Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 07.08.10

Aquele fora um dia de festa lá em casa. Um amigo trouxera, de presente, uma cabrinha, de três meses, que logo ali fora unanimemente chamada Estrelinha, já que toda ela era castanho-dourado e tinha na testa uma mancha branca do perfeito desenho duma estrela.

Ninguém, a não ser talvez os nossos pais, se pôs a deitar contas à vida: os cabritinhos que mais tarde haviam de nascer e, depois, o leite tão necessário para variar o pequeno almoço das crianças, limitado ao caldo verde e a uns fritos deliciosos, com ou sem açúcar, que a nossa mãe fazia de quando em quando.

Todos queriam brincar com a cabrinha que, sempre dócil, se deixava envolver nos jogos daquelas quatro crianças, sem nunca se mostrar enfadada. Os mais pequenos procuravam, nem sempre com êxito, montá-la como se dum cavalo em miniatura se tratasse. Já os mais velhos   inventavam histórias em que ela desempenhava sempre o papel principal: era o Capuchinho Vermelho que, com dois pulos, se desembaraçava do lenço dessa cor que deveria levar na cabeça, quando fosse levar os docinhos à Avó. E só a muito custo e recorrendo a vários estratagemas lá alcançavam, à vezes, o seu intento. Outras vezes era a professora que tinha de ficar muito compenetrada diante deles, enquanto fingiam consultar os livros e rabiscar os cadernos, pose que não aguentava por muito tempo. Mas o que mais os divertia era transformá-la na doente que, um a um, iam examinando: acariciavam-lhe os pêlos sedosos para ver se era verdade que tinha dores de barriga, enrolavam-lhe uma ligadura na perna como se a tivessem engessado para lhe curar uma suposta fractura. Só não conseguiam ver se tinha a garganta inflamadaou se tinha algum dente cariado, ela que nunca lavava os dentes, porque sempre se recusara obstinadamente a consentir que lhe abrissema boca.

Outro motivo de disputa era a alimentação: os mais pequenos queriam que ela provasse a sardinha, chegavam a dar-lhe um bocadinho do seu bife, mas nada.

- Vocês não sabem ainda que ela é um herbvoro.

- E que vem a ser isso?

- É que ela só gosta de ervas, de folhas de couve, de cenouras…

- Mas olhem que nós já a vimos roer castanhas cruas.

- Claro, vem a dar no mesmo.

Daí em diante, era ver quem lhe trazia as ervas fresquinhas, acabadas de apanhar, as folhas de couve e as alfaces que a mãe destinara para o almoço e minguavam como por milagre.

Só num ponto estavam de acordo: não queriam perder a cabrinha de vista e todos concordaram em que a melhor solução era prenderem-na ao tronco da velha amoreira, onde quase todos já tinham trepado a regalar-se com as sumarentas amoras, cuja tinta vermelha só saía quando esfregada com amoras verdes.

A amoreira ficava a poucos metros de casa e era uma ralação constante para a mãe, que não lhes poupava o ralhete quando chegavam de cara e roupas pintalgadas, embora não fosse essa a sua maior preocupação. É que a amoreira nascera, há muitos anos, num muro à beira da estrada, inclinada para a saída da mina que ficava, lá em baixo, ao fundo dum declive que prometia todos os perigos. E se os mais pequenos quisessem imitar os mais velhos…

Pois era neste lugar aparentemente seguro e até agradável pela sombra da amoreira, que as crianças iam, logo pela manhã, levar a sua cabrinha a pastar. A escassez das ervas era suprida por as que eles lhe levavam e tudo parecia passar-se no melhor dos mundos.

Só que um dia… Há sempre o diabo à espreita para fazer das suas. A cabrinha escorregou para o vazio e ficou dependurada da corda, enforcada.

Não é possível descrever a aflição, o desgosto e os rios de lágrimas que a mãe, a muito custo, teve de ajudar a estancar, sem coragem para censurar tal negligência. Quanto à cabra Estrelinha, nunca mais se falou dela. Fez-se um verdadeiro luto em que todas as palavras sobre o assunto feriam como acerados punhais.


publicado por clay às 00:18 | link do post | comentar | favorito
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