Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 01.06.11

                     Meus queridos netos:

 

         Tinha nascido à beira dum regato, uma amostrazinha de salgueiro que, em breve se tornara verdejante e ramalhudo. O terreno era fértil e a água era, claro, coisa que não faltava, mesmo naqueles estios sufocantes em que o regato se transformava num tímido fiozinho, difícil de distinguir no meio do feno que, rapidamente, crescia e tombava sobre ele.

 

       Gostava de relembrar a sua vida feliz, principalmente depois que bandos de pardais, alguns melros e toutinegras começaram a construir os ninhos nas suas ramadas agora seguras e acolhedoras. Primeiro, sentia um certo desconforto com toda aquela movimentação: colocar e moldar o material dos ninhos, com as discussões que por vezes se seguiam, frequentemente no meio de grande alarido:

 

      - Então tu não vês que aí é quase a pontinha do ramo e… se um dos nossos filhotes, mais curioso, se debruça um pouco e caem todos desta perigosa altura…

 

      - Todos? E se só tivermos um filho ou dois?

 

      - Vem a dar o mesmo, não achas? Embora eu sonhe com grandes ninhadas gorjeantes que, embora nos tragam muito trabalho enquanto dependerem de nós, serão a alegria das nossas vidas.

 

      E lá se iniciava a mudança, com muitas hesitações, até encontrarem um tronco já poderoso, onde começavam as “obras”. Ali ficavam o tempo necessário para que os “miúdos” se desenvolvessem e se aventurassem no voo e na busca de alimento.

 

     Os anos foram passando, as gerações também e, quando havia algum elemento mais conservador que por ali se fixava, o salgueiro passava a ser a “nossa casa” e era o melhor dos mundos.

 

     Até que um dia, um passante descuidado e ainda muito alheio à preservação do ambiente, deitou fora uma beata de cigarro mal apagada e um pequeno incêndio começou a lavrar nas imediações do já velho salgueiro.

Aparentemente, este não foi atingido mas a verdade é que definhava dia a dia e foi secando, sem remédio que lhe valesse.

 

  - São os anos… dizia de si para si. Tenho de dar graças a Deus por uma vida tão longa e tão feliz, mas agora, por aqui me quedarei até ser transformado em lama ou pó, sem qualquer utilidade.

 

   “Quem sabe?”. Era uma vozinha interior, muito sumida, mas que lhe dava algum alento e esperança, nem ele sabia bem de quê.

 

    Iria sabê-lo em breve. Algum tempo depois, passou por ali um velhinho, muito curvado pela idade avançada e por algumas artroses, que costumava, com muito esforço, acompanhar um neto, estudante de botânica, nas suas investigações sobre plantas, que ele, autodidata, sempre complementava com a sabedoria duma longa prática.

 

    De repente, o neto parou, olhou fixamente para o salgueiro e disse:

 

    - Repara Avô. Aquele ramo à esquerda, embora seco, podia oferecer-te um bom apoio nestas caminhadas, já que não queres usar, por a achares pretensiosa aquela bonita bengala que te trouxe da feira de Trancoso. Mas, como eu tenho uma certa queda para o artesanato, garanto que te fazia uma rústica mas bem cómoda daquele pau de salgueiro.

 

    - Não duvido e aceito - respondeu o Avô sem hesitar.

 

   E, pelo corpo moribundo da velha árvore, correu um frémito de alegria que o levou a suspeitar de que talvez - quem sabe? – a eternidade…

 

            Mas o seu raciocínio não conseguiu ir mais longe.

 

                                   Lisboa, 31 de Maio de 2011

 

                                           Clementina Relvas

 

 

publicado por clay às 09:54 | link do post | favorito

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