Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 15.06.11

 

                        Meus queridos netos:

 

             Era um dia como todos os dias. As pessoas tinham-se dispersado, nas grandes cidades como nas pequenas aldeias, cumprindo as suas rotinas ou procurando escapar-lhes.

 

            A pequenita Haruki, cuja graciosidade justificava o significado deste nome, “árvore da primavera”, mal tinha acabado de comer o delicioso sushi que sua mãe, Arata, “a doce”, tanto se esmerara a preparar-lhe, precipitara-se, feliz, ao encontro do seu vizinho e amigo Yukito. Este, com os engraçados trejeitos do seu rosto, não podia deixar de lembrar o “coelho da neve”, que estava subentendido no seu nome. Eram como unha com carne e vibravam com as mesmas brincadeiras.

 

           Sendai era uma cidade importante, não só pelo seu milhão de habitantes, como pelas já antigas centrais nucleares, que forneciam energia eléctrica para a quase totalidade do país.

 

            O pai de Haruki chamava-se Ken, como o marido da boneca  Barbie, a preferida da menina e o seu nome significava “poderoso”. Realmente, para Haruki, não havia no mundo ninguém com tanta força e tão capaz de proteger a sua pequena família de todos os perigos, fosse qual fosse a sua magnitude. Obedecia-lhe cegamente, pois, apesar de ele não ser visivelmente tão doce como a mãe Arata, sabia sempre o que era melhor para todos.

 

            Gostava muito de Yukito, filho dum seu colega de empresa e ficava contente quando os via brincar juntos. Proibira-os, contudo, de se aproximarem das centrais nucleares e como, perto das suas casas, havia um grande parque arborizado, com muitos e modernos meios de diversão, era ali que passavam os tempos livres. Como moravam nos arredores, avistavam o mar lá muito ao longe e, quando os pais decidiam fazer praia, iam sempre para sítios distantes, mais a sul.

 

            Mas nem por isso o mar deixava de ser, para eles, um ponto de atração, embora resumido àquela imensa toalha líquida, inacessível, com as ondas ausentes, como se não existissem.

 

            Não assim nesse dia 11 de Março, pelas duas horas da tarde, quando viram tudo desmoronar-se à sua volta, enquanto os dois amiguinhos, abraçados, esperaram cinco intermináveis minutos que a terra se aquietasse. Nunca, nas suas curtas vidas, tinham visto nada assim e o seu espanto não teve limites quando viram o mar crescer pela terra dentro, em ondas enormes, que traziam consigo dezenas de carros, casas e até barcos de grande porte.

 

            Sempre abraçados mas cheios de pavor, fugiram em direção à casa de Haruki. Ainda não tinham chegado a meio do caminho quando, sem palavras, foram arrastados pelos respectivos pais para longe, para muito longe daquele inferno, onde nem sequer faltava o realismo das chamas duma imensa fogueira, resultado da explosão dum depósito de combustível.

 

            Já no Centro de Acolhimento, onde se aglomeravam conhecidos e desconhecidos é que ouviram falar dum terramoto de grau nove, do terrível tsunami que se lhe seguiu e engoliu a maior parte da sua cidade e duma grande catástrofe que estava prestes a acontecer nas centrais proibidas.

           

                        Lisboa, 23 de Março de 2011

 

                              Clementina Relvas

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