscrito, em caracteres bem visíveis, o nome do Liceu. Lá dentro, havia amplos pátios e corredores com arcarias, para onde davam as salas de aula e outras instalações. Pintado de amarelo quase bege, tinha, nas traseiras, um amplo espaço que servia de parque de estacionamento para os carros dos professores e de campo para as brincadeiras dos alunos quando não estavam nas aulas. Situado num ponto alto da cidade, para ali convergiam, passando sobre a Baía, as brisas frescas do Atlântico, doce refrigério na época do calor, em que tinham lugar prolongados períodos de aulas. Foi, para mim, o liceu mais aprazível por onde passei.
O corpo docente, que chegou a ter cerca de centena e meia de professores e a funcionar em três turnos, de manhã, de tarde e à noite, era muito interessado, coeso e afável, nunca me tendo eu apercebido de que entre tanta gente, alguma vez tivesse havido problemas ou zangas. Aliás, eu fazia parte dum grupo de professoras que todos os meses se reuniam, em casa duma delas ou na minha, para o chazinho e o convívio que as ocupações docentes não permitiam. Éramos bastantes, mas lembro-me, em particular, da Teresa Velhinho, da Maria da Piedade (a Piriquita) e da Maria Estefânia, que mais tarde foi vice reitora.
Os alunos? Pois como não evocar os alunos, a alma e a razão de ser do Liceu? Dum modo geral, lembro-me de que eram disciplinados, respeitadores e a maior parte interessados na aprendizagem. Eu sempre leccionei o sexto e sétimo anos, na disciplina de Português e, para completar o horário, uma turma que estava comigo do terceiro ao quinto ano, geralmente em Francês. Era essa a turma mais barulhenta: adolescentes que precisavam de interagir e aos quais, por vezes eu tinha de “meter na ordem”, sempre convicta, então como agora, de que não se pode aprender sem trabalho e concentração.
De quando em quando, havia uma situação como aquela em que, tendo eu explicado e feito repetir várias vezes, a um aluno, a definição de verbos transitivos e intransitivos, o rapazinho desabafou, pondo-se no meu lugar, com grande gáudio da turma: “Arre, que és burro!”. Eu também achei graça mas, claro, não alinhei na risota. Era tida, por todos, como uma professora muito exigente mas cheguei a dar um vinte a um aluno que veio doutro país de África e que, tendo embora algumas dificuldades no francês escrito, falava aquela língua mais desembaraçadamente do que eu. Dezanoves dei alguns, a alunos excepcionais que me calharam em sorte e dezassete, comigo, já era muito bom mesmo. Se fosse agora, com a inflação das notas por causa das vagas em certos cursos universitários, certamente que a minha tabela teria perdido alguma da sua exigência. Mas a esse respeito não posso deixar de me lembrar de certo aluno que, ao repetir, pela terceira vez, o exame do sétimo ano e apesar duma muito fraca prestação, obteve, finalmente os dez de que precisava, não só para premiar a sua persistência, mas, sobretudo, para me ver livre dele como candidato.
As minhas funções no Liceu Salvador Correia prolongaram-se até Julho de 1975, apesar de o Liceu estar frequentemente fechado, o que nos levou a mandar o Zé para Portalegre, onde, apoiado pelos Avós, concluiu, com êxito, o último período do quinto ano, com grande “pasmo” dos seus professores, que não esperavam ver chegar do “Ultramar” um aluno tão bem preparado. Eu fiquei porque, sendo professora metodóloga, tinha alunos estagiários que, sem aquela formação completa, garantia dum lugar de professor efectivo em Portugal, ficariam no desemprego.
Nesse último ano, após o 25 de Abril, ainda fiz parte, sob a orientação dum Ministro da Educação angolano e, partilhando experiências com alguns diplomados também angolanos que, do exílio, tinham regressado à sua Pátria, dum grupo que visava transformar-se em Instituto de Investigação Pedagógica. Funcionava, à noite, no próprio Ministério, mas ignoro o seu destino posterior. E também passei por uma experiência única na minha vida: ver a minha sala de aulas invadida por um grupo de estudantes munidos dum altifante para aí convocarem os colegas para uma R. G. A., a ocorrer nessa noite. Mas tudo se passou em boa ordem, não tendo eu, ao contrário doutras pessoas minhas amigas ou conhecidas, sido alvo de qualquer agravo ou falta de respeito, apesar dos tempos conturbados que já então se viviam.
Para a próxima, prometo ser mais breve, senão lá fogem os meus leitores, enfastiados de tão longos “ testamentos”.
Beijinhos e até breve.
   
 
publicado por clay às 00:37 | link do post | favorito

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