Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 01.08.10

                                                              

                Puseram-me este nome, não sei bem porquê. A carriça que eles conhecem é uma ave tão pequenina, disfarçada nos seus castanhos, sempre a saltitar nas vinhas e nos restolhos, enquanto eu, mesmo quando fui comprado na Feira de S. Torcato, embora sendo muito jovem, já tinha este corpo forte e bem lançado, que fez soltar, na aldeia, a uníssona exclamação:

 

            - Que estampa de cavalo! Só é pena que esteja destinado a andar por estes montes e vales, carregando lenha, batatas, azeitonas e até estrume para adubar os campos.

 

            De facto, não era um destino risonho. O meu pai, cavalo de corrida, tinha ganho numerosas competições em hipódromos afamados, mas partira uma pata num acidente e tivera de ser abatido, pois perdera, sem remédio, toda a sua serventia. Fora o início do declínio da família, que me arrastou, sozinho, para aquela feira nos confins de Trás-os-Montes. Em breve, porém me senti quase feliz, porque o meu dono era uma alma compassiva, incapaz de se servir de chibata ou chicote. E, como tinha quatro filhos pequenos, nunca quis sujar a albarda com o estrume que, aliás, o rebanho de ovelhas, devidamente alugado ao seu dono, espalhava pelos campos, à medida que o curral era mudado de lugar.

 

            Às vezes levava o meu dono até à Vila, onde ele ia tratar dos mais variados assuntos, desde registos de propriedades até décimas ou pequenas compras para casa. Esses eram dias de festa, porque ali íamos os dois, descendo para o Távora nas voltas que serpenteavam entre os olivais e depois, trepando até à estrada que nos levava a Tabuaço, sempre com vinhas de ambos os lados e, ao fundo, a serra de Chavães. Esta era tão rude nos seus inamovíveis rochedos, que até motivara o dito ancestral: “ Raios partam Chavães, onde prendem as pedras e soltam os cães».

            Estas e muitas outras coisas me passavam pela cabeça, enquanto o meu dono, que era de poucas falas, magicava certamente nas dificuldades da sua vida e na alegria que iria dar à família com os dois quilos de carne de vaca fresca, para mudar um pouco a rotina do bacalhau, do polvo salgado ou das sardinhas de barrica. E também com a mão-cheia de rebuçados de mel para os mais pequenos.

 

             Como acabei de dizer, o meu dono era de poucas falas, a não ser que julgando-me cansado, me incitasse com a voz contida de sempre:

 

            - Anda lá, Carriço, agora que já chegámos à estrada, da Quinta do Convento a Tabuaço é como se fôssemos de passeio.

 

            No regresso era a mesma coisa só que, na ida e volta, tinha-se esbatido muito do nosso entusiasmo. Mas, quando chegávamos a casa, lá estavam quatro crianças a disputar o privilégio de me levar a beber, na fonte pública, do outro lado da aldeia.

 

            Eu preferia os mais velhos, apenas porque os sentia mais seguros, mas, nesse dia infortunado, foi a menina, de seis anos e o rapazinho de quatro que obtiveram a licença do Pai:

 

            - A Martinha vai à frente com o Zezinho bem agarrado a ela, para não caírem. E tu, Carriço, vê lá bem como te portas.

 

            Levei-os devagarinho até à minguada fonte, matei a sede que era muita e eis senão quando, já de volta, nos saíu ao caminho um grupo de rapazolas, munido de vergastas de castanheiro e todos se empenharam em me fazer tomar o galope. Resisti quanto pude, mudei depois para um trote contido, sempre a pensar na preciosa carga que me coubera nesse dia.

 

            Porém, a certa altura, aflito com a maldade dos rapazes, o calor e as moscas que também se encarniçavam contra mim, perdi, não as estribeiras, mas o pedaço de raciocínio e de calma que me faziam tão estimado: foi como se uma nuvem vermelha me toldasse os olhos e um poderoso motor fosse acelerando, cada vez mais, o meu coração. Sentia a menina agarrada, com todas as suas forças, às minhas longas crinas, o menino a choramingar de susto, mas nada foi capaz de me travar o galope. Via aproximar-se o grande Largo circular do cimo do povo, adivinhava a catástrofe, mas já não estava em mim evitá-la.

 

            Ao percorrer o perímetro do Largo, o menino foi cuspido sobre as lajes, enquanto a menina, sem me largar as crinas, caíra de pé à minha frente tornando  claro, para mim, o que tinha acontecido. Estaquei imediatamente. Olhando para trás, vi o grupo de rapazes, agora chorosos, a tentar levantar o menino e um grupo de adultos a correrem para o lugar do acidente. A menina, lavada em lágrimas, correra para casa a procurar consolo no carinho dos pais.

 

            É-me impossível descrever, ou sequer pensar, na vergonha, nos remorsos e na tristeza que senti naquele mês interminável, em que ouvia dizer que o menino estava de cama, via o médico sair cabisbaixo e a abanar negativamente a cabeça, até à manhã, já ia alta, em que um pequeno caixãozinho branco, saiu o portão da casa e se dirigiu para a Igreja, no cimo do povo.

 

            Ninguém ralhara comigo, apenas para ali ficara, inútil e desamparado, até que os dias passaram, as searas voltaram a ficar maduras e recomecei a ajudar o meu dono, agora mais calado do que nunca.  

 

         Lisboa, 28 de Julho de 2010

 

                   Clementina Relvas

 

 

publicado por clay às 00:25 | link do post | comentar | favorito
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