Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 09.09.11

                 

 

É um baú imaginado e tornado real, donde vão sair, não como num passe de mágica mas à custa de muito trabalho e determinação, os brinquedos que não encantaram a sua infância, modesta e afastada dos centros do grande consumismo.

 

É que ele há vidas assim…

 

Esta começou com histórias inventadas e contadas pela Mãe, à volta da lareira, naqueles invernos infindáveis que gelam a água das torneiras e deixam frieiras nos dedos expostos de crianças e adultos.

 

Era um mundo pequenino, em que até os cenários das histórias eram reais e próximos e só a imaginação se esforçava, muitas vezes sem êxito, por alargar.

 

Esses horizontes cresceram com a Escola Primária, onde conheceu nomes de cidades, montanhas e rios que também se quedavam na inquietação do «como será?». Os estudos secundários ainda decorreram, quase até ao fim, ali, na vila vizinha, onde os socalcos do Douro se acentuavam até formarem aquela paisagem mítica, que mal se acredita ser o fruto do trabalho do Homem.

 

As suas raras incursões pelo Porto, onde já viviam dois irmãos, é que vieram a revelar-lhe o significado de «cidade» e, também, dum grande rio que a encaminhou até ao mar. Não teve medo, só espanto, daquela imensa massa de água onde sentia que, com as devidas precauções, poderia aventurar-se a nadar como no pequeno rio da sua aldeia, cujos pegos e recantos se lhe tornaram familiares desde muito cedo.

 

Foi no Porto que terminou os estudos secundários e teve de  fazer a primeira grande escolha da sua vida: o Curso Superior que lhe abriria as portas para outros mundos, estes, agora, bem mais vastos e complexos. A Arqueologia não lhe dizia grande coisa, mas dava-lhe a oportunidade de encetar o caminho: ir para Lisboa, onde todos os sonhos tornavam focos de luz a perseguir como estrelas benfazejas.

 

Foi assim, e com uma dessas estrelas a brilhar só para ela, que ganhou um prémio para conhecer a Itália, nomeadamente Roma e um dos cumes da Arqueologia mundial: as ruínas de Pompeia. E a estrela não se desvaneceu: no ano seguinte, novo prémio, desta vez um cruzeiro às fascinantes Ilhas Gregas. Mas nem assim, com todo este mel inesperado, a Arqueologia se lhe tornou indispensável, como devem sempre tornar-se os rumos que decidimos seguir.

 

Fascinada pela língua italiana, procurou desenvolver essa aptidão. E foi no Instituto Italiano que um novo caminho se lhe abriu, através do conhecimento com um jornalista que em breve a convidou para publicar pequenos trabalhos no jornal onde trabalhava e acontecia ser o mais importante do País.

 

Com o Curso terminado, logo foi chamada a colaborar no jornal de forma mais efectiva, o que lhe permitiu percorrer o País de lés-a-lés, com vista à apreciação de hotéis e restaurantes e à elaboração de roteiros com sítios inesquecíveis. Isso sim, era o molde que assentava à sua personalidade e aos seus interesses, mas que teve o seu tempo e terminou.

 

Passou então a assumir o estatuto de verdadeira jornalista, com as grandes entrevistas a pessoas que a fascinavam pela sua inteligência, carácter e percurso de vida.

Havia, porém, um bichinho lá dentro, a espevitar o seu espírito de aventura e desejo de não se deixar cristalizar numa tarefa que se tornara rotina.

 

Depois dum casamento feliz, tinha agora dois filhos pequenos a que desejava dedicar mais tempo. E foi aí que surgiram «Os brinquedos do Baú», encontrados, por acaso, numa pausa de lazer. Foi como se tivesse regressado ao mundo de criança, dos sonhos fora do seu alcance que, por mais que estendesse as mãos, jamais conseguira alcançar.

 

 Agora sim, podia deliciar-se com aqueles brinquedos que recriavam os antigos: aviões, carros, carrosséis, servicinhos de chá e até uma perfeita reprodução do Titanic. E sentia-se feliz de cada vez que uma senhora de idade parava junto da sua montra e comprava, ou simplesmente namorava, um brinquedo para um dos seus netos.

Mas não se ficou por ali: tinha um dom especial para desencantar todas as coisas deliciosas que condimentam a vida das pessoas afortunadas e, com todo o carinho e muito trabalho, criou também uma cadeia de venda de produtos gourmet.

 

Por enquanto, ainda não encontrou mais tempo livre para os filhos pequenos, mas, com tanta fé e determinação, não tardará a fazer da sua vida um sonho realizado  que nunca deixou de sonhar e de perseguir.

 

                Clementina Relvas

publicado por clay às 10:13 | link do post | comentar | favorito
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