Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 02.02.10

Capa do Livro que vem sendo citado nestas cartas aos meus Netos

                        Meus queridos netos:
                        Vamos lá então de viagem a Setúbal: depois de meia hora de carruagem para vir da Quinta dos Pinheiros até Lisboa, seguiu-se, durante quase uma hora, a travessia num vapor superlotado para apanhar o caminho-de -ferro. Na estação de Setúbal, esperava-os a carruagem de Jorge O’Neill que, por caminhos rudimentares mas rodeados por frondosas árvores, os levou à Quinta dos Bonecos, assim chamada por causa d’”As muitas estatuetas, bustos e vasos que ornam a casa e os terraplenos dos jardins”. Ao contrário do que se poderia pensar, estava “um calor espantoso”, muito mais agressivo do que o da Quinta dos Pinheiros. Todas as janelas e portas estavam fechadas durante o dia e a casa completamente mergulhada na penumbra. “De dia, só se podia andar cá fora sob a sombra das árvores de espessa folhagem ou, se se queria ir a qualquer parte onde incidia o sol, havia que caminhar vagarosamente e a coberto dum guarda-sol branco. De manhã e a noitinha era, porém, um prazer passear com o ar calmo e fresco. Sentia uma paz, uma tranquilidade que desejaria comunicar a todos os homens”.
                            Mas nem Andersen nem a família O’Neill eram pessoas para se quedarem nesse doce torpor. Visitaram, na vizinhança, o convento trapista de Brancanes, abandonado desde a expulsão dos frades pelos liberais, mas com uma mostra de belos azulejos e uma vista deslumbrante. Andersen foi, também, a cavalo, com o filho de Jorge O’Neill, até ao castelo de Palmela e, apesar do “frio invernal”, ficaram extasiados com o panorama que puderam apreciar das muralhas: “Em frente, as matas de sobreiros descem para o rio Tejo, na margem oposta Lisboa brilhava ao sol poente e a serra de Sintra recortava-se no céu azul. Não era fácil desprendermo-nos desta visão, mas a noite ia caindo, tínhamos de regressar”. Uma outra excursão, esta feita de burro, levou os dois amigos à serra de S. Luís. Foi uma aventura inolvidável, pisando o mato bravio e com as pedras a rolarem sob as patas do burro que Carlos O’Neill, de espingarda de caça a tiracolo, tinha de puxar pela rédea. Mas valeu a pena: “Nuvens solitárias pairavam, carregadas, sobre a serra da Arrábida, lançando sombras em baixo, no vale fundo. Quanto mais alto subíamos, mais alto se elevava no horizonte o vasto mar. Toda a natureza era de uma gravidade, de uma tranquilidade imperturbada por qualquer árvore. Como antes da Criação”. O regresso não foi feito na companhia de Carlos que se afastara para caçar, mas na dum outro jovem caçador que surpreendera a repousar junto dum tanque e de que faz um delicado e romântico retrato.
                        Em Setúbal, assiste a uma festa de Santo António com a cidade toda iluminada por fogueiras, moças e moços dançando em volta do lume, foguetes lançados de toda a parte, pequenos altares em honra do santo, “um grande cortejo de gente do mar, cantando e tocando flautas e tambores”. Foi a grande custo e não sem algum perigo, que a carruagem ultrapassou aquela confusão, passando sobre as fogueiras sem que se registasse um temido acidente. Andersen descreve, com muito humor, essa festa popular e também, com admiração, a cidade de Setúbal: refere a Praça de Bocage e a homenagem que a cidade está a preparar ao poeta, erguendo, por subscrição pública um monumento em sua memória e descreve a Igreja de Jesus “pequena igreja das mais belas que até agora vi”, realçando os azulejos e duas pinturas de Grão Vasco que, diz ele: “me fizeram recordar Holbein, na cor e no desenho”. Depois afirma: “Setúbal é mais bela vista da baía”, onde nota grande número de barcos de recreio e de pesca, num dos quais faz, com Carlos O’ Neill e a família um belo passeio que lhes permitiu apreciar a cidade e toda a costa, incluindo a serra da Arrábida e terminando com a visita às ruínas de Tróia.
                        Outro momento de descontracção foi a tourada a que assistiu, nas festas de S. Pedro e que conta com pormenores saborosos, dizendo, logo de entrada: “Todo o barbárico e sanguinário que uma tourada apresenta em Espanha foi eliminado com as alterações introduzidas desde o tempo de D. Pedro “, como, por exemplo, os chifres embolados. A parte que mais aprecia são as pegas, onde os moços do campo exibiam a sua destreza.
                        O parágrafo referente à despedida de Setúbal é o melhor testemunho da sua sensibilidade e do afecto que desde o princípio o ligara a Portugal: “Num dos primeiros dias da minha estada na Quinta dos Bonecos plantei diante da casa, quase junto à palmeira grande, um pequeno abeto nórdico. Quando crescer, o vento norte, ao abalá-lo com o seu sopro, aí deixará uma saudação da Escandinávia distante”.
                        De facto, com as cinco semanas passadas na Quinta do Pinheiro e o mês da Quinta dos Bonecos, estava a aproximar-se o termo da permanência do poeta em Portugal. Não queria partir, contudo, sem visitar Aveiro, Coimbra e Sintra, onde o acompanharemos na próxima carta.
                                               Beijinhos dos Vóvós
 
publicado por clay às 00:50 | link do post | comentar | favorito
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