Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 21.05.07

                        

 (Para a Cristina, nos seus doze anos)

 

Lisboa, 8 de Maio de 2007

  

Minha querida netinha:

 

Quando eras muito pequena e ainda não sabias ler, gostavas que eu te contasse aquelas histórias que quase todos os meninos e meninas conhecem: a Branca de Neve, a Gata Borralheira, o Polegarzinho, o Gato das Botas, o Feiticeiro de Oz e tantas outras que muitas vezes transformávamos a teu gosto, sobretudo para que as pessoas más se tornassem um bocadinho melhores.

 

Agora, que já fazes doze anos, essas histórias “foram à vida”, como tu costumas dizer a brincar, mas na realidade foram mesmo: foram encantar outras crianças pequenas dilatando o seu reino de fantasia e de sonho. E talvez não queiras acreditar mas, muitas vezes, quando vamos ficando velhos, voltamos a deliciar-nos com elas, talvez para escaparmos a certas realidades mais duras. Sobretudo se temos um netinho ou uma netinha, de olhos muito abertos, curiosos e atentos, a escutar-nos e a pedir-nos, quem sabe? – Conta lá outra vez.

 

Mas tudo isto é para te dizer que tu cresceste, queres saber como é o mundo real e me pedes – e ao Vôvô – para te contarmos “casos das nossas vidas”.

 

É isso que vou fazer, embora pense que esta, ainda que verdadeira, é uma história fantástica: inesperada, invulgar e com um desfecho que desconheço mas deixo à tua fértil imaginação encontrar.

 

E era uma vez… Não, não era uma vez, há muitos anos. Foi há poucos dias, numas curtas férias que o Vôvô e eu decidimos passar na Beira, naquilo que se costuma chamar “Portugal Profundo”. E aqui, penso eu, já te começa a cheirar a um qualquer mistério, muito bem guardado. Mas não é só um mistério: são vários.

 

Antes de mais nada, tratou-se de irmos visitar uma pequena aldeia, que desde tempos medievais (o séc. XIII) vira passar os anos., escorregando pela encosta abaixo, até à beirinha do rio Dão. Com muita chuva e nevoeiro no Inverno e toda coberta de flores na Primavera.

 

Lia-se na placa indicativa do lugar que se tratava de uma aldeia medieval reconstruída e eu pus-me logo a imaginar um aglomerado de pequenas casas escuras feitas de granito, telhados de colmo com uns pequenos buracos por onde, às horas de preparar as refeições, saía um rolo mais ou menos espesso de fumo que enchia o ar de cheiro a estevas e rosmaninho. Haveria também uma pequena igreja cujo sino, quando tocava as Trindades, ao fim da tarde, fazia a criançada recolher imediatamente a casa…

 

A igreja lá estava, à entrada da aldeia: pequenina mas toda caiada de branco e com o seu sino silencioso pois já não se costuma tocar as Trindades.

 

Mas o resto… o que eu tinha pensado não existia nem se podia imaginar como fora dantes. Agora as casas eram ainda de granito mas feitas com perfeição por operários habilitados, com janelas muito bem esquadriadas e os telhados… os telhados de telha marselha a brilhar de nova… Um mar de vermelho claro… Ao longe, mais ao fundo, duas piscinas e um campo de basquete.

 

Mas então o que tinha sido feito da minha aldeia medieval? Tive a resposta no restaurante, num restaurante típico reconstruído à imagem da aldeia, à porta do qual já se apinhava um grupo de pessoas que vinha aproveitar o seu domingo. Disse-me o gerente que aquela aldeia tinha sido comprada em bloco por um construtor imobiliário muito rico e também com bom faro para os negócios. Mandara refazer as casas, uma a uma, e agora ali estavam bem mobiladas, luz eléctrica e água corrente e daí televisão, casa de banho e todo o conforto que faria morrer de espanto um habitante já não digo do séc. XIII mas de meados do séc. XX. Em resumo, da velha aldeia só restava o nome: Póvoa Dão. Algumas casas foram compradas por gente da cidade desejosa de encontrar na natureza remédio para o desgaste da vida quotidiana. Outras, alugam-se agora ao dia – mínimo duas noites – integrando-se no que actualmente se chama “turismo de aldeia”.

 

Ainda meio aturdida, só o canto de muitas aves, aves diferentes, as giestas, tojos e várias árvores, todos carregados de flor, me faziam lembrar a pequena aldeia onde nascera há muitos anos, essa sim, quase medieval nessa época.. Mas faltava ali qualquer coisa. Algo que eu não sabia identificar mas me causava uma sensação de perda: não havia crianças a correr, nem os seus risos ou choros. Era isso então…

 

Entretanto, aproximei-me da ampla varanda do restaurante, com largas vistas para o lado do rio, e esfreguei os olhos: ali, diante de mim, estava um menino dos seus doze anos, sentado a escrever, muito compenetrado no seu trabalho. O meu lado de professora levou-me logo até junto dele, disposta a meter conversa sobre os trabalhos de casa que tão aplicadamente fazia. Mas os meus espantos não tinham terminado: o menino, que me disse chamar-se Henrique, estava a escrever um livro de aventuras e já ia em fase adiantada: o malvado tinha adormecido a menina com a ajuda de uns pós misteriosos e o mágico, seu amigo, estava prestes a despertá-la.

 

- Gostas de escrever? Perguntei-lhe.

- Gosto muito. Sou a única criança desta aldeia e quando regresso da Escola que fica a uns vinte quilómetros da Póvoa, tenho de vir aqui para o restaurante, onde a minha mãe é cozinheira.

- E para te entreteres…

- Primeiro faço os trabalhos de casa e depois ia ver televisão.

- Nada mal…

- Pois não, só que há uns tempos para cá, eu já não suportava a televisão: os desenhos animados tinham deixado de me interessar e os outros programas eram, na maioria de guerra, fome e violências.

- E então…

- Então tomei uma decisão: ia inventar e escrever uma história para mim, com as aventuras que me viessem à cabeça, e já não quero outra coisa. E olhe, já escrevi mais isto aqui atrás.

- Estás muito adiantado. Tens uma letra bonita, um vocabulário rico que sabes utilizar muito bem e nas páginas que já li não encontrei erros de ortografia. Os meus parabéns, Henrique. Imagino que um dia serás escritor e quando o teu primeiro livro for publicado corro logo à livraria a comprá-lo. A menos que o publiques com pseudónimo e então não saberei que o autor és tu.

- Pois é. Até já tenho pensado nisso porque, se tiver um pseudónimo  sou como que outra personagem a juntar às que eu invento.

 

Despedi-me do Henrique, convencida de ter assistido a vários milagres: uma aldeia trazida das trevas para os tempos modernos e um menino que espero venha a ser escritor como deseja.

 

Só uma mágoa me apertava o coração: olhar para o campo de basquete sem meninos com quem o Henrique pudesse brincar aos fins-de-semana e nas pausas da sua labuta de escritor.

Olha a Vóvó com o Henrique:

 

                  

  Beijinhos e até à próxima!

 

publicado por clay às 18:09 | link do post | comentar | favorito
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