Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 15.07.10

Aqueles andorinhões, aves raras em Portugal, tinham-se instalado ali, na parede maltratada daquele antigo forte, rico de grandes buracos para neles se instalarem confortavelmente, o casal e as futuras ninhadas.

Tudo corria num mar de rosas, embora rosas fosse o que jamais haveria de se ver em redor, tanto o desinteresse dos soldados por essas delicadezas de mulher. E mar ainda menos, já que estes acontecimentos tiveram lugar no Alentejo interior e, ainda por cima, já com o Verão começado. Mas corria, isto é, o tempo passava, embora lento, convidando à sesta, até chegar o início da aventura anual. Os andorinhões aguardavam calmamente, se tal se podia dizer de andorinhões atarefados em angariar os insectos  com que iam alimentando os seus filhotes, até eles serem capazes de se aventurar fora do ninho e fazer-se ao largo, por esses céus além, rumo ao país de acolhimento para onde emigravam todos os anos.

 

Nesse dia, ao regressar a casa, a mãe, depois de ter regurgitado a maior parte do que tinha comido para o bico dos pequenos, disse, acreditem os leitores ou não, ao seu companheiro:

 

- Bem queria poupar-te preocupações, mas tenho de desabafar. Imagina com que aflição ouvi uma conversa meio azeda entre aquele nosso amigo que nestes dias mais quentes até nos tem trazido água fresquinha e o homem mal-encarado que, ultimamente, nos tem massacrado constantemente os ouvidos, sempre a martelar e a raspar.

- Ah! Já sei. É o mestre-de-obras e aquele senhor da natureza, ou do ambiente, qualquer coisa assim. E então que é que eles disseram para te causar tamanha preocupação?

- Olha, o mestre-de-obras, como lhe chamas, dizia que tinha de acabar com todos os nossos buracos porque, de tão oca, a parede era um perigo para quem por aqui passasse. Ia deitar abaixo todo este pano do muro e refazê-lo de novo para ficar descansado.

- Ó diabo! E o outro?

- O outro, muito zangado, dizia que isso era um crime ambiental, são as palavras dele, em que jamais consentiria, porque era o mesmo que condenar à extinção a nossa espécie, no seu dizer tão rara.

- Ó diabo! E o outro?

- O outro disse que não era nenhum selvagem e até já tinha dado ordens a três serventes para retirarem dos seus buracos, com todo o cuidado, os ninhos com as crias e levá-los para a reserva que fica ali em baixo, onde os pais não tardariam a ir-se juntar a eles. E até acrescentou que burros fomos nós em não termos ido logo para a reserva, onde nada nos faltaria.

- Ai, nós é que somos burros? É preciso ser estúpido e não perceber nada de animais, e ainda menos de aves, feitas para voar livremente por esse mundo fora. Ainda por cima nós, sempre habituados a ser livres.

- Mas ouve lá o resto que ainda não acabei. Essas, mais ou menos, foram as palavras que o da natureza lhe disse, acrescentando que não era contra a demolição do muro, realmente em mau estado, mas pelo adiamento das obras. Que faltava pouco mais dum mês para nós podermos partir e, então sim, poderiam restaurar aquela parte do forte, ou, ainda melhor, o forte todo que, como monumento nacional, bem precisado estava disso.

- E então, em que é que ficaram? Não me digas que vamos ser despejados.

- Espero que não. Porque me pareceu que o mestre-de-obras ficou hesitante, talvez a pensar como seria se fizessem isso com a família dele.

 

E, de facto, embora sempre com o coração apertado ou, como também se poderia dizer, com o coração nas mãos se os andorinhões tivessem mãos em vez de patas, o tempo foi continuando a passar, os filhotes a crescer e, seis semanas depois, lá foram eles sobrevoando terras e mares até àquela terra exótica que todos os anos aguardava a sua chegada.

 

                Lisboa, 5 de Julho de 2010

                     Clementina Relvas

publicado por clay às 00:21 | link do post | favorito

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