Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 08.04.11

                      

Meus queridos netos:

 

 

            Eu até já andava admirada porque o relógio estava ali havia já alguns meses e a menina, tão curiosa, ainda não tinha arriscado qualquer pergunta. Até que chegou o dia:

 

            - Ó Vóvó, o teu passarinho não canta?

 

            Ela era ainda muito pequena e só me ocorreu responder-lhe:

 

            - Canta daqui a bocadinho…

 

            A resposta não foi nada satisfatória, mas a atenção da criança foi desviada para o Vôvô, que vinha a  entrar em casa. Fiquei, contudo, a pensar como havia de satisfazer, sem trauma, aquela natural curiosidade. “Conto-lhe uma história de fadas, daquelas em que há seres encantados – pode até ser um príncipe – e fica o assunto arrumado”.

 

            Mas os anos passaram, a menina foi viver para o Algarve e, quando vinha a casa dos Vóvós, os dias eram tão excitantes que o passarinho nunca mais veio à baila.

 

            Até que uma vez, passados mais uns anos, havia outro netinho a fazer perguntas:

 

            -Ó Vóvó, o teu passarinho não canta?

 

             E não ficou por aqui:

 

            - Se calhar é porque ficou preso no relógio e ninguém deu por isso…

 

            As coisas não podiam ficar assim. O Zezinho, tão interessado em animais e em objetos mecânicos - máquinas fotográficas, computadores - não se contentaria com uma historieta qualquer. E como andava sempre às voltas com um Atlas do Corpo Humano, sabia, tanto quanto os seus poucos anos lhe permitiam saber, que os corpos morrem e podem ser embalsamados., como, aliás, já tinha visto numa exposição de dinossáurios. Achei que, por isso, tinha direito ao conhecimento dos factos:

 

            - Olha, Zezinho, este canário foi, durante muitos anos, um companheiro fiel da Bisavó Inês e do Bisavô José. A Bisavó dava-lhe de comer, água fresquinha, falava com ele na sua voz carinhosa e ele respondia-lhe, agitando as suas pequeninas asas e cantando sem cessar. O Bisavô chegava-se a ele e desafiava-o para a brincadeira sempre que, à sua volta, se falava de Timor, onde tinha passado muitos anos felizes mas, mais tarde, durante a II guerra mundial,  longe da família, quatro anos num campo de concentração japonês.

 

            Até que um dia, já o Bisavô tinha partido para o Céu, o coração daquela avezinha deixou também de bater. A Bisavó ficou inconsolável e não sabia que fazer daquele corpinho inerte. Valeu-lhe a ajuda do seu neto mais velho que conhecia, do Liceu, uma pessoa perita em embalsamamento de animais.

 

            Passado algum tempo, ei-lo que chega ao pé da Avó e lhe entrega, numa caixinha, o corpito do canário:

 

            -Tome, Avó. Bem sei que já não conseguirão conversar os dois mas pode vê-lo todos os dias. E até parece que está vivo, não é?

 

            A Bisavó ficou comovida e colocou o passarinho numa estante, bem à vista de todos.

 

            Até que ela também partiu para se encontrar com o Bisavô e, como no Céu não querem passarinhos embalsamados, só à solta e felizes nos seus cantos melodiosos, o canário ficou sozinho, lá em casa. Mas não por muito tempo, porque logo o vosso Vôvô, ao deparar-se com um antigo relógio a que, todos os dias, o Bisavô dava corda, achou que ali seria o melhor sítio para colocar a avezinha, como se dum relógio de cuco se tratasse. Seria aquela a sua nova gaiola, onde ouviria bater as horas e despertaria o interesse dos meninos que, entretanto, haviam de ir chegando, para animar a casa dos seus Avós.

 

                                               Lisboa, 31 de Março de 2011

                                               Clementina Relvas

  

publicado por clay às 09:49 | link do post | comentar | favorito
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