Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 07.10.10

 

           Passados poucos meses depois de termos chegado a Luanda, fomos dar um passeio de domingo pelos arredores. Seguimos o caminho da costa: estrada da Corimba mirando o mar muito azul e as ilhotas onde então começavam a aparecer provisórias casas de praia, depois, um pouco afastada, a Ilha do Mussulo com os seus areais dourados debruados de palmeiras e, finalmente, o Morro dos Veados onde, mais tarde, faríamos com os nossos filhos entretanto nascidos, muitos e animados pique-niques.

A dada altura do passeio, deparou-se-nos um angolano que nos fez sinal para pararmos o carro. Assim fizemos, curiosos por saber a que se devia comportamento tão insólito. Ele levava, aconchegados no colo, dois pequenos e encantadores veadinhos.  E queria vendê-los! Era frequente, sim, ver miúdos a vender pássaros exóticos, em toscas gaiolas de pau mas, como eu sempre detestei ver aves em cativeiro, passava de largo e seguia caminho. Agora, porém, a tentação era grande: além dos veados que há anos vira no Jardim Zoológico, o que me ficara para sempre gravado na imaginação, fora o Bambi do filme de Walt Disney, especialmente a cena em que ele chora pela mãe, morta pelos caçadores. E, como tinha ao lado da casa umas vastas e confortáveis capoeiras vazias, o pedido saiu-me antes de qualquer reflexão:

 

- Vamos comprar os veadinhos?     

                                          

- Logo os dois, nem penses nisso.

 

- Mas têm uns olhinhos tão doces, são tão queridos e pequeninos…

 

- Pois é. Mas não vão ficar assim para sempre. Vão crescer imenso e…

 

- Pelo menos um.

 

Eu já sentia o coração apertado pela separação dos dois animaizinhos, certamente irmãos. Mas tinha perdido, no parto, o meu primeiro filho e parecia-me que, ao tratar do pequeno veado, talvez achasse um pequeno lenitivo para a minha dor e um centro de interesse para me ajudar a sair da depressão em que caíra.

 

Custou-nos apenas cem escudos e, no regresso a casa, com um pôr-do-sol magnífico a que quase nem dei atenção, vim sempre abraçada ao veadinho, afagando amorosamente a sua pelagem macia. Foi muito a contra gosto que me separei dele, levando-o para o galinheiro onde todos os dias passávamos algum tempo juntos. A princípio, alimentava-se com ervas e folhas de árvores que havia por ali perto, mas não tardou que estas ficassem despidas. O seu apetite tornara-se insaciável, enquanto crescia a olhos vistos. Na ida semanal à praça com o empregado, trazíamos sempre grandes sacos de folhas de couves, alfaces, nabiças e outros vegetais. Mas tudo desaparecia num ápice. E o veado crescia, deitava corpo e perdia a graça do pequeno bambi que tanto me seduzira.

 

Aproximava-se o Natal e o meu marido comentou, como quem não quer a coisa:

 

- Que rica ceia aí tens para o nosso empregado e a sua numerosa família.

 

Arrepiei-me ao ouvir tal coisa mas, nessa altura, já o meu coração andava cheio de sombras: o remorso de ter separado os dois irmãos, em vez de os ter comprado ambos e de os ter restituído à Natureza, onde, pensava eu para me consolar, também podiam não ter sobrevivido; a angústia de ver um animal tão doce e já tão crescido naquela grande gaiola de tábuas de madeira que, por mais que eu lá entrasse para o visitar, não deixava de ser uma prisão. E eu, que sempre fora contra criar animais em cativeiro…

Estava decidido. Tal como nós, que não éramos vegetarianos, tivemos na nossa mesa de Natal um enorme peru, bem douradinho no forno e enfeitado de papillotes, também o nosso empregado passou um Natal diferente, com a família deliciada à roda duma saborosa caldeirada de veado.

 

Ora, como se costuma dizer, este episódio serviu-me de emenda. Deixei de ver os veadinhos como desenhos animados e passei a ter, por todos os seres vivos, o mesmo e profundo respeito. Só ainda me não tornei vegetariana, mas quem sabe?

     

                                            

 

publicado por clay às 16:31 | link do post | favorito

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