Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 22.06.11

          

 

          Meus queridos netos:

 

 

                Não vos garanto que esta não seja mais uma daquelas inúmeras lendas que se foram acumulando em torno de Santo António de Lisboa, um dos mais sábios doutores da Igreja, mas também um dos mais queridos santos do nosso povo, que todos os anos lhe dedica as festas populares, enchendo de luz e cor a Avenida da Liberdade e de animação todos os bairros populares lisboetas.

            É verdade que não tenho nenhum meio de prova, mas acho muito natural que Fernando de Bulhões, o nome que lhe deram ao nascer, em Lisboa, em 1195, tivesse acompanhado muitas vezes o seu pai em passeios à beira Tejo, rio que então entrava cidade dentro. Nesses passeios, não deixou certamente a criança, tão boa observadora, de se deleitar a ver os cardumes de peixes, grandes e pequenos, desde os barbos e os linguados até aos divertidos golfinhos que, num rio ainda não poluído, corriam atrás de barcos e canoas e miravam, curiosos, as caravelas vindas de terras cada vez mais distantes.

           Mas a infância passa num sopro e, em breve, o nosso menino já era ordenado cónego regular de Santo Agostinho, Ordem que mais tarde trocou pela de S. Francisco, adoptando o nome de António e dedicou-se à pregação da doutrina de Cristo, insistindo na necessidade de seguir os Seus Mandamentos. Fascinado pelo exemplo de fé dos Santos Mártires de Marrocos, decidiu dedicar-se à evangelização daquela parte do Norte de África. Na viagem de barco para aquele país, não lhe devem ter passado despercebidas outras espécies de peixes: os polvos, as rémoras e calculo que também os peixes voadores, sempre aos saltinhos à volta dos navios.

            Uma doença grave de que foi acometido veio por fim aos seus projetos e teve de regressar à Europa: em França, trava uma luta antecipada pelo que nós agora chamamos os direitos humanos, dando especial relevo à defesa dos mais fracos e desprotegidos.

            Tempos depois partiu para Itália e, da cidade de Pádua, onde veio a falecer em 1231, estendeu a sua ação missionária, seguindo as regras da Ordem de S. Francisco por um vasto território mais ou menos convulso, onde conquistou inúmeros seguidores.

            E um dos lugares onde gosto de o imaginar é junto a um dos numerosos canais de Veneza, à espera de grandes multidões, ansiosas por ouvirem a palavra dum orador tão exímio que depressa se tornou respeitosamente conhecido como a “língua de ouro”. Só que, naquele dia, talvez porque era grande a perturbação com o receio da peste que se estava a aproximar da cidade, poucas pessoas tiveram a coragem de deixar o abrigo das casas e o nosso santo viu-se, contra o costume, a pregar a uma assistência reduzida e desatenta.

          Foi então que, como no século XVII nos é referido pelo célebre escritor e pregador, o Padre António Vieira, Santo António pronunciou a célebre frase: “Já que os homens me não querem ouvir, escutai-me vós, peixinhos do mar”

            E diz-se que, de repente, num verdadeiro milagre, se aglomerou, junto à margem um imenso cardume de peixes, grandes e pequenos, escutando atentamente, com as cabeças fora da água, as sábias palavras do taumaturgo, sem sequer se aperceberem de que respiravam sem oxigénio.

 

                                       Lisboa, 14 de Junho de 2011

 

                                           Clementina Relvas

           

publicado por clay às 11:54 | link do post | comentar | favorito
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