Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 03.04.11

 

 

    Meus queridos netos:

 

            Há dias a Cristininha mostrou a sua estranheza por, ao contrário do que me vê fazer, nunca se ter confessado nem comungado. Veio avivar em mim uma preocupação profunda, desde que vi passar os anos sem que os seus Pais a inscrevessem na Catequese.

 

            Então ela perguntou-me:

 

            - Vóvó, tu dizes que eu fui batizada, portanto sou católica, não é? Tenho andado a pensar nisto e como, agora que vou fazer dezasseis anos, tenho lido algumas coisas sobre o budismo que me têm impressionado, digo, para mim mesma que, se um dia tiver filhos, esperarei que atinjam a idade em que tenham capacidade para escolher a religião que preferem. Que pensas destas minhas hesitações?

 

            Pensei um pouco e respondi-lhe com as palavras da Mensagem Quaresmal do Papa Bento XVI:

 

           - Filhinha, “ o Batismo que se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata dum dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças”.

 

           Depois, e para me tornar mais próxima dela, referi-lhe um caso dramático da minha vida:

 

           - Olha, o meu primeiro filho, teve um grave traumatismo de parto. Na altura, os médicos diziam-me que não ia sobreviver muitos dias e, se sobrevivesse, ficaria limitado a uma vida vegetativa, hipóteses que, no meu desespero, eu me recusava a aceitar. Dois dias depois, começaram a dizer-me que tivesse esperança num novo tratamento que lhe estavam a ministrar, mas, não sei explicar porquê, o meu coração convenceu-se de que, em breve, iria perder o meu bebé.

 

            Nessa convicção, liguei para o Vôvô e pedi-lhe que viesse quanto antes à Maternidade de Luanda, com um sacerdote para batizar o nosso filho. Apesar de já ser noite, não tardou muito a chegar, pois, no caminho da nossa casa para a Maternidade ficava a Igreja da Sagrada Família, onde havia sempre, durante toda a noite, um capuchinho de vigília que logo se dispôs a aceder ao seu pedido.

 

           O menino foi batizado e morreu duas horas depois. Embora mergulhada numa depressão profunda, havia uma Luz no meu coração: o meu filho tivera o seu encontro com Cristo e seria, daí em diante, um dos Seus anjos a velar por nós.

 

           Escrevo esta carta a pensar na Mensagem do Santo Padre para esta Quaresma, em que, evocando os Evangelhos deste tempo de caminhada até à Páscoa, ele dá particular relevo às promessas batismais, celebradas no Tríduo Pascal e sobretudo  na Grande Vigília da Noite Santa. Aí reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida “, daquela vida que nos comunicou quando renascemos ”da água e do Espírito Santo”.E, como o cego da piscina de Siloé, também nós reafirmamos : “ Eu creio em Vós, Senhor”.~

 

          Exige-me também estas reflexões a notícia lida há dias na imprensa, em que se dizia que um grupo de católicos queria exigir a anulação do seu Batismo, recebido quando ainda eram crianças e não sabiam tomar decisões. Como se o Sacramento do Batismo, um dom gratuito de Deus que nos faz morrer para o pecado e participar da vida nova de Cristo Ressuscitado, fosse um acessório de que cada um de nós pudesse prescindir a seu bel-prazer. Cristo morreu por nós e ressuscitou mas, pelo Espírito Santo, fica connosco até ao fim dos tempos para nos salvar a todos.

 

        E é nessa caminhada quaresmal, alicerçada no jejum, na esmola e na oração que nós podemos encontrar-nos com Cristo, pelo caminho da conversão, rumo à Páscoa.  

 

                                               Lisboa, 1 de Abril de 2011

                                               Clementina Relvas

 

publicado por clay às 17:06 | link do post | comentar | favorito
José Luis Madeira a 3 de Abril de 2011 às 21:20
Gostaria de saber se tem alguma relação familiar com a familia Relvas da Golegã. Obrigado e desde ja agradeço a resposta.
José Luis Madeira
clay a 20 de Maio de 2011 às 15:59
Lisboa, 20 de Maio de 2011

Peço desculpa de só agora responder ao seu comentário, que agradeço, e só posso informar que a família Relvas, do meu marido, é de Portalegre e desconheço se tem alguma ligação à família Relvas, de Alpiarça.
Talvez le interesse saber que somos tios do Miguel Relvas, secretário geral do PSD.
Cumprimentos
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