Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 19.06.10

                           

 

                  Todos os anos, quando o Inverno estava prestes a chegar, aquela andorinha integrava o seu bando e rumava ao sol do Norte de África.

 

                 Aí, em vez de fazer o seu ninho de gravetos e de lama no beiral da Igreja paroquial, como era seu costume, ia instalar-se no rebordo da Mesquita, onde sempre tinha sido muito bem recebida, pois era tida por mensageira da paz e da fertilidade. É verdade que, cinco vezes ao dia, o brado do muezzin, chamando os crentes à oração, lhe transtornava um pouco o sossego mas, como ela era tolerante e muito prática, aproveitava esses momentos para ir dar um passeio: umas vezes dirigia-se às margens do Nilo, onde contemplava as falucas , os cavalos puxando carruagens já muito usadas, com turistas deslumbrados, sempre a disparar as suas máquinas fotográficas ou pondo-se à conversa com outras vizinhas, que adoptavam o mesmo estratagema; outras vezes dirigia-se ao Grande Bazar e, embora soubesse que aí não era muito desejada, escondia-se num buraquinho donde podia observar os frutos variados e apetitosos, as especiarias tão coloridas e perfumadas que quase a faziam desfalecer, as extensas montras dos ourives cheias de brilhos ou o estendal de tapetes com os mais variados desenhos e cores. Era divertido, mas também um pouco fatigante, sobretudo devido ás intermináveis discussões necessárias para se chegar a acordo sobre um preço que satisfizesse vendedor e comprador.

 

                 Assim, mal lhe parecia que, por agora, o muezzin se tinha calado, regressava ao aconchego do seu ninho, no rebordo da Mesquita. Dormia então a sua soneca, reparando as forças para a viagem que, a seu devido tempo, a havia de trazer, de novo, ao doce sol de Portugal e ao beiral da sua Igreja que, em vez do vozeirão do muezzin, desfiava alguns acordes duma suave melodia, para anunciar as horas ou chamar os fiéis para a missa.

 

                 Mas, naquele ano, na sua viagem de regresso, o seu coração foi ficando apertado, primeiro com maus augúrios e depois com o que via: ao longo da Europa, o caminho que mais gostava de percorrer – não conseguia localizar certas aldeias que simplesmente tinham sido arrasadas pelas cheias; via florestas inteiras com os ramos despidos, atingidas pelas chuvas ácidas. E sentia-se desnorteada, pois nenhuma daquelas paisagen lhe era familiar.

 

                 Ao passar sobre um lago, no Sul de Espanha, ia-lhe caindo a alma aos pés: dezenas de aves e de peixes mortos ocultavam as margens, onde tinha pensado parar um pouco para recobrar as forças. Teve de seguir caminho e, um pouco mais adiante, poisou num bonito castanheiro mas logo se apercebeu de que ele estava doente, com o grosso tronco cheio de manchas vermelhas, verdadeiras chagas, de difícil cicatrização.

 

                 Olhando à sua volta, viu que já estava na fronteira de Portugal, portanto perto da sua primeira casa, onde iria construir ou reparar o seu ninho e criar uma nova família.

 

                 Tomou alento e foi voando, sem a alegria dos anos anteriores, mas sempre esperando voltar a encontrar os prados verdejantes, os ribeirinhos límpidos e múrmuros e, finalmente, a sua Igreja branquinha, de torres esguias e beiral acolhedor. Mas o seu coração ia parando, ao sobrevoar o regatinho que deixara límpido e agora estava acastanhado com as descargas provenientes de pocilgas que, como cogumelos, foram crescendo a toda a volta da aldeia.

 

                 Era meio-dia. Estava frio, ao contrário do que sempre tinha acontecido. Procurou a Igreja, ansiosamente, mas só viu um montão de ruínas. Até as duas torres esguias tinham sido devoradas por um incêndio, culpa de alguém que, maquinalmente, atirara um fósforo ainda aceso para a bonita mata circundante, onde ela tinha sempre mesa posta, no Verão, graças aos inúmeros piqueniques, sobretudo de emigrantes a celebrar o reencontro com a terra, a família e os amigos.

 

     Sem pontos de referência, desolada, a andorinha, enfiando-se no buraco duma parede semi desfeita escondeu a cabeça debaixo das asas e desatou a chorar.

    …………………………………………………………………

 

     Mas eis que chega a velha Titá, sua amiga de muitos anos e lhe pergunta se não quer continuar sua vizinha, num sítio lindo que tinha encontrado: o beiral duma pequena capela, há pouco erigida no alto do Monte Verde, assim chamado porque tinha à sua volta uma aprazível e bem cuidada mata, onde se continuavam a fazer animados piqueniques.

 

     Claro que aceitou, não acham?

 

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publicado por clay às 00:30 | link do post | comentar | favorito
Lena a 21 de Junho de 2010 às 11:40
Olá Clementina!
O evento do dia 10 correu muito bem, só faltava lá a andorinha Clementina ;)
O encontro de bloggers foi mesmo muito bom, convívio, alegria, amizade... Ia adorar.
O lançamento do livro "Aldeias Históricas de Portugal - Guia Turístico" também foi um sucesso. Para o ano, já ficou prometido repetirmos a dose, desta feita, na bela aldeia histórica de Sortelha.

Ah, o guia já está em algumas bancas: no Sabugal, em Viseu, Trancoso, brevemente em supermercados. Mas se quiser espreitar 1 excerto da obra ou adquiri-la, pode fazê-lo no site www.olhodeturista.pt(há um excerto do livro e a nossa loja virtual).

Jocas gordas
Lena
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