Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 17.03.10

                 Meus queridos netos:

No último domingo de Janeiro, resolvi finalmente ir visitar o Museu Nacional do Azulejo que, “mea culpa”, ainda não conhecia, aproveitando a ocasião para ver a exposição “Casa Perfeitíssima”, dedicada à comemoração dos quinhentos anos da fundação do Mosteiro da Madre de Deus, em 1509, pela rainha D. Leonor, mulher de D. João II e irmã de D. Manuel I.

A Rainha D. Leonor foi uma figura invulgar do Renascimento, tanto do ponto de vista humanista (mecenas da cultura em geral – protectora de Gil Vicente - e das artes em particular, com especial relevo para os pintores nacionais, flamengos e italianos) como do ponto de vista religioso. Foi imbuída do espírito da Devotio Moderna, que, na esteira da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, advogava um cristianismo simples e tolerante e a prática da meditação metódica, sem se afastar da ortodoxia.  

 Foi essa doutrina que procurou transmitir às sete religiosas que, após terem ajudado a fundar o Convento de Jesus, em Setúbal, segundo a Ordem Sagrada de S. Francisco, vieram criar esta pequena comunidade de clarissas colectinas de Santa Clara, tão presente na arte sacra do Mosteiro. Essa comunidade foi depois aumentada por outras religiosas e a própria Rainha D. Leonor, uma vez viúva, aí permaneceu longas temporadas, como verdadeira clarissa, embora não tenha professado para manter a sua casa e os seus rendimentos, o que lhe permitiu não só fundar e enriquecer com muitas obras de arte o Mosteiro da Madre de Deus, financiar as Capelas Imperfeitas, do Mosteiro da Batalha e o Hospital de Todos os Santos , fundar as termas das Caldas da Rainha e impulsionar, sob a orientação de D. João II, as Misericórdias, que inauguram o papel do Estado no domínio da assistência aos necessitados.

Presente na Exposição, além da Capela Particular da soberana com quatro cerâmicas de Lucca della Robia, representando os quatro evangelistas e seus símbolos e uma sala onde, além de outras obras de arte, se encontra o Livro de Horas da Rainha e uma Bíblia que lhe foi oferecida pelos reis de Castela, encontra-se também a escultura do pelicano que, segundo a lenda, não hesita em rasgar o peito para de lá tirar o alimento para os seus filhos, remetendo a um ideal de salvação – Cristo dando a vida por todos os homens – protecção, justiça e solidariedade que ainda hoje é o timbre das Misericórdias espalhadas por todo o  país.

            Revisitei, portanto, a Igreja da Madre de Deus, uma jóia da nossa arquitectura, restaurada depois do terramoto de 1755,  e que constitui um repositório notável de azulejos figurativos, a azul e branco, bem como de talha dourada, segundo os cânones barrocos Dali se passa ao Museu Nacional do Azulejo, onde se ensina o fabrico do azulejo e, em várias salas, se expõem exemplares raros e valiosíssimos deste nosso tesouro artístico, desde os princípios (árabes) até aos nossos grandes artistas contemporâneos, embora com ênfase particular nos séculos XVII e XVIII, em que essa arte atingiu, entre nós, o seu apogeu.

            Prova da humildade de tão insigne Rainha é o seu túmulo, que nem as obras mandadas executar por D. João IIi e que resultaram no imponente claustro grande, mudaram de lugar ou de aparência.

            A Cristininha que fique atenta porque, numa próxima visita a Lisboa, lá irei com ela, não para visitar a referida exposição que já terá terminado, mas o Museu Nacional do Azulejo e, sobretudo, a rica e belíssima Igreja da Madre de Deus.

            Até lá, os beijinhos dos Vóvós e… até breve.       

publicado por clay às 00:08 | link do post | comentar | favorito
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