Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Domingo, 01.05.11

 

A velha casa fazia parte da herança do meu Pai, ao ficar viúvo e sem filhos duma senhora mais velha com quem casara, ao regressar do Brasil. Com a casa, herdara também algumas propriedades rurais, que lhe permitiram o desafogo que não encontrara na aventura brasileira.

 

Depois, ao casar em segundas núpcias com a minha Mãe, uma rapariga de vinte anos, metade da idade dele, começaram a chegar os filhos. Eu fui a segunda, mas a primeira menina. Ora a minha Mãe tinha, de fato, ideias muito avançadas para a época, sobretudo tendo em conta que só pudera fazer a quarta classe e nunca saíra da pequena aldeia.

 

Quando tiveram de escolher um nome para mim, ela não teve qualquer hesitação:

 

- Vamos por-lhe, em homenagem à tua falecida mulher, o nome dela : Clementina.

 

Algumas pessoas da família não gostaram da escolha, mas a minha Mãe justificou-a:

 

- Se ela não teve filhos e somos nós a beneficiar de tudo o que a senhora deixou, parece-me justo que a nossa primeira filha lhe herde também o nome.

 

Foi um argumento poderoso, que preencheu todas as reticências. E assim eu fiquei a chamar-me Clementina, nome de que nunca gostei, mas que sempre me encheu de orgulho pela nobreza da atitude que esteve na sua origem.

 

Contudo, do que eu tencionava falar era da velha casa. Tinha uma sala com muita luz e três pequenos quartos sem janelas, um corredor que levava a uma ampla cozinha sem chaminé e de lareira no chão. Esta dava para uma varanda quadrada de madeira, com uma modesta balaustrada do mesmo material e, por fora, um espaço saliente, onde a minha Mãe tinha sempre muitos vasos com flores. Ficava ao lado da única rua da aldeia, sobre um pequeno largo coberto de enormes lajes de xisto. Por baixo da cozinha, com acesso por uma escada de madeira, tapada por pesado alçapão, havia uma pequena loja, com talhas de barro onde se guardava o azeite e uma amassadeira, junto da qual, ao mesmo tempo que ia deitando a água para fazer a massa, eu me quedava  assombrada pelo milagre do pão que, mais tarde, havia de sair do forno comunitário e alimentar-nos ao longo de toda a semana. Esse milagre começava, acreditava eu, com as palavras que a minha Mãe pronunciava, enquanto fazia uma cruz em cada pão tendido:

 

            "São Mamede te levede, São João te faça pão e a Virgem Santa Maria te deite a sua bênção" Em seguida espetava na massa um raminho de carqueja, que havia de o distinguir dos outros que compunham a mesma fornada.

 

            Voltemos, no entanto, à velha casa: no piso térreo, inferior, ficava uma loja para armazenar colheitas, a pocilga onde o porco ia engordando para a matança e a loja do nosso cavalo Carriço, que, bem mais tarde, havia de morrer de velho.

 

            Entretanto, porém, mais três filhos foram chegando e casa teve de ser ampliada: os meus Pais mandaram acrescentar-lhe uma grande sala e um quarto amplo e muitas janelas. Ao longo destas duas divisões e com vista para o quintal, corria uma varanda que tinha, num dos extremos – luxo pouco usual na aldeia – uma retrete que encaminhava os dejectos diretamente para um recanto, coberto de palha.

 

            Mas o que sempre mais me agradou, na parte nova da velha casa, era o alpendre de pedra virado ao Marão, que prolongava o quarto onde eu me instalei, anos a fio, quando ia passar as férias grandes. Como o sol não lhe batia de chapa, e passadas as horas de maior calor, era ali que eu me instalava, vendo, ao longe as vidraças das casas de Tabuaço nimbadas de mil cores pelo sol poente e, mais longe ainda, a montanha das minhas saudades. Foi ali que me encontrei com tantos livros do meu enlevo, matéria fundamental da minha cultura literária e onde também ensaiei os primeiros passos na poesia.

 

                                               Lisboa, 11 de Abril de 2001

 

                                               Clementina Relvas

publicado por clay às 00:15 | link do post | comentar | favorito
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