Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 11.06.10

 

                              Tinha sido, pelo menos até àquele dia, a mais imponente ave daquela capoeira: o seu corpo, livre de qualquer senão, era coberto de penas luzidias, de vários matizes e dispostas em camadas impecáveis. Quanto à crista, bem vermelha e recortada, constituía, indubitavelmente, a sua coroa de glória, só comparável à voz, tão potente e cristalina que, ao ouvi-la, até os mais dorminhocos acordavam bem dispostos.

 

                            Sabia promover a paz na capoeira, com paciência e diplomacia e não havia notícia de, pelo menos nas redondezas, haver um galo que pudesse rivalizar com ele. E assim vivia, feliz, até que um dia…

 

                           Um dia a dona chegou com um grande cesto de milho que, como era seu costume, começou a espalhar no terreiro, de forma a  que todos pudessem comer, sem atropelos. Um frémito de excitação propagou-se a todo o bando, maravilhado com a  abundância do milho e o tamanho dos seus grãos.

 

                             Houve, porém, uma excepção de peso: o nosso galo Farrabrás, que nem sequer tocou no milho.

 

                            Ao princípio, a sua abstinência passou totalmente despercebida. Mas, uma vez saciadas, algumas galinhas houve que perguntavam a si mesmas se ele não estaria doente. E a sua preocupação agravou-se quando, no dia seguinte e no outro e no outro, o galo se manteve fiel ao jejum, como se tivesse feito alguma promessa ou jura. Mas não. O que havia acontecido é que, uns dias atrás, ele tinha surpreendido uma estranha conversa entre os dois filhos da dona da casa, ambos a fazer investigação científica. Dizia o rapaz:

 

                       - Milho transgénico? Mas tu não vês que é o milagre do Século XXI? Haverá um tal aumento de produção que nunca mais se falará em fome.

 

                            Ao que a rapariga retorquiu:

 

                       - Estás louco! Hás-de ler um relatório científico que ainda ontem me chegou às mãos e que me deixou aterrada.

 

                       - Porquê, poderás dizer-me?

 

                       - Olha, chegaram à conclusão de que o milho transgénico é uma bomba de pesticidas, com graves consequências nos animais e nos humanos e, além disso, as experiências em cobaias mostraram que a sua ingestão fez com que os machos crescessem  menos e as fêmeas se desenvolvessem muito mais.

 

                        Foi só ao ouvir esta última parte da conversa que o galo se sentiu seriamente preocupado: a ser assim, ele deixaria de ser o rei da capoeira, enquanto as galinhas ganhariam corpo e poder.

 

                       Vendo tão seriamente ameaçado o seu estatuto, o galo resolveu protestar à sua maneira: fazer uma greve de fome, evitando assim comer o milho transgénico.

 

                       A sua dona não era capaz de entender tão estranha como inesperada atitude. Que se passaria com o galo? Que fazer para preservar tão cobiçado animal? Vendo-o emagrecer, pender a crista sem graça e permanecer calado por mais bonita que se apresentasse a manhã, a dona começou a dar-lhe os seus miminhos de dieta, que ele devorava com fome de tigre. E, pouco a pouco, retomava o seu antigo e esplendoroso vigor, enquanto as galinhas, de papo cheio, iam morrendo sem causa aparente mas que o veterinário, consultado pelos proprietários a conselho dos filhos, atribuía às quantidades significativas de pesticidas, recolhidas nas análises que, dizia ele, também  iam exterminando borboletas e outros insectos que viviam perto do campo de  milho transgénico, conforme vários testemunhos que já lhe tinham chegado aos ouvidos.

 

                       Quando a dona do galo se convenceu de tal problema, jurou que nunca mais recorreria ao milho transgénico, por mais barato e apetitoso que parecesse.

 

                        E, daí a alguns dias, o galo cantou tão alto e afinado que toda a gente naquela terra, até mesmo os mais dorminhocos, acordava sempre bem disposta e feliz.

 

 

                             Clementina Relvas

 

                     

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