Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 04.06.10

  

                                                     O peixinho Barbatanas – assim lhe chamavam os amigos em razão da sua cauda, longa e brilhante – era um lindo peixe vermelho e dourado que vivia numa lagoa, formada por um braço de rio, onde sempre se sentira seguro e feliz, na companhia de algumas rãs que passavam a vida a coaxar, ou a ver as acrobacias das libelinhas, em danças improvisadas ao som da música das cigarras.

 

            Não sabia bem que idade tinha, mas sempre, até àquela data, se sentira forte e saudável, nadando sem descanso até à hora de ir para a cama, que, por um feliz acaso, fizera debaixo duma grande folha de nenúfar, o que o protegia do vento e dos rigores do sol, já que a chuva não podia ser desagrado para quem nascera e vivia dentro de água.

 

            Sentia-se privilegiado, pois nunca lhe faltara a comida, a amizade dos amigos e, sobretudo, o amor duma criatura tão encantadora que não parecia pertencer àquele mundo, e que ele sempre tratara por «minha sereia».

 

            Tudo seria perfeito, se o peixinho Barbatanas e a sua numerosa família, bem como alguns amigos ou meros conhecidos não tivessem começado a definhar a olhos vistos: tinham perdido o apetite, moviam-se lentamente, como por obrigação e desinteressaram-se do coaxar das rãs e da dança das libelinhas, também elas atingidas por um torpor que não deixava pressagiar nada de bom.

 

            Estavam as coisas neste ponto, quando resolveram fazer uma reunião aberta a quantos nela quisessem participar. Vieram novos e velhos, mulheres e crianças, alguns mais interessados na quebra da rotina do que na discussão de tão importante problema. Mas o peixinho Barbatanas é que não quis perder aquela oportunidade: afastou os brincalhões e os fala-barato e rodeou-se dum grupo de pessoas que estavam sempre prontas a ajudar a resolver os problemas da pequena comunidade. Depois de muitas sugestões, mais ou menos interessantes – e algumas delas disparatadas – tomou a palavra um peixe ainda muito novo mas que todos consideravam inteligente e ponderado, além de que era, sem qualquer sombra de dúvida, o mais viajado de todos. De vez em quando, desaparecia por uns tempos da lagoa e regressava sempre cheio de novidades. Nesse dia, tinha ele voltado a casa, após uma longa ausência e eis o que se apressou a propor: que fizessem das fraquezas forças e fossem em busca dum lugar mais seguro para viver. Dizia ele que a comunidade estava doente porque no braço de rio, um pouco mais acima, havia uma enorme pocilga que poluía as águas, especialmente as águas paradas da lagoa. Mas, se quisessem aceitar a sua sugestão, estava disposto a servir-lhes de guia, até à nascente do rio, um lugar tão despoluído e formoso que alguém se lembrara de lhe chamar «Olhos de Água».

 

            Houve muitas hesitações, pois estavam habituados àquele lugar, mas, ao olharem os olhos mortiços das crianças e a debilidade dos mais velhos, resolveram seguir o conselho do peixinho viajante e puseram-se a caminho: custava-lhes imenso respirar, porque a água se mostrava cada vez mais poluída, mas, com algumas curtas pausas para descansarem e o encorajamento do seu guia, lá conseguiram ultrapassar o esgoto da pocilga e ficaram encantados com a pureza da água que, daí para a frente, corria limpa e saltitante, muito melhor que a da lagoa, mesmo nos tempos felizes. Bem queriam aproveitar aquela corrente ali à mão, a desafiá-los para umas cambalhotas, principalmente aos mais pequenos, mas eram estes que se mostravam mais abatidos, com grande preocupação dos adultos.

 

            Ora, pausa aqui, pausa ali, recomeçavam a respirar melhor e aumentava a sua expectativa em relação ao que aquele sítio mágico, os Olhos de Água, teria para lhes oferecer.

 

            Quando lá chegaram, todos abriram a boca de espanto: esperavam a nascente dum rio, com poucas larguezas para brincarem, mas o que se lhes deparou foi uma grande piscina natural, rodeada de pequenos arbustos verdejantes, sem os nenúfares para se abrigarem mas com tocas na rocha, que começaram a distribuir pelas várias famílias. E, maravilha das maravilhas! Havia por ali muitos peixinhos, grandes e pequenos, que, tinham a certeza, em breve se viriam a tornar seus amigos.

 

            Tudo isto aconteceu na primavera, mas mal o calor começou a apertar, foi como se a sua piscina tivesse sido atingida por um… como direi? Terramoto, maremoto ou, pensando numa palavra mais adequada mas que não existe, um verdadeiro piscina-moto: aos fins-de-semana, começaram a chegar famílias com muitas crianças e todos, miúdos e graúdos, em breve se libertavam das poucas roupas que traziam e, ficando em fato de banho, era certo e sabido que saltavam logo para a água e por ali ficavam a regalar-se, nadando, mergulhando ou simplesmente, se não sabiam nadar, chapinhando pelas bordas da piscina.

 

            Ao princípio, os peixinhos ficaram numa aflição, sem saber que voltas dar à vida, mas em breve descobriram uma solução: enfiarem-se nas suas tocas e, se possível, aproveitarem para dormir uma soneca, enquanto a «invasão» não acabasse. E acabava. Primeiro, uma vez refrescados e cansados do exercício, todos se dirigiam para os abundantes farnéis, colocando sobre mesas desdobráveis deliciosos petiscos. Depois, tinham de fazer a digestão antes de voltarem à água. E, lá pelo fim da tarde, após mais uns mergulhos, todos regressavam a casa, deixando a piscina calma e silenciosa. E, quem havia de dizer? Espalhados pela piscina, ficavam muitos fragmentos de pão e até autênticas iguarias, que saciavam os peixinhos, pelo menos durante alguns dias. Isto, apesar de as mães estarem constantemente a recomendar: «Não sujem a água, meninos, senão em breve não terão onde nadar!».

 

            Ignoravam que, nos buracos, à volta da piscina, havia muitos peixinhos à espera de se regalarem com aqueles restos, deixando de novo a água limpa para as suas acrobacias e para novos mergulhos dos visitantes dos fins-de-semana.

 

            Um dia, os mais pequenos, nas suas brincadeiras, elegeram rei o peixinho viajante que, graças aos seus conhecimentos, os encaminhara para aquele autêntico paraíso terreal.

 

                                 Clementina Relvas

           

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